Neoliberalismo, BRICS e Guerra Econômica: Evolução Histórica

Neoliberalismo, BRICS e guerra econômica: evolução histórica I Radhika Desai e Glenn Diesen (fotos)

PolitikBr comenta, neste artigo, a excelente entrevista de Radhika Desai ao podcast do professor Glenn Diesen, onde se analisa, de forma lúcida, a trajetória histórica que vai do capitalismo industrial clássico ao neoliberalismo contemporâneo — este último transformado em arma econômica do Ocidente coletivo, com destaque para o papel dos EUA e a reação do BRICS.

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Por PolitikBr I Brasília, Em 12/08/2025, 19h:35, Leitura: 5 min

Radhika Desai

Quem é Radhika Desai?

Radhika Desai é professora no Departamento de Estudos Políticos da University of Manitoba, em Winnipeg (Canadá). Além disso, ela dirige o Geopolitical Economy Research Group, um centro de pesquisa dedicado à análise crítica da economia política global.

Radhika é autora do livro Geopolitical Economy: After US Hegemony, Globalization and Empire (2013), no qual propõe uma abordagem marxista renovada para entender o capitalismo global, dando origem à escola conhecida como “economia geopolítica”, que retoma as raízes clássicas da economia política e do marxismo para explicar o desenvolvimento desigual e o conflito imperialista, se contrapondo às teorias dominantes de globalização liberal e hegemonia uníssona. Outras obras de destaque de seu currículo incluem Slouching Towards Ayodhya (2004) e Intellectuals and Socialism (1994). Além disso, coeditou coletâneas como Revitalizing Marxist Theory for Today’s Capitalism (2010) e Developmental and Cultural Nationalisms (2009).

A Entrevista

Nessa entrevista Radhika resgata o surgimento do capitalismo industrial, quando o centro da economia mundial ainda girava em torno da produção real, da indústria e do trabalho organizado. A tensão com o marxismo se deu não apenas no campo político, mas também no econômico: o embate entre capital e trabalho produziu reformas e concessões do capital para evitar revoluções.

A entrevista traça uma linha do tempo que começa com o declínio do capitalismo clássico e o avanço do marxismo, focando especialmente no surgimento e na consolidação do neoliberalismo como a ideologia econômica dominante desde os anos 1980.

Radhika Desai explica que o neoliberalismo, apesar de se apresentar como uma defesa do livre mercado e do livre comércio, na verdade serve para consolidar o capitalismo monopolista, que já não tem mais como base a competição produtiva, mas sim o domínio das grandes corporações e a financeirização da economia.

Com o fim da Guerra Fria, e o colapso da União Soviética, se abre o espaço para o neoliberalismo se consolidar como dogma. Este novo modelo não se limita a abrir mercados e privatizar empresas: ele subordina nações inteiras aos fluxos financeiros globais, impõe políticas de austeridade e transforma o próprio conceito de soberania em uma concessão condicional — algo que se perde ao contrariar interesses do centro hegemônico.

Ao contrário da promessa neoliberal de revitalização do capitalismo, o que se viu nas últimas décadas foi um processo marcado por baixo crescimento, aumento da desigualdade e estagnação econômica. O neoliberalismo não só falhou em restaurar o vigor econômico, mas também enfraqueceu os Estados nacionais em favor do capital corporativo, criando um sistema internacional cada vez mais instável e desigual.

A análise desmonta o mito de que o neoliberalismo seja uma força “natural” de modernização. Na verdade, ele é um projeto político e geoestratégico — com o FMI, o Banco Mundial e o sistema SWIFT como instrumentos de coerção, assim como hoje vemos no uso abusivo de sanções econômicas. O dólar, desde Bretton Woods, atua não apenas como moeda, mas como arma: um mecanismo de punição a países que resistem.

Radhika enfatiza que a atual guerra econômica movida pelos EUA, com tarifas, sanções e tentativas de bloqueio tecnológico, é sintoma de uma profunda crise do sistema neoliberal ocidental, que já não consegue competir com as novas potências emergentes. Essa guerra não é apenas comercial, mas geopolítica e estratégica, envolvendo esforços para conter o crescimento do BRICS e suprimir a autonomia dos países fora do eixo Ocidente.

O BRICS, nesse cenário, emergiu como uma resposta estratégica dos países que rejeitaram ou mitigaram os impactos do neoliberalismo — China, Rússia, Brasil, Índia e África do Sul — buscando uma ordem multipolar que privilegia o desenvolvimento autônomo, o respeito à soberania e a cooperação pragmática. A entrevista destaca que o BRICS não segue a cartilha neoliberal strictu sensu, mas desenvolve suas próprias políticas econômicas, resistindo à pressão das potências ocidentais em nome de um novo equilíbrio global e criando alternativas ao sistema financeiro ocidental, como o CIPS e moedas de liquidação local, reduzindo a dependência do dólar. O movimento é visto por Radhika e Diesen como parte de uma nova ordem multipolar, onde o Ocidente já não pode mais impor unilateralmente suas regras.

No cenário atual, a guerra econômica é tão estratégica quanto a guerra militar. O bloqueio de reservas, as tarifas impostas por Washington e a manipulação de mercados são armas usadas contra adversários, mas que também desgastam o próprio Ocidente, gerando uma fuga de países para sistemas alternativos. É nesse contexto que as guerras por procuração — como na Ucrânia — também têm um componente econômico: enfraquecer rivais, garantir mercados e preservar a hegemonia.

A análise demonstra como a economia global atual está em transformação, com o neoliberalismo sendo questionado inclusive em suas bases ideológicas, enquanto emergem alternativas que buscam combinar desenvolvimento com soberania e justiça social.

Essa visão e perspectiva são fundamentais para se entender as raízes históricas das tensões internacionais contemporâneas, a crise estrutural do capitalismo ocidental e as possibilidades oferecidas pelo BRICS para um mundo multipolar e menos dependente das velhas ordens econômicas e políticas.

O neoliberalismo não é o destino inevitável da humanidade, mas uma fase histórica que já dá sinais de declínio. O BRICS representa não apenas uma aliança econômica, mas um projeto civilizatório alternativo, capaz de romper o ciclo de dominação iniciado no pós-Segunda Guerra.

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