“Trump prometeu ser um ditador no primeiro dia. Já passamos do dia 200” I David Smith – The Guardian
Nesse artigo do PolitikBr comentamos o interessante artigo publicado pelo The Guardian, escrito por David Smith, chefe do escritório em Washington. A percepção e os paralelos traçados por David são claros: os primeiros 200 dias do segundo mandato de Donald Trump confirmam que a promessa de “ser um ditador apenas no primeiro dia” era, no mínimo, enganosa. O ritmo acelerado de erosão institucional nos Estados Unidos indica que o autoritarismo não foi um gesto simbólico — foi o programa de governo.
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Por PolitikBr I Brasília, Em 11/08/2025, 19h:09
Smith descreve um ataque sistemático aos pilares democráticos: cortes brutais na mídia pública, limpeza de dados governamentais, perseguição a adversários políticos, manipulação de mapas eleitorais, intimidação do Judiciário e uso da máquina do Estado como ferramenta pessoal de poder. É uma ofensiva abrangente — política, judicial, mediática, cultural e até acadêmica — e que não dá sinais de recuo.
Nesse ponto não podemos deixar de pontuar que tudo isso faz parte do modus operandi de tentativa de destruição das instituições republicanas e do Estado de Direito, com o objetivo de as reconstruir na forma e modo de ver da extrema direita, que ideólogos, como Steve Bannon, propagam, e que passa a ser posto em prática quando uma liderança radical, como Trump, toma posse do poder.
Foi esse mesmo modus operandi que o ex-presidente, agora réu por tentativa de golpe de estado, Jair Bolsonaro tentou implantar no Brasil e, como agora nos Estados Unidos, encontrou enorme resistência por parte dos setores democráticos e daqueles vigilantes do Estado de Direito. No Brasil pós Bolsonaro se herdou uma sociedade dividida fruto da máquina de manipulação que elegeu o ex-presidente, e parte substancial do congresso nacional que tenta, a todo custo, sabotar a governança de Luís Inácio Lula da Silva. Nesse mesmo contexto se inserem os ataques ao judiciário brasileiro e, em especial, ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, o magistrado que processa Bolsonaro, vindo, sem qualquer pudor, de Trump e sua equipe.
Do “primeiro dia” ao dia 200: a curva de aprendizado do autoritarismo
No primeiro mandato, Trump ainda parecia um novato deslumbrado pela complexidade do cargo. Agora, como aponta Smith, ele sabe exatamente quais alavancas puxar e quão pouca resistência enfrentará. Se cercou de aliados como Stephen Miller, garantiu o perdão aos envolvidos no ataque de 6 de janeiro que ele próprio incitou, instalou legalistas no Departamento de Justiça e no FBI e cooptou figuras como Elon Musk para vasculhar agências federais.
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Trump chegou a pedir o impeachment de juízes que barraram ordens de deportação, rotulando um magistrado como “torto” — um ataque que provocou reação pública do presidente da Suprema Corte, John Roberts.
Da mesma maneira que Trump ataca o judiciário americano ele ataca, como dissemos, o judiciário brasileiro, em uma clara interferência contra o Brasil. Trump empregou, de forma fraudulenta e intimidatória, a lei magnitisky contra o ministro Alexandre de Moraes. No Brasil, Trump tem como aliados os parlamentares da extrema direita, que vem tentando o impeachment do ministro Moraes e, dessa forma, obter uma anistia ao radical Bolsonaro, aliado ideológico de Trump.
Cultura, mídia e censura: a tomada simbólica
A sofisticação no controle cultural também cresceu. Smith relata que Trump expurgou diretores de instituições culturais, assumiu a presidência do Kennedy Center e até pressionou empresas privadas de mídia, com acordos milionários que críticos interpretam como suborno, coincidindo com o cancelamento de programas satíricos que o criticavam.
A reescrita da memória histórica é outro pilar. No Smithsonian, referências aos impeachments de 2019 e 2021 foram retiradas de uma exposição presidencial — uma “solução temporária”, segundo porta-vozes, mas que ecoa práticas clássicas de regimes que reconstroem narrativas à sua medida.
Militarização interna e a maior força policial da história dos EUA
Na política migratória, Trump destinou um recorde de US$ 170 bilhões ao ICE, o transformando, segundo o cientista político Larry Jacobs, na maior força policial nacional — maior até que a de muitos países. Agentes mascarados já operam em prisões e nas ruas, num claro aceno a uma polícia secreta de fato.
Eleições sob ameaça
Com manipulação eleitoral em estados-chave e incentivo à legislações que favorecem seu partido, cresce o temor de que as futuras eleições deixem de ser justas. Smith alerta que a erosão democrática agora é tão profunda que já não se trata de prever se o autoritarismo vai chegar, mas de admitir que ele está implantado nos Estados Unidos.
O governador do Texas, Greg Abbott, deu um passo que mais parece cena de drama político do que exercício democrático: ordenou a prisão de mais de 50 deputados democratas que fugiram do estado para impedir a votação de uma reforma eleitoral que favoreceria os republicanos nas eleições federais. Os legisladores se exilaram em estados como Illinois e Nova York, negando o quórum necessário para aprovar o redistritamento. Em resposta, Abbott autorizou mandados de prisão civis — válidos apenas dentro do Texas — e mandou a polícia estadual localizá-los e ameaçou ainda retirá-los do cargo por “abandono de função”. A gritaria valeu mais do que a lógica jurídica: o cerco virou performance autoritária, uma punição política disfarçada de resposta institucional.
O desgaste e a resistência
Apesar da postura de “homem forte”, pesquisas citadas por Smith mostram queda na aprovação de Trump: apenas 38% aprovam o governo, e o desgaste é visível até entre apoiadores tradicionais. Para o estrategista Simon Rosenberg, a imagem de Trump como “o velho por trás da cortina” começa a se impor — um líder que mantém o controle sobre o núcleo radical, mas que perde capacidade de persuasão sobre a maioria do país.
Esse enfraquecimento, porém, não o impede de buscar consolidar poder. Pelo contrário: cada derrota alimenta novas tentativas de ampliar o alcance autoritário, isolando opositores e minando resistências institucionais.
O que está em jogo
A análise de David Smith aponta que, passados 200 dias, Trump não apenas cumpre sua promessa de ditador no “primeiro dia”, mas transforma esse primeiro dia em um estado permanente. A democracia americana resiste, mas já sob condições assimétricas e com freios cada vez mais frágeis.
O desafio, como conclui Rosenberg, é construir um movimento pró-democracia capaz de conter o dano nos próximos anos — antes que não haja mais pilares a serem defendidos.