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A novela do tarifaço de Trump contra o Brasil, inicialmente vendida como estratégia de retaliação e patriotismo pela ala bolsonarista contra o que eles chamam de “ditadura”, como se não fossem eles que tentaram dar um golpe de estado em 2022, após a derrota para Lula, acabou se transformando num monumental tiro no pé: expôs a família Bolsonaro — especialmente Eduardo Bolsonaro — como conspiradores contra o próprio país e acabou, ironicamente, sendo em boa parte revogada para não prejudicar setores estratégicos da economia norte-americana.

Por Política em Debate I Brasília, Em 31/07/2025, 08h:18
A grande perdedora da história foi mesmo a extrema direita brasileira (bolsonarismo): ela se aliou aos EUA e a Trump contra o Brasil, gerou uma enorme fragmentação no campo conservador, e acabou colhendo uma derrota histórica. Além de ver a sua máscara cair diante do país e do mundo.
O papel dos Bolsonaro: conspiração e derrota
Ficou claro que a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos foi pautada em articular, apoiar e até comemorar sanções que atingiriam diretamente a economia nacional, usando o processo do pai, Jair Bolsonaro, como moeda de troca para pressionar o STF brasileiro e buscar anistia a aliados. Eduardo se tornou, assim, símbolo da agenda anti-Brasil: trabalhou ativamente para travar negociações diplomáticas que poderiam suavizar o impacto do tarifaço em setores-chave e sabotou os esforços do Congresso Nacional para buscar uma solução negociada.
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A reviravolta: pressão interna americana e recuo de Trump
A ordem executiva assinada por Trump impunha tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros — mas, na prática, a lista de exceções explodiu. Foram quase 700 exceções: petróleo, suco de laranja, aviões, minérios, papel, fertilizantes e outros itens estratégicos acabaram poupados, atendendo a uma forte pressão interna do lobby empresarial americano, do setor agrícola, de aviação, energia e da Câmara de Comércio Americana (US Chamber of Commerce).
A fúria fascista e impositiva de Trump encontrou o limite do bolso do próprio empresariado dos EUA e a resistência à altura do governo brasileiro, que em poucas vezes na história não se ajoelhou aos Estados Unidos, como pretendia Eduardo Bolsonaro.
O resultado? Cerca de 43% do valor exportado aos EUA acabou protegido por essas exceções, enfraquecendo dramaticamente o impacto pretendido pelo tarifaço e tornando todo o movimento mais um espetáculo político do que uma barreira real ao comércio.
Isolamento e humilhação de Eduardo Bolsonaro
O papel desastrado da extrema direita ficou exposto ao público. Eduardo Bolsonaro e aliados, que apostaram todas as fichas na escalada da tensão, terminaram isolados: sofreram críticas até de setores tradicionalmente conservadores que perceberam que a sabotagem ao Brasil resultaria em desemprego, estagnação econômica e crise em setores exportadores fundamentais. A imprensa nacional, a internacional e entidades patronais dos EUA denunciaram a interferência do lobby bolsonarista como algo antinacional, e Eduardo foi publicamente responsabilizado pelo fiasco diplomático e pelo desgaste inédito da extrema direita no Brasil e no exterior.
Impactos e o saldo político: derrota da extrema direita, crise e oportunidade
Ainda que parte do setor pesqueiro, de carnes e café tenha sido atingida, a emergência das exceções ao tarifaço mostrou que nem mesmo Trump governa sem ouvir os próprios interesses econômicos dos EUA. Para o Brasil, o tarifaço acabou mobilizando o governo, a sociedade e o setor privado, unificando discursos e colocando a extrema direita na defensiva. A tentativa de responsabilizar o governo Lula pela tarifa também fracassou: a maioria da população identificou Trump, Eduardo Bolsonaro e a polarização artificial como causa principal da crise, e rejeitou a retórica antipatriótica do bolsonarismo.
O saldo: a extrema direita saiu humilhada, e Eduardo Bolsonaro — o “articulador” do tarifaço — perdeu qualquer credibilidade inclusive junto à velha base conservadora. A aposta no caos se converteu num vexame, e o Brasil assistiu, sem filtros, ao espetáculo de autossabotagem dos que se intitulavam defensores da pátria.
Os desdobramentos
A reviravolta envolvendo a taxação de Trump não só colocou a extrema direita brasileira em situação vexatória, como também reforçou uma tendência estrutural na política externa: o Brasil deve reduzir ainda mais sua dependência comercial dos Estados Unidos, abrindo espaço para a diversificação de parcerias.
O episódio, ao expor o risco da instabilidade e da insegurança nas relações com Washington, inevitavelmente levará o governo e o setor produtivo brasileiro a fortalecer os laços comerciais com outros mercados estratégicos. Países como a China e a Rússia — já parceiros de primeira ordem no agronegócio, energia e tecnologia — devem ganhar ainda mais prioridade na diplomacia e nos tratados comerciais. O mesmo vale para o Oriente Médio, onde o Brasil amplia a sua pauta de exportações de carnes, grãos e tecnologia agrícola, além dos demais membros do BRICS, que dividem com o Brasil a busca por uma ordem econômica e política multipolar.
Na prática, a confiança abalada nos EUA por conta do tarifaço e da ingerência política de Trump, com o conluio bolsonarista, irá contribuir para que o Brasil acelere acordos bilaterais e regionais que possam blindar o país de futuras retaliações e garantir maior autonomia em suas relações econômicas internacionais. O comércio externo brasileiro caminha, assim, para uma reorganização acelerada, deixando clara a lição: apostar todas as fichas numa só potência pode ser um caminho perigoso — e o futuro está na pluralidade de parcerias e na defesa intransigente dos interesses nacionais.