Richard Sakwa: Democratismo vs. Autoritarismo Liberal

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Por Política em Debate I Brasília, Em 03/07/2025, 07h58

Vamos conversar, de eleitor para eleitor, sobre o que o professor Richard Sakwa propõe ao discutir o conceito de “democratismo” em contraste com o chamado “autoritarismo liberal”. O tom é direto, crítico e sem rodeios, porque o tema exige clareza: afinal, estamos falando de como a democracia pode ser esvaziada por dentro, transformando-se em ritual, e de como o liberalismo pode se tornar autoritário sem perder a pose democrática.

O que é Democratismo?

Sakwa parte de uma constatação incômoda: nas democracias ocidentais, a democracia virou, muitas vezes, um conjunto de rituais vazios. Votamos, participamos de eleições, mas as decisões reais parecem cada vez mais distantes do cidadão comum. O “democratismo” é esse fenômeno em que a democracia se reduz a procedimentos formais, enquanto o pluralismo, a tolerância e a participação genuína são sufocados por uma lógica de consenso forçado e exclusão de alternativas reais.

O termo não é só dele: Emily Finley, por exemplo, também discute como elites intelectuais e tecnocráticas passaram a intermediar a vontade popular, criando uma barreira entre o povo e as decisões políticas. O resultado? Um sistema que se diz democrático, mas que teme a própria democracia quando ela ameaça o status quo.

O Autoritarismo Liberal

Aqui entra o “autoritarismo liberal”: regimes que mantêm as aparências democráticas — eleições, parlamentos, imprensa — mas, na prática, concentram poder em elites, restringem o debate público e impõem limites cada vez mais estreitos ao que pode ser discutido ou decidido. O liberalismo, que nasceu para proteger o indivíduo do arbítrio estatal, vira justificativa para limitar a própria democracia em nome de valores universais, segurança ou estabilidade.

Sakwa mostra que, em nome da defesa da democracia, aceitamos medidas cada vez mais autoritárias: censura, repressão a protestos, exclusão de partidos ou ideias “indesejáveis”. O argumento é sempre o mesmo: “é preciso proteger a democracia de seus inimigos”, mesmo que isso signifique sacrificar a própria essência democrática.

Quatro Pilares do Democratismo

Sakwa identifica quatro pilares que sustentam o democratismo contemporâneo:

  1. Tradição intelectual: Desde Platão, passando por Rousseau e os liberais clássicos, há uma desconfiança das massas e uma defesa de algum tipo de tutela das elites sobre a vontade popular.
  2. Gestão das eleições como plebiscito de regime: Em vez de escolher entre projetos, o eleitor é chamado a “defender o regime” contra ameaças, reais ou imaginárias. O voto vira um teste de lealdade ao sistema, não uma escolha livre.
  3. Geopolítica e democracia: A democracia é instrumentalizada como arma geopolítica. Países que votam “errado” são pressionados, rotulados como autocráticos ou até forçados a repetir eleições até acertarem o lado.
  4. Universalismo ideológico: O liberalismo globalizado se apresenta como única alternativa legítima, deslegitimando qualquer modelo diferente. O pluralismo vira ameaça, não riqueza.

O Papel do Populismo

Nesse cenário, o populismo aparece como reação — nem sempre construtiva — ao esvaziamento democrático. Quando as elites se fecham em consenso, surge o espaço para líderes que prometem devolver a voz ao povo, mas muitas vezes sem programa claro ou respeito às regras do jogo. Sakwa alerta: o populismo pode ser tanto um sintoma saudável de vitalidade democrática quanto um risco de retrocesso autoritário, dependendo de como se manifesta.

O Dilema Econômico

Sakwa também critica o neoliberalismo, que transforma cidadãos em consumidores e reduz a política à gestão do mercado. O resultado é a concentração de poder econômico e político em poucas mãos, a erosão dos serviços públicos e a perda de capacidade de intervenção popular. O Estado se torna refém de interesses privados, e a democracia, um espetáculo vazio.

Geopolítica e Limites do Debate

A crise se agrava quando a democracia é usada como justificativa para intervenções externas, sanções e exclusão de países ou partidos que não se alinham ao “consenso ocidental”. O debate público é restringido: quem questiona a expansão da OTAN, por exemplo, é acusado de “propaganda inimiga”. O espaço para alternativas reais desaparece, e a democracia vira instrumento de hegemonia, não de pluralismo.

Estratégia de Enfrentamento

Sakwa defende que é preciso resgatar o espírito agonístico da democracia: debate real, pluralismo, tolerância ao dissenso e abertura para alternativas. Isso exige coragem intelectual, reforma das instituições e, acima de tudo, devolver ao povo o protagonismo que lhe foi tomado. Sem isso, corremos o risco de ver a democracia se transformar em fachada, enquanto o autoritarismo liberal avança sob o disfarce de defesa da liberdade.

Sakwa nos convida a olhar para além das aparências e questionar: estamos vivendo uma democracia real ou apenas participando de um teatro democrático? O desafio é romper o ciclo do democratismo e do autoritarismo liberal, reconstruindo uma política verdadeiramente plural, aberta e responsiva às demandas da sociedade. O debate está lançado — e a escolha, como sempre, é nossa.

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