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Por PolitikBr I Brasília, Em 18/03/2026, 20h:15, leitura: 11 min
Editor: Rocha, J.C.
Enquanto Trump canta vitória e diz que os iranianos estão implorando para negociar, a história real, vinda dos bastidores do poder, é a de um império encurralado, tentando, desesperadamente, encontrar uma saída para o atoleiro em que ele próprio se meteu.
A guerra contra o Irã, lançada em 28 de fevereiro sob a promessa de uma “vitória rápida” e “cirúrgica” em até 04 dias, completa quase três semanas.
E o contraste entre a bravata pública da Casa Branca e a realidade nos corredores diplomáticos, e no campo de batalha, nunca foi tão grotesco.
Donald Trump, em seus habituais discursos inflamados e posts em sua rede social, insiste na narrativa da rendição inimiga: “Eles querem negociar. Eles querem negociar mal”, disse Trump na noite de domingo. “Estamos falando com eles. Mas não acho que eles estejam prontos, mas estão chegando bem perto”. A realidade, porém, é a antítese dessa fantasia.
As Negociações Secretas que Expõem o Desespero Americano
Uma reportagem explosiva do Drop Site News, assinada por Ryan Grim e Adam Kaat, revela o que Washington tenta esconder a todo custo: os EUA estão tentando negociar secretamente com o Irã, e o fazem a partir de uma posição de fraqueza absoluta.
Nos bastidores, é o próprio governo Trump que vem buscando abrir canais de negociação.
Duas autoridades iranianas relataram ao Drop Site que o enviado especial de Trump, Steve Witkoff, encaminhou pessoalmente mensagens à autoridades em Teerã — entre elas o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi — na semana passada, sondando a possibilidade de retomada do diálogo. Segundo essas fontes, o Irã não respondeu às investidas de Witkoff.
Ainda de acordo com autoridades iranianas, mensagens semelhantes também foram transmitidas pela Casa Branca por meio de países intermediários.
“Em função das decisões adotadas pelas principais lideranças do país, nenhuma resposta foi enviada”, afirmou uma alta autoridade iraniana ao Drop Site. “A sinalização é inequívoca: o Irã voltou a fechar a janela para negociações diretas”, acrescentou. “A prerrogativa de declarar um cessar-fogo pertence exclusivamente ao Líder Supremo. Não cabe ao ministro das Relações Exteriores, nem a qualquer outra autoridade ou instituição iraniana, tratar desse tema com partes estrangeiras.”
Procurada para comentar, a Casa Branca respondeu por meio de um porta-voz, que afirmou: “O Drop Site News, com a sua linha radical e de esquerda, atua claramente em favor do regime iraniano. Reportagens como essa, baseadas em ficção e sustentadas por fontes anônimas não verificáveis, devem ser prontamente descartadas.” O que você esperaria que ele dissesse? Parece até negativa ensaiada de filme de Hollywood.
Menos de uma hora após a publicação inicial da reportagem pelo Drop Site, uma autoridade norte-americana apresentou à Axios uma versão diferente dos acontecimentos, afirmando que teria sido o próprio Abbas Araghchi que procurou Steve Witkoff.
Segundo esse relato, “a autoridade dos Estados Unidos sustentou que Araghchi estava tentando iniciar contato, mas declarou à Axios que os Estados Unidos ‘não estão dialogando’ com o Irã”.
Com a repercussão da matéria da Axios, Araghchi utilizou a rede social X para rebater as alegações atribuídas à Casa Branca. “Meu último contato com o Sr. Witkoff ocorreu antes da decisão de seu governo de encerrar a via diplomática por meio de um novo ataque militar ilegal contra o Irã. Qualquer afirmação em sentido contrário parece ter como objetivo confundir, tanto os operadores do mercado de petróleo, quanto a opinião pública”, escreveu.
Em entrevistas concedidas ao longo do fim de semana, o chanceler iraniano também contestou publicamente as declarações de Donald Trump. “Jamais solicitamos um cessar-fogo, tampouco pedimos negociações”, afirmou em entrevista à CBS no domingo. “Estamos preparados para nos defender pelo tempo que for necessário. Foi o que fizemos até aqui e continuaremos fazendo, até que o presidente Trump reconheça que se trata de uma guerra ilegal e sem perspectiva de vitória.”
Uma das fontes ouvidas — um alto funcionário iraniano que falou sob condição de anonimato, por não estar autorizado a tratar de negociações — afirmou ao Drop Site que as investidas americanas revelam uma avaliação equivocada de Washington sobre a postura iraniana, além de indicar uma tentativa de recuo.“Na última semana, houve diversos pedidos, diretos e indiretos, por um cessar-fogo partindo dos Estados Unidos”, disse. “Diante da ausência de resposta do lado iraniano, agora tentam mitigar o constrangimento, alterando a narrativa por meio da imprensa.”
Fontes familiarizadas com o assunto revelam que o Irã não está “implorando” por nada. Pelo contrário, Teerã apresenta exigências que, para Washington, soam como uma humilhação estratégica.
As Exigências Iranianas: Segurança de Longo Prazo e Fim da Hegemonia
Nas últimas duas semanas, os preços internacionais do petróleo e do gás dispararam, impulsionados pelas ameaças do Irã de atacar petroleiros associados aos Estados Unidos ou a Israel que cruzarem o estratégico Estreito de Ormuz. Como consequência, o volume de petróleo transportado pela região caiu para menos de 10% do que era registrado antes do início do conflito.
Em contrapartida, as exportações iranianas superaram os seus níveis habituais no mesmo período. “Com uma gestão eficiente do Estreito de Ormuz, o Irã consolidou uma posição de destaque no controle marítimo”, afirmou um alto funcionário iraniano.
“O Estreito de Ormuz não foi fechado de forma generalizada; a restrição se aplica apenas aos Estados Unidos e a seus aliados, e essa política será mantida enquanto persistirem os ataques”, declarou Abbas Araghchi ao Al Araby Al Jadeed no domingo.
Autoridades em Teerã também indicaram disposição para ampliar o fluxo de embarcações na região, desde que as transações sejam realizadas em yuan, a moeda chinesa.
Por sua vez, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou, na segunda-feira, que Washington tem permitido a passagem de navios iranianos pelo estreito sem realizar ataques. “Os navios iranianos continuam circulando, e temos permitido isso para garantir o abastecimento global”, disse em entrevista à CNBC.
Na quarta-feira anterior, executivos-chefes de grandes companhias petrolíferas — Chevron, ExxonMobil e ConocoPhillips — reuniram-se com autoridades da Casa Branca e alertaram para as graves consequências de uma eventual manutenção das restrições no Estreito de Ormuz.
Segundo um representante do setor ouvido pelo Wall Street Journal, caso o preço do barril alcance US$ 120, o impacto seria de “destruição econômica”. Esses encontros ocorreram em meio à pressão de Donald Trump sobre as Forças Armadas dos Estados Unidos para que apresentem alternativas capazes de reduzir a influência iraniana na região.
“O fim da guerra está em nossas mãos”
Mesmo antes dos ataques lançados pelos Estados Unidos e por Israel em 28 de fevereiro, o Irã já sinalizava que não repetiria o que chamou de “Guerra dos 12 Dias”, ocorrida em junho de 2025.
Na ocasião, segundo a leitura iraniana, Washington alegava manter negociações enquanto, paralelamente, preparava uma ofensiva militar de grande escala. O cessar-fogo que encerrou aquele conflito — solicitado pelos Estados Unidos a pedido de Israel — foi visto por Teerã como uma pausa tática, utilizada para reorganizar forças antes de uma nova escalada, iniciada no mês passado.
“Eles recuaram, se reorganizaram e voltaram a nos atacar”, afirmou Abbas Araghchi no domingo. “Isso não pode se repetir. Esta guerra só terminará quando nós tivermos garantias de que não haverá reincidência, o que exige um desfecho claro e definitivo.”
Autoridades iranianas disseram ao Drop Site que não aceitarão discutir um cessar-fogo enquanto não estiver demonstrado, de forma inequívoca, que o Irã não será alvo de ataques recorrentes por parte dos Estados Unidos e de Israel.
“O desfecho do conflito está sob nosso controle”, declarou o major-general Mohsen Rezaei, veterano da Guarda Revolucionária Islâmica, em entrevista à televisão iraniana no dia 14 de março.
Ele afirmou que, em eventuais negociações, o Irã exigirá compensações pelos danos causados pelos bombardeios e reiterou a demanda pela retirada das forças militares americanas do Golfo Pérsico.
Segundo fontes iranianas, qualquer acordo também precisaria abranger países como o Líbano e o Iraque, além de contar com validação do Conselho de Segurança da ONU.
Diferentemente dos confrontos anteriores — quando as respostas iranianas eram previamente calibradas e sinalizadas —, nas últimas duas semanas Teerã adotou uma postura mais agressiva e imprevisível, com ataques intensos por mísseis e drones no Golfo Pérsico, além de ofensivas contínuas contra Israel e ativos militares dos Estados Unidos na região.
“A estratégia iraniana se baseia na diversificação dos ataques e na abertura de múltiplas frentes ao longo do tempo”, afirmou um alto funcionário. “O objetivo é desgastar progressivamente o adversário e atingir de forma mais eficiente os interesses dos Estados Unidos e de Israel, criando condições para um cessar-fogo duradouro.”
Veículos estatais iranianos e meios próximos à Guarda Revolucionária indicaram ainda que novos alvos podem incluir instalações de grandes empresas de tecnologia presentes em Israel e na região do Golfo, como Google, Amazon, Microsoft, IBM, Nvidia e Palantir.
O que o Irã quer, e deixou claro, não é um cessar-fogo temporário que permita aos EUA e a Israel se rearmarem e se reorganizarem para um novo ataque no futuro. A posição iraniana é a de quem vence essa guerra, que é assimétrica, de exaustão, e sabe que o tempo joga a seu favor.
A Opinião Pública Americana: A Base de Trump se Revolta
Enquanto isso, no front doméstico, o castelo de cartas também desaba. A renúncia de Joe Kent, diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, foi o primeiro grande terremoto [PolitikBr, 17/03]. Mas as réplicas são constantes.
O analista Alex Krainer, em entrevista, capta com precisão o humor do eleitorado americano:
“Se você ouviu Tucker Carlson, até a Megyn Kelly, ela chegou a dizer que Donald Trump está traindo eles. Essas políticas não são aquelas pelas quais votamos.”
A base “America First” de Trump, que o elegeu prometendo o fim das guerras intermináveis, se sente profundamente traída. Eles votaram contra o intervencionismo, contra o globalismo, contra o envolvimento em conflitos no Oriente Médio, que só beneficiam o complexo industrial-militar e os aliados estrangeiros. Agora, veem seu presidente liderar exatamente o tipo de guerra que ele prometeu acabar. Ele é um mentiroso contumaz, só um tolo não percebe isso.
As Eleições de Novembro e o Cálculo do Irã
Faltam oito meses para as eleições de meio de mandato, que podem sepultar de vez o capital político de Trump. E todos os sinais apontam para uma derrota acachapante dos republicanos se a guerra não estiver resolvida — e resolvida de forma que pareça uma vitória.
É aí que reside o dilema mortal de Trump. Ele precisa desesperadamente de um cessar-fogo para apresentar ao eleitorado como uma “vitória”.
Teerã sabe que, quanto mais tempo a guerra se arrastar, mais Israel irá sangrar e mais a economia americana irá sofrer, amplificando o sentimento anti Trump, mesmo no seio do MAGA.
Alex Krainer, resume a posição iraniana:
“Os iranianos já se cansaram disso, e agora querem uma vitória total. Eles querem eliminar as causas profundas de tudo isso, o que provavelmente significa que vão querer destruir todos os representantes ocidentais na região. E isso não pode ser feito em poucos dias, nem em poucas semanas. Estou convencido de que os iranianos se prepararam para uma longa guerra de atrito.” [Krainer]
A Humilhação se Aproxima
Trump tentou vender a ideia de uma guerra rápida para impressionar o mundo e consolidar o seu poder. Em vez disso, criou um atoleiro que está destruindo o seu aliado mais próximo, afundando a sua economia e fragmentando a sua base política.
Agora, ele nega, mas, ao que tudo indica, tenta negociar em segredo, implorando por um cessar-fogo que o Irã se recusa a dar, sem garantias que ele não pode oferecer, e sem parecer que está se rendendo.
A farsa da vitória de Trump não engana nem os iranianos, que veem a vantagem no tabuleiro. Nem os americanos, que pagam o preço nos postos de gasolina. E nem Israel, que sangra no deserto.
O império rachado tenta agora costurar uma saída honrosa. Mas, como na velha máxima, quando você se senta à mesa de negociações em posição de fraqueza, a única coisa que consegue é uma rendição disfarçada.
Esse artigo foi baseado em:
- Drop Site News: Revealed: Trump’s Secret Negotiations with Iran (17/03/2026)
- https://youtu.be/50w9Zg5LITo?si=WrB-KxHae9U30Ajv
- PolitikBr: O IMPÉRIO RACHADO: Chefe Antiterrorista dos EUA Renuncia e Denuncia a Mentira da Guerra (17/03/2026)
- PolitikBr: A Iminência de Um Ataque Nuclear Israelense ao Irã e a Provável Resposta Nuclear Iraniana (15/03/2026)