A Iminência de Um Ataque Nuclear Israelense ao Irã e a Provável Resposta Nuclear Iraniana

Internacional, Geopolítica, Economia

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Por PolitikBr I Brasília, Em 15/03/2026, 20h:42, leitura: 11 min

Editor: Rocha, J.C.

O assassinato do líder supremo do Irã, Aiatolá Ali Khamenei, em 28 de fevereiro de 2026, não foi apenas o estopim de uma guerra convencional. Foi um ato que removeu a última barreira moral e teológica que impedia a República Islâmica de buscar a dissuasão nuclear.

Duas semanas depois, o cenário no campo de batalha, e na geopolítica global, se desenha de forma clara para aqueles que se dispõem a enxergar além da névoa da propaganda de guerra: Israel e os Estados Unidos não estão vencendo. E, em um beco sem saída estratégico, a opção nuclear, antes um tabu, começa a pairar como uma possibilidade real e apavorante.

Para compreender a profundidade do abismo para o qual caminhamos, é preciso ouvir duas vozes da ciência e da análise militar americana que, há décadas, alertam para as falácias e os perigos que agora se materializam.

O Professor Theodore Postol, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), uma das maiores autoridades mundiais em tecnologias de mísseis e defesa antimísseis, e o Professor Steve Starr, ex-diretor de programa da Universidade do Missouri, oferecem um diagnóstico que a maioria dos formuladores de política dos Estados Unidos não quer admitir: o castelo de cartas da defesa ocidental ruiu.

A Farsa da Defesa Antimísseis: Cegos, Surdos e Sem Munição

A guerra contra o Irã sempre foi vendida ao público ocidental como um conflito onde a tecnologia superior de Israel e dos EUA prevaleceria. A realidade no terreno, revelada pelos especialistas, é a antítese desse conto de fadas.

Postol, em sua análise, expõe a “fraude técnica” dos sistemas de defesa antimísseis.

O que estamos testemunhando não é uma falha pontual, mas o colapso de um sistema construído sobre alegações falsas ao longo de décadas.

Os radares de alerta avançado, como o gigantesco sistema AN/FPS-132 na base de Al Udeid, no Catar, que custou mais de US$ 1 bilhão, e era o “olho” que guiava os interceptadores anti aéreos THAAD e Patriot, foram destruídos nos primeiros dias, por ataques de drones de baixo custo iranianos (drones shared).

Sem esse radar de longo alcance, as defesas de Israel e dos EUA ficaram cegas. O tempo de alerta para a população israelense caiu para meros 90 segundos, e sem saber a direção exata de onde vêm as ogivas.

Mais grave ainda: Postol explica que os mísseis balísticos iranianos de nova geração são manobráveis e viajam em velocidades hipersônicas (acima de Mach 10). Eles não seguem uma trajetória balística previsível, o que torna os sistemas Arrow e THAAD, projetados para interceptar uma parábola, essencialmente inúteis. – Leia esses artigos do PolitikBr : O Porquê os Mísseis do Irã Condenam Trump a um Blefe Estratégico e O Poder dos Mísseis Hipersônicos do Irã: como eles superaram a defesa Israelense

Some-se a isso a exaustão dos estoques. Os Estados Unidos produzem cerca de 750 interceptadores Patriot e 450 interceptadores THAAD por ano. A demanda da guerra na Ucrânia, somada aos ataques iranianos, já esgotou esses arsenais.

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Navios da Marinha americana, com seus tubos de lançamento vertical vazios, precisam recuar por dias para serem reabastecidos, saindo do teatro de operações. As bases americanas no Bahrein, no Kuwait e no Catar foram atingidas. A sede da Quinta Frota foi destruída.

Como ironiza Starr, as bases americanas não são mais escudos, são iscas.

No front israelense, o cenário é de “inferno”, nas palavras de amigos do Professor Postol que vivem lá. Os mísseis iranianos estão atingindo refinarias (como a de Haifa, que fornecia mais da metade do combustível doméstico de Israel), usinas de energia e infraestrutura portuária.

A taxa de interceptação, quando há mísseis para disparar, é pífia. Postol estima que o Patriot PAC-3, a “pechincha” de US$ 4 milhões por unidade, tenha uma taxa de sucesso de apenas 3% a 5%. A maioria das explosões vistas no céu não são ogivas inimigas sendo abatidas, mas os próprios interceptadores detonando no vazio.

A Estratégia Iraniana: Vitória por Exaustão e o Genocídio Evitado

Diante desse quadro, a estratégia iraniana se revela não apenas resiliente, mas brilhante em sua execução.

Como Postol detalha, o Irã conta com uma capacidade de “segundo ataque” convencional. As suas cidades de mísseis estão entrincheiradas em montanhas de granito e sob o leito do mar, protegidas de bombardeios. Elas vêm sendo preparadas há 30 ou 40 anos.

Os iranianos sabiam desde a revolução islâmica, que esse dia iria chegar.

Os iranianos não usaram o seu arsenal mais avançado desde o início. Eles começaram com mísseis mais antigos e drones para exaurir as defesas adversárias. Agora, à medida que os radares foram destruídos, e os mísseis interceptadores se esgotam, eles introduzem os mísseis hipersônicos de precisão.

Esses mísseis hipersônicos são dotados de potentes ogivas de mais de 1 tonelada de carga explosiva. E por serem hipersônicos, o poder de destruição no impacto é o efeito combinado da carga explosiva detonada e da energia cinética da carcaça do míssil. Assim o míssil funciona como um projétil cinético, igual ao que a Rússia empregou no ataque do Oreshnik a Dnipro, na Ucrânia.

O Irã também aprendeu a lição da guerra na Ucrânia. Utilizando constelações de satélites comerciais como o Iridium, eles recebem dados de alvo em tempo real de seus aliados (Rússia e China) e guiam seus drones com precisão de dezenas de metros a milhares de quilômetros de distância. O resultado é uma campanha de exaustão que está destruindo sistematicamente a capacidade bélica americana e israelense na região.

Ao mesmo tempo, o Irã demonstra um controle político e estratégico notável. Mesmo com pesadas baixas humanas e de infraestrutura, o regime não entrou em colapso. Pelo contrário, a agressão externa uniu a nação em torno da sua liderança, agora personificada no novo Aiatolá, filho do líder morto, que carrega a dor pessoal e o dever da vingança.

O Controle do Estreito e a Ofensiva de Boa Vontade

Num movimento de xadrez mestre, o Irã demonstrou seu domínio total sobre a via navegável mais importante do planeta. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um terço do petróleo marítimo global e 31% da ureia (fertilizante essencial) e 40% do enxofre necessário à produção de ácido sulfúrico, um insumo dos fertilizantes fosfatados – cerca de 60% da produção mundial de ácido sulfúrico é destinada à indústria de fertilizantes – , foi efetivamente fechado para os inimigos.

Mas, em 14 de março, o chanceler iraniano Abbas Araghchi anunciou que o estreito está aberto para todos os países que não estão participando do ataque ao Irã. Navios indianos, por exemplo, já estão cruzando a rota com segurança.

A estratégia da liberação para todos os países não agressores ao Irã da livre passagem por Ormuz, muda a percepção de que o Irã é o causador da possível recessão mundial em função da explosão dos preços do petróleo, já na faixa de US$ 100,00. Além do mais, enfraquece ou mesmo anula o apelo de Trump para que os países europeus – em grande déficit energético, especialmente de GNL – , enviem navios de combate para garantir a abertura do estreito de Ormuz – o que os Estados Unidos, obviamente, parecem não conseguir fazer – , isto é, o Irã simplesmente anulou a estratégia de Trump, ao desmontar o possível apoio europeu à guerra de Trump e Natanyahu.

Por que a França, a Alemanha ou a Itália arriscariam os seus navios de guerra e as suas relações comerciais para “proteger” uma rota que já está aberta para eles? A jogada iraniana desmonta, assim, o pilar europeu do apoio à guerra, isolando ainda mais os EUA e Israel.

Brilhante.

Esta não é uma concessão. É uma declaração de poder. A estratégia transfere a responsabilidade pelo caos econômico global (petróleo a US$ 100 o barril, inflação disparada) de volta para os agressores.

O Irã sinaliza ao mundo que não é uma ameaça ao fluxo energético, mas sim um guardião responsável do estreito, desde que respeitado. O colapso econômico, incluindo a gasolina chegando a assombrosos US$ 5,99 por galão nos EUA, passa a ser visto como consequência direta da guerra iniciada por Washington e Tel Aviv, e não uma ação iraniana indiscriminada.

A medida, provavelmente costurada com o apoio diplomático e de inteligência da China e da Rússia, reforça a narrativa de que o Irã é o ator racional e proporcional no conflito. Ele reage com força letal contra os seus agressores, mas exibe “boa vontade” estratégica com o resto da comunidade internacional, apresentando-se como um pilar de estabilidade, e não de caos.

A Lógica Nuclear de Mearsheimer e o Fim do Tabu

O cenário após 16 dias de guerra aponta para uma provável derrota militar convencional de Israel. E se isso se mostrar inevitável, Benjamin Netanyahu pode optar por uma desesperada resposta nuclear.

Postol não usa meias palavras: “Esse homem é um maníaco homicida”. E um maníaco homicida que vê seu país ser devastado dia após dia, com suas principais cidades (Tel Aviv, Haifa) sob fogo constante, as suas refinarias em chamas e a sua população aterrorizada, pode muito bem recorrer à “Opção Sansão” — o uso de armas nucleares para morrer levando o inimigo junto.

Nesse momento em que se sabe que Israel está desesperado pela escassez de mísseis anti aéreos, e tendo somente 90 segundos para resposta aos ataques de drones e misseis iranianos, pela destruição dos principais sistemas de radares, o Irã seria muito tolo se não antecipasse que, em algum momento, na iminência de ser completamente destruído, que Israel não vá usar o seu arsenal nuclear. Provavelmente esse não é o caso. Ao contrário.

Postol alerta que o Irã possui cerca de 450 quilos de urânio enriquecido a 60%. Em poucos dias, esse material pode – ou já foi – ser enriquecido para 90% (grau militar), suficiente para fabricar pelo menos 10 ogivas nucleares de 15 quilotons cada — o poder de destruição da bomba de Hiroshima. Essas ogivas podem ser montadas em mísseis hipersônicos, contra os quais, como o próprio Postol demonstra, não há defesa possível.

Portanto, a pergunta não é se o Irã pode ter a bomba, mas quando decidirá tê-la, se já não a tem. E tudo indica que a decisão já foi tomada. Starr especula que um teste nuclear no deserto iraniano, pode ser um aviso a Israel. Assim, a dissuasão nuclear postulada por John Mearsheimer estaria estabelecida.

E se mesmo assim Israel lançar uma ogiva nuclear tática contra as cidades de mísseis iranianas, o que acontecerá?

A resposta, como Postol e Starr sugerem, será rápida e igualmente nuclear. O Irã, seja com ogivas já montadas ou com as que produzirá em dias, responderá com seus mísseis hipersônicos dotados com ogivas nucleares. O resultado será o fim de Israel como Estado e o início de um inverno nuclear regional com consequências globais imprevisíveis, incluindo a possível contaminação de todo o Golfo Pérsico e a interrupção permanente do fluxo de petróleo.

O Apocalipse como Política

O que estamos testemunhando é o resultado lógico de duas décadas de arrogância militar, venda de sistemas de defesa fraudulentos e uma política externa baseada em “mudança de regime” que sempre ignorou as realidades locais.

Acreditou-se que o Irã seria como o Iraque, que desmoronaria sob bombas. Subestimou-se a sua coesão social, a sua preparação militar de décadas e a sua paciência estratégica.

Agora, o Irã vem vencendo a guerra convencional, controla o fluxo de energia global e está à beira de se tornar uma potência nuclear. Israel, encurralado e sangrando, vê a opção nuclear não como um instrumento de último recurso, mas como a única saída para uma derrota existencial.

O tabu nuclear, construído a tanto custo desde 1945, pende por um fio. E esse fio pode arrebentar não por um acidente, mas por um cálculo racional dentro de uma lógica de sobrevivência distorcida. O mundo prende a respiração, enquanto os especialistas nos mostram, com dados e imagens, que o inferno já chegou e o Armagedom pode ser o próximo capítulo.

Nota do Editor:

Esse artigo é bem realista desse momento louco e sinistro. Rezo para estar errado e que esses loucos recuem.

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