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Por PolitikBr I Brasília, Em 12/03/2026, 19h:20, leitura: 10 min
Editor: Rocha, J.C.
Enquanto a Casa Branca insiste em transmitir a imagem de uma máquina de guerra implacável em seu ataque não provocado – junto com Israel – ao Irã, dizendo, falsamente, que “garantirá o fluxo contínuo de energia ao redor do mundo, aconteça o que acontecer”, os fatos no terreno — ou melhor, nas águas do Golfo Pérsico — contam uma história radicalmente diferente. Uma história de impotência disfarçada de força, de vulnerabilidade estrutural exposta e de um império que descobriu, tardiamente, que a sua sombra já não aterroriza como antes.
Para compreender a dimensão do desastre estratégico em curso, é necessário ouvir quem dedicou uma vida estudando a lógica da guerra e da política internacional. O professor John Mearsheimer, da Universidade de Chicago, em entrevista recente, ao também professor, Glenn Diesen, ofereceu uma análise que deveria gelar a espinha de qualquer tomador de decisão em Washington: os Estados Unidos já perderam a guerra contra o Irã. Não perderão no futuro. Já perderam. E o que vemos agora é apenas a agonia de uma estratégia falida tentando, desesperadamente, encontrar uma saída que não existe. Já que parece que quem vai ditar quando a guerra termina, e em que termos e condições, será o Irã e não Donald Trump ou, muito menos, Benjamin Netanyahu.
O que Mearsheimer disse, com a tranquilidade e a clareza de sempre, é a de quem passou décadas dissecando conflitos. Para o professor, o governo Trump embarcou em uma guerra sem qualquer plano crível de encerramento.
A aposta inicial do ataque combinado EUA/Israel era na “decapitação” — a eliminação física da liderança iraniana —, seguida por uma escalada de bombardeios que, supostamente, forçaria Teerã a se render. Isso falhou miseravelmente.
Falhou porque, como Mearsheimer recorda, a história é implacável em seu veredicto: poder aéreo estratégico, sozinho, jamais venceu uma guerra contra um adversário decidido. Não venceu na Segunda Guerra Mundial, não venceu no Vietnã, não venceu no Iraque. E não vencerá no Irã.
Mesmo na Ucrânia, com a Rússia tendo o domínio absoluto dos céus, destruindo gradualmente a capacidade de resistência dos ucranianos empregando bombardeios implacáveis com milhares de drones, bombas guiadas planadoras, mísseis balísticos hipersônicos, a Ucrânia ainda não se rendeu.
Lá no terreno, os russos, cientes de que sem ocupação não se vence uma guerra, vão aos poucos, ao ocupar o campo de batalha e expulsar ou eliminar a resistência do exército ucraniano, tendo o seu prêmio, isto é, tomando para si cada vez mais território e procurando, como Trump nesse momento, uma saída negociada do conflito.
A entrevista de Mearsheimer, por si só, já seria material suficiente para uma reflexão profunda. O que a torna ainda mais perturbadora é a forma como ela corrobora, ponto por ponto, a análise que publicamos ontem mesmo neste espaço, no artigo intitulado “Os EUA se Tornaram o Agente do Caos no Mercado de Energia”. Na ocasião, alertamos para o que nos parecia uma vulnerabilidade óbvia, mas aparentemente ignorada pelos estrategistas do Pentágono: a dependência absoluta dos estados do Golfo em relação às usinas de dessalinização de água.
Vamos aos números, que são a antítese da retórica. O Kuwait depende de água dessalinizada para 90% a 95% de seu consumo. O Bahrein, na mesma faixa. O Catar, acima de 90%. Omã, entre 85% e 90%. Os Emirados Árabes Unidos, entre 70% e 90%. A Arábia Saudita, maior produtor mundial de água dessalinizada em volume, depende do processo para 70% a 75% de seu abastecimento. O que isso significa em termos práticos? Significa que, diferentemente do Irã — que tem fontes alternativas e depende de dessalinização em apenas 2% de seu consumo —, os aliados árabes dos Estados Unidos no Golfo são gigantes com pés de barro. Ou, para ser mais preciso, gigantes cujos pés são feitos de canos e bombas que qualquer míssil iraniano pode transformar em pó.
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Ouvindo Mearsheimer, fica claro que essa vulnerabilidade não passou despercebida em Teerã. “Esses países do Golfo dependem fortemente da água potável que vem dessas usinas“, disse o professor. “Há uma usina de dessalinização que abastece Riad, a capital da Arábia Saudita. E se essa usina parar, você está tirando 90% da água de que Riad depende.”
A conclusão é óbvia: os iranianos têm, se fosse em um jogo de pôquer, quatro ases na mão, isto é, a “capacidade de destruição assegurada” não só da economia dos aliados americanos na região, mas da própria viabilidade de sobrevivência de milhões de pessoas que vivem nessa região. Sem água, ar e comida não há vida. Tudo morre.
O que torna essa estúpida guerra empreendida por Trump/Netanyahu, ainda mais trágica, é a sequência de eventos que a precedeu.Em 7 de março, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, denunciou que os Estados Unidos haviam atacado uma usina de dessalinização na ilha iraniana de Qeshm, afetando o abastecimento de 30 vilarejos.“Atacar a infraestrutura do Irã é uma medida perigosa, com graves consequências. Os EUA estabeleceram esse precedente, não o Irã”, declarou Araghchi. No dia seguinte, como que para provar que a advertência não era vazia, o governo do Bahrein informou que um ataque com drones iranianos causou danos materiais a uma de suas próprias usinas de dessalinização. Foi só um aviso.
Traduzindo. Olho por por olho, Dente por dente: Trump atacou a água do Irã. O Irã respondeu atacando a água de um aliado dos EUA. E agora, o que resta a Washington?
Resta admitir publicamente o que já se sabe, isto é, a toda poderosa marinha americana não pode proteger os petroleiros no Estreito de Ormuz — como revelou a agência Reuters em reportagem citada pela Sputnik Brasil: “A Marinha dos EUA está rejeitando, quase diariamente, pedidos do setor marítimo para escoltar navios pelo estreito de Ormuz, observando que o perigo de ataques permanece muito alto.” O estreito, segundo a própria avaliação americana, é “perigoso demais” para a frota mais poderosa do planeta.
O leitor atento perceberá a dimensão do abismo. Durante décadas, a doutrina de segurança dos Estados Unidos se baseou na premissa da “dominância de escalada” — a capacidade de subir na escada da violência mais rápido e mais alto do que qualquer adversário, impondo a própria vontade. O que Mearsheimer descreve, com a autoridade de quem viu essa teoria ser testada e falhar repetidamente, é que o Irã simplesmente se recusa a jogar esse jogo. Eles sobem a escada conosco. Para cada usina iraniana destruída, uma usina saudita ou emiradense pode ser atingida. Para cada estoque de petróleo incendiado no Irã, um navio petroleiro pode ser imobilizado no estreito.
E há mais. Enquanto Washington desvia recursos militares do Pacífico para o Oriente Médio — incluindo sistemas THAAD retirados da Coreia do Sul, e mísseis Patriot deslocados de bases na região —, Pequim observa com um sorriso que não precisa ser disfarçado.
Como noticiou a Sputnik Brasil, analistas chineses já identificaram a oportunidade: “Com a redução da presença militar dos Estados Unidos na região da Ásia-Pacífico, Pequim aumenta as suas possibilidades de ganhar vantagem estratégica no estreito de Taiwan.” O império está tão ocupado apagando incêndios no Golfo, que não percebe a floresta pegando fogo em seu quintal estratégico mais importante.
Talvez esse seja o momento perfeito para a China fazer a mesma coisa que Trump/Netanyahu fez em relação ao Irã: atacar Taiwan de surpresa e subjugar a ilha. Tornando o fato consumado. Isso não deve acontecer, já que a China prega a multipolaridade, o respeito e a cooperação entre as nações, ao contrário do belicoso, ganancioso e imperialista Estados Unidos: um autêntico e vil Estado bucaneiro.
É neste ponto que a análise de Mearsheimer encontra o cerne do problema: a guerra contra o Irã não foi apenas um erro de cálculo; foi um ato de negligência intelectual por parte de lideranças que se recusaram a ouvir os alertas.
O general Keane, chefe do Estado-Maior Conjunto escolhido a dedo por Trump, avisou antes do conflito que não havia opção militar viável.
O Conselho Nacional de Inteligência produziu um estudo concluindo que a mudança de regime era improvável e que a guerra se arrastaria. A literatura acadêmica sobre os limites do poder aéreo está disponível em qualquer biblioteca que se preze. Nada disso foi suficiente.
O resultado está diante de nossos olhos. Os Estados Unidos, que se apresentavam como o garantidor da estabilidade global, se tornaram o agente do caos no mercado de energia — exatamente como alertamos em nosso artigo anterior.
A volatilidade dos preços do petróleo já supera a da crise de 1973. O tráfego no Estreito de Ormuz está paralisado. Petroleiros pegando fogo.
Os aliados do Golfo começam a fazer as contas sobre o custo de permanecer ao lado de Washington. E a Rússia, que vendia o seu petróleo com desconto a US$ 24, teve suspensas as sanções a ela impostas, em função dessa crise, e agora vende o seu petróleo a US$ 80 – 85.00.
Os russos observam, portanto, satisfeitos, tudo do lado de fora, e veem os seus cofres se encherem com a venda de energia para uma Índia desesperada e uma Europa que, mais uma vez, escolheu o pior dos dois mundos — se alinhando incondicionalmente a um império em declínio, enquanto queima as pontes com os seus vizinhos.
O que Mearsheimer nos mostra é que não há saída fácil. Os iranianos não têm nenhum incentivo para negociar um cessar fogo sem garantias de que não serão novamente atacados daqui há alguns meses. Como confiar em Trump e Netanyahu? Só um estúpido faria isso.
Os iranianos sabem que em um conflito assimétrico e de desgaste, o tempo joga a seu favor. Sabem que, quanto mais a guerra se arrasta, mais evidente se torna a impotência de Washington. Sabem que podem, a qualquer momento, apertar o gatilho que secará a água de Riad ou Abu Dhabi. Ou mesmo varrer do mapa algumas dessas capitais aliadas dos americanos. E sabem, acima de tudo, que o império que prometeu “choque e pavor” está, na verdade, paralisado pelo medo de que a escalada produza ainda mais consequências, que não pode controlar.
Talvez os iranianos venham a condicionar para o término da guerra, que os Estados do Golfo abdiquem da presença militar americana: a expulsão, na prática dos EUA, do Oriente Médio. Eles pode exigir garantias adicionais, tendo a Rússia como interveniente, em um acordo formal, de que nem os EUA e nem Israel irão atacar novamente o seu território. Podem exigir o levantamento das sanções que vigoram há décadas, e mesmo exigir reparação financeira.
Há uma imagem que sintetiza este momento. É a imagem de um elefante descontrolado, correndo em todas as direções ao mesmo tempo, incapaz de parar, incapaz de escolher um caminho, incapaz de admitir que perdeu o controle. Os Estados Unidos, neste março de 2026, são esse elefante.
E o mundo assiste, entre o fascínio e o horror, ao espetáculo de um império que descobriu que a sua força bruta não pode comprar água para os aliados que escolheu abandonar na linha de frente, e nem debelar o caos mundial, sem precedentes, do mercado de energia, se o Irã assim o quiser.
Esse artigo foi baseado em:
- John Mearsheimer: EUA Já Perderam a Guerra com o Irã – Sem Saída à Vista (YouTube)
- Os EUA se Tornaram o Agente do Caos no Mercado de Energia (PolitikBr)
- Estreito de Ormuz é considerado perigoso demais para a frota dos EUA, diz mídia (Sputnik Brasil)
- Conflito com Irã enfraquece posição dos EUA na região da Ásia-Pacífico, o que beneficia China, diz analista (Sputnik Brasil)