A Geopolítica do Espetáculo: O Conselho Imperial da Paz de Trump

Internacional, Geopolítica

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Por PolitikBr I Brasília, Em 26/01/2026, 19h:35, leitura: 6 min

Editor: Rocha, J.C.

Em um cenário internacional já marcado por fissuras profundas e pela erosão sistemática das instituições multilaterais, a mais recente proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, surge como um movimento tático previsível dentro de um projeto de longo prazo: a substituição da arquitetura de governança global por um modelo de influência direta, unilateral e transacional.

A ideia de um “Conselho da Paz para Gaza”, apresentada como uma solução inovadora para um conflito secular, é, na verdade, a ponta de um iceberg muito mais sinistro. Ela encapsula a ambição de deslocar o centro de gravidade do poder internacional, minando deliberadamente a autoridade das Nações Unidas e, em particular, de seu Conselho de Segurança.

A crítica do presidente brasileiro – Luiz Inácio Lula da Silva – ao projeto de Trump, foi precisa: a proposta é equivalente a “criar sozinho uma nova ONU”.

Trump quer ser o jogador com o mando de campo perpétuo. O dono da bola e o juiz.

Trump não convidou nações para um diálogo soberano; ele as convocou para um clube financeiro e político, com uma taxa de admissão fixada, na cifra nada simbólica, de US$ 1 bilhão e, mais: com uma alteração radical nas regras de governança.

Enquanto no Conselho de Segurança da ONU o poder de veto é um privilégio (e um problema) compartilhado por cinco potências (EUA, Rússia, China, França e Reino Unido), no novo conselho idealizado por Trump, os Estados Unidos seriam o único detentor desse poder. O convite, portanto, não é para deliberar, mas para legitimar e financiar uma estrutura onde a vontade de Washington seria, em última instância, incontestável.

As respostas internacionais a esta convocação formam um retrato perfeito das novas (e velhas) linhas de fratura do mundo. Até o momento, os movimentos são elucidativos:

  • Rússia (Vladimir Putin): Ainda estuda o convite, mas com uma jogada de mestre ofereceu contribuir com os US$ 1 bilhão não em moeda, mas em ativos russos congelados pelo Ocidente após a invasão da Ucrânia. É um gesto que simultaneamente adere à proposta, ridiculariza sua base financeira e expõe a hipocrisia do sistema que Trump, paradoxalmente, também ataca. Putin transforma a taxa de adesão em uma arma de disputa jurídica e moral.
  • França (Emmanuel Macron): Rejeitou o convite de forma clara e direta, reforçando o compromisso com o multilateralismo das Nações Unidas. A recusa francesa não é surpreendente, mas é simbólica. É a defesa de uma ordem, mesmo que imperfeita, contra a instauração de um protetorado aberto.
  • Brasil (Luiz Inácio Lula da Silva): Apesar de ter recebido um convite reforçado, com Trump afirmando “gosto dele”, Lula se posicionou como crítico ferrenho da proposta. Sua fala transcende a questão específica de Gaza e ataca o princípio subjacente: a ideia de que uma única nação, sob a liderança de uma figura volátil, pode refundar a governança global por decreto. É a voz do Sul Global alertando para os perigos de um neocolonialismo institucional disfarçado de eficiência.
  • Alemanha ( Friedrich Merz)- Rejeitou o convite. Merz citou “razões constitucionais” que impedem a Alemanha de aceitar a estrutura de governança proposta por Trump para o conselho. O governo alemão expressou reservas quanto à expansão do mandato do Conselho para além de Gaza, temendo que ele atue como uma instância de mediação global concorrente a organismos internacionais estabelecidos. 
  • Espanha ( Pedro Sánchez ) – Rejeitou o convite. A Espanha criticou o fato de o Conselho operar fora da estrutura da Organização das Nações Unidas, vendo a iniciativa como uma tentativa de esvaziar o multilateralismo.
  • China ( Xi Jinping ) – Rejeitou o convite. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, declarou que o país defende o “verdadeiro multilateralismo” e que o sistema internacional deve ter as Nações Unidas em seu núcleo. Beijing vê a criação de um conselho paralelo como uma tentativa de esvaziar a autoridade da ONU.

Ainda rejeitaram o convite de Trump: O Reino Unido, a Noruega, a Suécia, a Dinamarca e a Eslovênia.

As hesitações de adesão e as rejeições à Trump refletem o cálculo complexo entre o desgaste das instituições atuais e o risco colossal de validar um modelo que consagra a hegemonia sem freios dos EUA.

O cerne da questão, portanto, não é Gaza. Gaza é o pretexto, o cenário trágico usado como pano de fundo para um espetáculo de poder muito maior.

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A proposta de Trump é a materialização de uma visão de mundo onde a diplomacia é substituída pela transação, a soberania coletiva pela primazia unilateral, e o direito internacional pela lei do mais forte – desde que o mais forte possa cobrar pelo serviço de impor a sua paz.

A estratégia é uma tentativa de um Revival de Gaza, mas, no fundo, de fato, uma tentativa dos Estados Unidos em se colocar novamente como centro das grandes decisões globais, sem ser pela forma espetaculosa e abusiva de Trump. É por isso que ele é rejeitado.

Essa iniciativa é hipócrita em todos os sentidos. Há pouco, Trump falava em resorts à beira mar em Gaza. Ele emprestava e empresta apoio irrestrito a um genocida, que deliberadamente comandou uma operação arrasa quarteirão e de erradicação, pela bala ou pela fome, dos palestinos de Gaza. Que isenção e moral tem esse sujeito, quando o assunto é a promoção da paz?

E o cara que quer presidir ad eternum um comitê em prol da paz é, ainda, o mesmo que rouba, como bucaneiro, recursos petrolíferos da Venezuela; sequestra um chefe de Estado – Nicolás Maduro – sob pretextos fantasiosos e mentirosos; quer tomar pela força ou pela coação a Groenlândia, porque sabe que ela e a Dinamarca não tem condições de se defender, militarmente e geopoliticamente; ataca o Irã sob pretextos obscuros e também mentirosos. Enfim: Um farsante.

Chega ser ridículo qualquer nação que se preze endossar uma fraude dessa. E isso sem mencionar o claro objetivo de enfraquecer a ONU ao criar um fórum paralelo mais “ágil” (leia-se: mais controlável). É o sonho ultranacionalista da “America First” elevado à política externa: o mundo não como uma comunidade, mas como um conglomerado de subsidiárias de seu negócio, que dentro dos EUA beira à falência e confisco judicial de bens.

A rejeição das várias lideranças ao Conselho Imperial de Trump mostra que o plano não será de implementação fácil. No entanto, o simples lançamento da ideia já é uma vitória na guerra de narrativas.

O perigo com o “Conselho da Paz” de Trump é que ele continue a corroer a já debilitada confiança no sistema multilateral, deixando o mundo cada vez mais à mercê de arranjos ad hoc, voláteis e profundamente desiguais.

Esse artigo foi baseado em:

  1. https://noticiabrasil.net.br/20260123/quer-criar-sozinho-uma-nova-onu-lula-critica-trump-e-seu-conselho-da-paz-47325635.html
  2. https://noticiabrasil.net.br/20260121/putin-agradece-convite-de-trump-ao-conselho-da-paz-e-oferece-us-1-bi-em-ativos-congelados-47254241.html
  3. https://noticiabrasil.net.br/20260120/trump-reforca-convite-a-lula-para-integrar-o-conselho-da-paz-para-gaza-gosto-dele-47223130.html
  4. https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2026/01/7336304-macron-recusa-convite-para-compor-conselho-da-paz-de-gaza.html

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