Internacional, Geopolítica
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Por PolitikBr I Brasília, Em 03/01/2026, 19h:25, leitura: 5 min
Editor: Rocha, J.C.
A declaração de Donald Trump, que parecia mais um tweet bombástico, se materializou em bombas reais sobre Caracas e em uma ação de força que sequestrou o presidente de um país soberano.
A operação, descrita com detalhes sórdidos, foi de uma violência ímpar. De acordo com informações da CNN reproduzidas pelo Diário do Centro do Mundo, Maduro e a sua esposa Cilia foram literalmente arrastados de seu quarto, ainda durante a madrugada, por militares americanos. A ação teria ocorrido dentro do complexo militar do Forte Tiuna, em Caracas. A justificativa legal apresentada pelos EUA se baseia em acusações de 2020 do Departamento de Justiça, que imputa a Maduro crimes como narco terrorismo e conspiração contra os Estados Unidos. Na prática, Washington atuou como polícia, juiz e carrasco, executando uma captura extraterritorial que ignora por completo a soberania venezuelana e o direito internacional.
Diante desse ato de guerra, a reação do presidente Lula foi protocolar, se equilibrando nas palavras. Em nota oficial, Lula condenou veementemente o ataque, o classificando como uma “afronta gravíssima à soberania” e um “precedente extremamente perigoso” para toda a comunidade internacional.
Lula marcou uma reunião de emergência com o seu staff e pediu uma resposta “vigorosa” da ONU, colocando o Brasil à disposição para mediar o diálogo. No entanto, a eficácia prática dessa condenação, diante de um fato consumado de tamanha magnitude, coloca uma lupa sobre a real capacidade de articulação e defesa do Brasil, e de seus aliados, em um mundo onde a lei da truculência e do mais forte parece mais presente do que nunca. Onde, em declínio, e em um mundo multipolar, os Estados Unidos tentam assegurar o que lhes resta: o quintal da América Latina.
O alvo dos Estados Unidos, nesse primeiro momento, pela doutrina Monroe revisada, foi a Venezuela e as suas imensas riquezas em energia e minérios. E isso foi um terremoto mundo à fora. E as consequências serão muito sérias.
A operação estadunidense não é um evento isolado. Ela é o capítulo mais agudo de uma escalada que vinha sendo anunciada. No final de outubro de 2025, Trump já havia revelado que tinha autorizado a CIA a realizar operações secretas na Venezuela. O Pentágono estudava abertamente cenários de ataque. O que parecia bravata se tornou ação. E a ação expõe, de forma crua, uma verdade inconveniente: um país do Sul Global, sob sanções extremas e com sua capacidade defensiva minada, está indefeso diante da vontade unilateral de uma superpotência.
O comentário anexado pelo leitor sobre a “estupidez extrema” dos EUA que “mostra que eles perderam tanto poder que só tem cacife para atacar uma nação sanciona e com pouca capacidade de se defender” aponta para uma análise pertinente. Não é um ato de força plena, mas um ato de força seletiva e arrogante, justamente contra quem considera não poder reagir em pé de igualdade.
Aqui reside a lição mais dura e urgente para o Brasil e para os países que se veem na mesma linha de fogo. A análise do leitor sobre o BRICS é dolorosamente profética. Em 2024, sob a presidência russa do bloco, o Brasil vetou o ingresso da Venezuela como membro pleno do bloco.
Na época, as razões do Brasil podem ter sido geopolíticas ou de conveniência diplomática pela recente reeleição de Maduro, tida como possivelmente fraudulenta. Hoje, o custo estratégico desse veto aparece com clareza. Se a Venezuela fosse um membro pleno do BRICS, um ataque dessa natureza não seria apenas contra Caracas, mas contra um bloco que agrega Rússia, China, Índia. Irã, África do Sul. Ao todo dez países e mais dez como parceiros. No mundo multipolar, de múltiplos nós de influência e negócios, seria uma provocação de consequências incalculáveis, um risco que Washington pensaria duas vezes antes de correr. Ao isolar a Venezuela, a deixando fora desse escudo coletivo, se facilitou a sua transformação em alvo.
O medo expresso no segundo comentário do leitor é, portanto, mais do que legítimo. O futuro que se desenha é sombrio para nações que não se alinham incondicionalmente aos interesses norte-americanos. A referência a “entreguistas” e “bajuladores” de americanos no cenário político interno brasileiro toca no nervo da questão da soberania nacional. O exemplo de Javier Milei na Argentina, com a sua submissão explícita à agenda dos EUA, serve como um farol para aqueles que no Brasil desejam um alinhamento similar. A pergunta “como fazer isso?” – sobre expurgar essa influência – é a pergunta de um milhão de dólares. A resposta passa necessariamente por um projeto de nação soberano, que fortaleça laços com parceiros estratégicos diversificados (como China e Rússia, inclusive na esfera de segurança), que invista decisivamente em sua própria capacidade de defesa e, sobretudo, que tenha uma política externa corajosa e coerente de integração e defesa coletiva da América do Sul.
A captura de Maduro não é um fim. É um começo perigoso. Ela sinaliza que a Doutrina Monroe, longe de estar morta, foi ressuscitada com uma agressividade do século XIX, armada com a tecnologia do século XXI. Ela demonstra que, a ordem multipolar efetiva requer mecanismos de defesa coletivos contra Estados Bucaneiros, como são os Estados Unidos. A soberania é um conceito frágil, violável a qualquer momento para essas entidades fora da lei. O silêncio ou a conivência de parte da comunidade internacional diante desse ato será o aval para que ele se repita. O Brasil, hoje, condena. Mas a pergunta que fica, e que deve ecoar nos corredores do Itamaraty e no seio da sociedade, é: estamos preparados para fazer mais do que condenar quando – não se iluda, é uma questão de tempo e de conjuntura política interna – for a nossa vez?
Esse artigo foi baseado em:
- PolitikBr: “A Captura do Século ou a Farsa do Século? A Notícia Bombástica de 3 de Janeiro” – https://politicaemdebate.org/2026/01/03/a-captura-do-seculo-ou-a-farsa-do-seculo-a-noticia-bombastica-de-3-de-janeiro/
- Estado de Minas: “Lula condena ataque dos EUA à Venezuela e cobra ONU: ‘Afronta à soberania'” – https://www.em.com.br/politica/2026/01/7325212-lula-condena-ataque-dos-eua-a-venezuela-e-cobra-onu-afronta-a-soberania.html
- Diário do Centro do Mundo: “Maduro e esposa foram ‘arrastados do quarto’ durante sequestro pelos EUA” – https://www.diariodocentrodomundo.com.br/maduro-e-esposa-foram-arrastados-do-quarto-durante-sequestro-pelos-eua/
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