Internacional, Geopolítica
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Por PolitikBr I Brasília, Em 27/12/2025, 17h:14, leitura: 6 min
Editor: Rocha, J.C.
O inverno europeu se transformou no temor mais agudo de governantes, empresários e cidadãos comuns. A crise energética que hoje paralisa indústrias, multiplica contas de luz e ameaça congelar lares não surgiu do nada. Ela é o resultado previsível de uma série de decisões políticas que, em nome de um alinhamento ideológico e geopolítico aos Estados Unidos, escolheram ignorar leis básicas da economia e da interdependência global.

O suicídio energético europeu começou a ser planejado em 2022, com a escalada do conflito na Ucrânia, mas foi consumado com um ato de sabotagem, que ecoa como um tiro no próprio pé: a destruição de trechos, sob o mar báltico, do gasoduto Nord Stream 2.
A narrativa oficial, repetida à exaustão por quase 04 anos, era de libertação. Romper a dependência do gás russo, retratado como “arma geopolítica”, seria um ato de soberania e um golpe estratégico contra Moscou. Ministros europeus celebraram a própria suposta astúcia quando os gasodutos no fundo do Báltico foram danificados por explosões em setembro de 2022. A Rússia, proclamaram, havia perdido a sua principal alavanca de influência.
O que esses políticos não calcularam — ou preferiram ignorar — era o óbvio: gás natural não é um conceito abstrato ou um mero token em um jogo de xadrez diplomático. É um insumo físico, denso em energia, que aquece casas, gera eletricidade e move a indústria pesada; a base da economia moderna.
Agora, a realidade econômica, implacável e indiferente a slogans, bate à porta da Europa. Com os gasodutos diretos da Rússia (Nord Stream 1 e 2) inoperantes e os fluxos de gás que passavam pela Ucrânia drasticamente reduzidos, restaram opções caras, instáveis e insuficientes.
A Europa, forçada pelas circunstâncias que ela própria criou, mergulhou no mercado global de Gás Natural Liquefeito (GNL), uma solução que se tornou um pesadelo de custos. Navios metaneiros – transportadores de GNL – , transportam o gás liquefeito de forma muito menos eficiente e mais custosa, do que o gás transportado por um gasoduto, ligando a ponta da extração/processamento à ponta do consumo. Sim. O gás barato russo, transportado por gasodutos, na prática; em livre condições de mercado, inviabilizaria a venda do caro gás americano, obtido pelo craqueamento hidráulico do xisto betuminoso – shale oil – para ser vendido aos europeus. Mas os fracos líderes europeus preferiram a submissão. O suicídio energético. O resultado? O preço do m³ de gás na Europa atingiu patamares de 2 a 5 vezes superiores aos praticados nos Estados Unidos, país que se tornou o maior fornecedor de GNL para o bloco.
Essa disparidade de preços, diretamente ligada aos custos, não é apenas estatística. Ela se traduz em um processo de desindustrialização em câmera lenta. Empresas intensivas em energia, como as gigantes do setor químico, de fertilizantes e do aço, confrontadas com custos proibitivos e a incerteza sobre o fornecimento futuro, começaram a tomar decisões racionais. E a racionalidade, nesse caso, aponta para fora da Europa. Os Estados Unidos, com seu “Inflation Reduction Act“, estenderam um tapete vermelho de subsídios generosos aos industriais da Alemanha, e de outros países europeus, para que eles transferissem as suas expertises e operações industriais para os EUA. Uma autêntica e vil punhalada à outrora pujante indústria europeia. A China e outros países, com ofertas de energia mais barata e previsível, também se tornaram destinos atraentes. A fuga de capital industrial é uma hemorragia silenciosa, que mina a base produtiva de qualquer país, de forma talvez irreversível.
Enquanto isso, a pressão interna na Europa crescia e agora, com a guerra praticamente perdida para os Russos, cresce ainda mais. O descontentamento das elites industriais alemães, por exemplo, soa como um alerta desesperado: sem o gás barato russo, a competitividade alemã desaparece. Uma óbvia verdade.
As discussões em fóruns econômicos e nos corredores do poder em Berlim e Bruxelas já não giram em torno de “se” é necessário dialogar com Moscou, mas “como” fazê-lo sem perder a face política. A linguagem muda: de “sanções máximas” para “separar energia de política”, de “ferramenta de chantagem” para “única saída possível da crise”.
A ironia é profunda e amarga. A Europa, que ao longo desses quase 04 anos vem impondo sanções aos Russos, agora se vê na posição de suplicante. O Kremlin, por sua vez, demonstra uma paciência glacial. Como destacado na análise, Putin deixou claro que a Rússia não é uma “oficina de reparos para erros políticos alheios“. Moscou estabeleceu condições duras para qualquer discussão sobre os reparos e a reativação do Nord Stream 2: identificação e responsabilização dos sabotadores, garantias de segurança e compensações. São termos que soam como humilhação para a liderança europeia, mas que refletem uma nova correlação de forças. Quem precisa de quem? A resposta fica clara enquanto os termômetros caem.
O drama se desenrola em dois atos. O primeiro ato foi o da arrogância e negação, marcado por explosões subaquáticas e declarações triunfalistas. O segundo ato, que vivemos agora, é de pragmatismo forçado e constrangimento, com negociações sigilosas, cartas não oficiais de consórcios energéticos, e um silêncio cada vez mais constrangido dos críticos mais ferrenhos em Varsóvia e em Londres. A geografia e a física são implacáveis: a Rússia permanece como o fornecedor do gás natural, por tubulação, mais próximo e com maior capacidade de atender à demanda massiva do continente. A salvação industrial europeia está em Moscow. Com as bençãos de Putin, através da Gazprom.
O custo final dessa crise não se mede apenas em euros por megawatt-hora. Se mede em queda do PIB, fábricas fechadas, empregos perdidos, soberania estratégica erodida, e declínio do padrão de vida e da influência global da Europa. O “suicídio energético europeu” foi uma escolha política estúpida. Sem sentido. A ressuscitação, se possível, terá um preço altíssimo — e não apenas monetário. Terá o preço de engolir o orgulho e admitir que, no mundo real, os recursos e a logística frequentemente falam mais alto do que as narrativas.
Esse artigo foi baseado em:
- Política em Debate: “EUA plantaram os explosivos que detonaram Nord Stream no ano passado, diz jornalista norte-americano” (https://politicaemdebate.org/2023/02/09/eua-plantaram-os-explosivos-que-detonaram-nord-stream-no-ano-passado-diz-jornalista-norte-americano/)
- Política em Debate: “Trump e a sabotagem ao gasoduto Nord Stream 2” (https://politicaemdebate.org/2024/11/18/trump-e-a-sabotagem-ao-gasoduto-nord-stream-2/)
- Análise do vídeo Europe Freezes Without Gas: Germany Asks Moscow to Restore the Flow | Putin Sets Conditions (https://youtu.be/GFXCu4vjZKA?si=_h_wQGieNlHmGNmt)
- https://www.iea.org/policies/16156-inflation-reduction-act-of-2022
