A Rússia se Prepara para um Possível Confronto com a OTAN

Internacional, Geopolítica

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Por PolitikBr I Brasília, Em 21/12/2025, 18h:33, leitura: 7 min

Editor: Rocha, J.C.

A Rússia não está apenas travando uma “operação militar especial” na Ucrânia; ela está conduzindo, de forma metódica e paciente, um vasto processo de preparação para um conflito de proporções muito maiores.

Tudo indica que Moscou está se armando, estocando e reposicionando suas peças no tabuleiro geopolítico para um possível enfrentamento direto contra a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Esta não é uma teoria alarmista, mas uma conclusão que emerge da análise de padrões militares, declarações de especialistas e ações concretas no campo de batalha e na indústria de defesa.

A guerra na Ucrânia, sob a perspectiva russa, deixou há muito de ser um fim em si mesmo. Ela se transformou em um campo de testes, um desgaste calculado do adversário e, sobretudo, uma janela de oportunidade para se fortalecer, enquanto o Ocidente se enfraquece.

O tenente-coronel Daniel Davis, veterano de combate e analista geopolítico, expôs essa lógica de forma clara em uma entrevista ao professor Glenn Diesen.

Davis argumenta que a estratégia russa de avanço lento e constante – frequentemente alvo de zombaria por parte de alguns líderes ocidentais – é, na verdade, deliberada. O objetivo não é uma vitória rápida e custosa, mas manter uma pressão implacável que exaure as forças ucranianas e, por tabela, os estoques e a capacidade de produção bélica do Ocidente.

Enquanto isso, em paralelo ao desgaste do inimigo, a Rússia acelerou a sua máquina de guerra, a níveis não vistos desde a Guerra Fria.

Davis chama a atenção para um ponto crucial: a taxa de produção de mísseis (como o Kinzhal), bombas planadoras, drones e artilharia, supera em muito a taxa de uso atual. Isso significa que enormes quantidades de armamento estão sendo produzidas e armazenadas, não enviadas imediatamente para a frente de combate.

Para que servem esses estoques em crescimento, se a guerra atual parece ser de baixa intensidade, em termos de uso desses sistemas de alta tecnologia?

A resposta mais lógica, e perturbadora, é que eles não são destinados, primariamente, à Operação Militar Russa. Na verdade, parece a formação de um arsenal estratégico, que está sendo acumulado para uma eventualidade mais ampla.

Esta percepção é reforçada pela postura russa diante de provocações que, em qualquer outro contexto, seriam consideradas casus belli diretos, e que incluem ataques à infraestrutura energética russa em seu próprio território, e mais recentemente, ataques a petroleiros civis russos, não apenas no Mar Negro, mas também no Mediterrâneo.

No entanto, a resposta russa tem sido medida, retaliatória no teatro ucraniano (com bombardeios a Odessa, por exemplo), mas não a reação expansiva, que alguns no Ocidente parecem esperar – ou talvez, provocar.

E aqui reside um dos elementos mais perigosos do momento atual. Existe uma narrativa, endossada por vozes dentro do establishment de segurança ocidental, de que a Rússia não reagirá. Essa percepção, como alerta Davis, é um erro catastrófico. Pior ainda, há indícios de que setores dentro dos serviços de inteligência ocidentais estão ativamente buscando uma escalada.

Um ex-conselheiro do presidente Donald Trump – General Mike Flynnacusou publicamente a CIA e o MI6 – britânico – de trabalharem para deflagrar uma guerra total entre a OTAN e a Rússia. Se verdadeira ou não, a mera circulação dessa acusação reflete o nível tóxico e arriscado do discurso em alguns círculos.

Reproduzimos aqui texto da Sputnik Brasil sobre o tema:

“A CIA está em conluio com o [serviço de inteligência britânico] MI6 e outros integrantes da comunidade de inteligência da UE. Esses belicistas, bem como outros em nosso próprio governo e no congresso, querem uma guerra perpétua“. (General Mike Flynn)

O general lembrou que os EUA estiveram no Afeganistão e no Iraque por 20 anos, o que lhes custou trilhões de dólares, além de uma enorme perda de prestígio. ” ( noticiabrasil.net.br)

O presidente Putin, por sua vez, vem enviando mensagens claras. Ele afirmou que a Rússia não quer uma guerra com a OTAN, mas, se for forçada a isso, lutaráe não será uma guerra “cirúrgica”, como na Ucrânia.

A menção aos mísseis hipersônicos “Oreshnik”, entrando em produção em massa, e em prontidão de combate – antes do Ano Novo – não é um blefe. É a materialização dessa provável guerra contra a OTAN, na perspectiva Russa.

Davis é enfático: essas armas não servem mais para dissuadir, pois o Ocidente demonstrou não ser dissuadido. Elas são, portanto, para uso efetivo. São a ferramenta que permitiria à Rússia, em um cenário de guerra convencional aberta, sobrecarregar e destruir rapidamente pontos nevrálgicos da infraestrutura militar e logística da OTAN na Europa – alvos fixos e conhecidos, como fábricas de munição e depósitos herdados da Guerra Fria.

No campo tático, a estratégia russa revela essa mesma paciência voltada para o longo prazo. A análise do front de Krasnoarmeysk mostra um padrão: avanços mínimos, diários, consolidados.

A Rússia não busca o colapso espetacular das linhas, mas o desgaste sistemático. Usa drones baratos e produzidos em massa como munição de observação, integrados a um ciclo mortal de artilharia, que torna posições ucranianas insustentáveis. É uma guerra de tempo, de administração do território conquistado (inclusive com evacuações de civis para consolidar o controle), e de preservação de sua própria força.

Eles estão jogando um jogo diferente, onde a “vitória” na Ucrânia é apenas um passo, ou um cenário útil, dentro de um horizonte estratégico mais amplo.

Enquanto isso, a Europa, de forma quase trágica, caminha na direção oposta. As suas economias estão tensionadas pelo corte da energia russa abundante e barata, seus estoques de armas estão esgotados, após dois anos de fornecimento à Ucrânia, e a sua capacidade industrial militar está longe de atender a uma guerra de alta intensidade.

Líderes europeus, como o agora primeiro-ministro holandês Mark Rutte, falam abertamente em “se preparar para a guerra com a Rússia”, mas sem uma compreensão clara das assimetrias que tal conflito teria hoje. É como se a linguagem belicosa do período unipolar, onde palavras não tinham consequências diretas, ainda persistisse, ignorando que o mundo mudou.

A conclusão é angustiante. A Rússia está se preparando para uma guerra com a OTAN não porque a deseje, mas porque passou a acreditar que ela é inevitável, dada a postura intransigente do Ocidente.

Ela o faz a partir de uma posição de força crescente: um exército numeroso, bem treinado e experimentado; uma indústria militar ampliada, modernizada e mobilizada, e arsenais de armas de última geração sendo estocados.

O Ocidente, por outro lado, parece navegar entre uma negação da realidade no terreno ucraniano e uma retórica inflamada, que só acelera a dinâmica do conflito que, paradoxalmente, afirma querer evitar.

O ataque à petroleiros russos em águas internacionais deve ter como resposta dos Russos uma retaliação massiva, possivelmente sobre Odessa, como já dissemos. Uma punição contida à Ucrânia, mas sem cair na armadilha do ocidente, que quer a desculpa para iniciar uma guerra ampla.

Estamos em um momento extremamente perigoso. A menos que haja uma correção drástica na abordagem ocidental, que incorpore a realidade do poderio russo e a necessidade de uma negociação séria, que leve em conta preocupações de segurança mútua, o caminho que estamos percorrendo leva, sim, a um confronto direto. E nesse confronto, alerta Daniel Davis, a Europa está em desvantagem material e logística flagrante. A preparação da Rússia é um fato. A questão que resta é se o Ocidente terá a sabedoria de evitar o conflito para o qual, inadvertidamente, vem ajudando o seu adversário a se preparar.

Esse artigo foi baseado em:

  1. Entrevista do Tenente-Coronel Daniel Davis ao professor Glenn Diesen. (https://youtu.be/OifA3xejS3U?si=hMCHMb1NeBXyePH2)
  2. Análise tática dos avanços russos no front de Krasnoarmeysk. (https://youtu.be/kyQmxm9t9HY?si=1Oo7QSWGz4TyY9SQ)
  3. Reportagem da DW sobre o ataque ucraniano a petroleiro russo no Mediterrâneo. (https://www.dw.com/pt-br/em-a%C3%A7%C3%A3o-in%C3%A9dita-ucr%C3%A2nia-ataca-petroleiro-fantasma-da-r%C3%BAssia-na-costa-da-l%C3%ADbia/a-75247907)
  4. Notícia sobre acusações de que CIA e MI6 buscam guerra OTAN-Rússia. (https://noticiabrasil.net.br/20251221/cia-e-mi6-querem-que-otan-entre-em-guerra-total-com-russia-diz-ex-conselheiro-de-trump-46292364.html)

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