Os Movimentos da Máquina Narcoestatal

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Por PolitikBr I Brasília, Em 10/12/2025, 07h:40, leitura: 8 min

O escândalo que levou à prisão e à polêmica soltura do ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar, é frequentemente visto como um “problema carioca“. Uma disfunção local, um caso isolado de promiscuidade entre a política e o crime. Essa é uma leitura perigosamente míope.

O que se desenrola no Rio é, na verdade, a face mais exposta de uma rede nacional, um modus operandi que encontra eco e conivência em gabinetes de outros estados, especialmente aqueles governados pela extrema direita. É uma máquina que une, num conluio sinistro, facções criminosas, políticos corruptos e um projeto legislativo meticuloso para blindá-los: a chamada PL Antifacção.

O caso Bacellar é o manual dessa operação. Um presidente de assembleia, aliado do governador Cláudio Castro, foi preso pela Polícia Federal (PF) por supostamente vazar informações – de que iria ocorrer uma operação – para um deputado investigado por ligações com o Comando Vermelho – deputado TH Joias, que está preso desde setembro, acusado pela PF de intermediar a compra e venda de armas para o Comando Vermelho (CV).

A reação da casa legislativa foi imediata: por uma ampla maioria, que atravessa o espectro partidário, os deputados votaram pela soltura de Bacellar, 42 votos a favor e 21 contra – apesar das evidências que justificaram a prisão, como ter sido encontrado com o parlamentar R$ 91 mil, que ele declinou de explicar a origem. Preferindo o silêncio.

O medo dos parlamentares não era corporativista, era existencial. Como revelou o ex-governador Anthony Garotinho, já que um dos 3 celulares apreendidos de Rodrigo Bacellar era uma agenda de “acertos”, com nomes, valores e esquemas. Soltar Bacellar é, portanto, tentar conter o vazamento de uma rede muito maior de corrupção e de jogo de influências.

Diante da decisão esdrúxula, e de se estranhar (?), da Assembleia Legislativa do Rio, o ministro Alexandre de Moraes (STF), decidiu soltar o presidente da Alerj, mas impôs uma série de medidas cautelares, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica e o afastamento imediato de Bacellar do cargo de presidente da Casa. A decisão de Moraes nos deixa contente? Certamente não. Ao contrário.

Enquanto isso, no estado de São Paulo, outra facção, o Primeiro Comando da Capital (PCC), mostrava a sua sofisticação financeira.

“A Operação Carbono Oculto da PF revelou um esquema bilionário de lavagem de dinheiro do PCC – a maior organização criminosa do Brasil – envolvendo fintechs, fundos de investimentos e postos de combustível, na Avenida Faria Lima.

Mas o que chama atenção é quem ajudou a criar o terreno fértil para que esse tipo de crime ou não seja investigado ou a sua investigação, e exemplar punição, seja dificultada: um deputado federal que se apresenta como “cristão, conservador, paladino da família”, mas que, na prática, contribuiu para fragilizar os mecanismos de controle financeiro do Brasil: Nós estamos falando de Nikolas Ferreira.(PolitikBr).

Some-se a isso o caso do Banco Master, em que se descobriu um esquema de lavagem de dinheiro em que recursos do PCC eram injetados em fundos de investimento, num processo de “esquentar” o capital do crime. E, novamente, os tentáculos alcançam a política.

Investigações da PF apontam para a participação ou benefício de figuras públicas e empresários ligados à extrema direita paulista. Não se trata mais de crime rude da milícia, do CV, ou do “gatonet”, mas de lavagem de dinheiro obtido de forma ilícita, de alto nível; que, então, financia campanhas políticas, compra influência e se infiltra no sistema financeiro. É a outra ponta da mesma moeda: se no Rio o conluio é operacional (vazamento de informações, proteção), em São Paulo ele é financeiro (capitalização, integração ao mercado).

O que une essas duas pontas aparentemente distantes – o Comando Vermelho no Rio e o PCC em São Paulo – no âmbito político? A resposta está em Brasília. E um dos personagens desse descalabro é o deputado federal Guilherme Derrite. É dele a relatoria do Projeto de Lei 2.963/2023, o PL Antifacção do governo Lula, deformado, radicalmente alterado por Derrite. Vendido como uma ferramenta para “organizar” o combate ao crime, mas o que a sua letra fina revela é o objetivo oposto: amarrar a Polícia Federal.

O projeto, em sua primeira versão simplesmente bania a PF de suas atribuições no combate ao crime organizado, nos estados federados. Diante da “grita geral” do absurdo, a segunda versão de Derrite impunha uma camisa de força à PF, exigindo, entre outras coisas, uma requisição formal do governador do estado para o início de investigações de crimes transnacionais ou com repercussão interestadual, que ocorressem em seu território. Em sua sexta versão (!), essa excrescência foi eliminada do texto. Mesmo assim, ficou prejudicado o financiamento das atividades da PF no texto aprovado, a toque de caixa, por Hugo Motta e pelo Centrão.

A esperança é que o senado altere o texto da Câmara que, claramente, limita a atuação operacional da PF, e ainda por cima favorece sobremaneira o crime organizado, ao impor que os bens dos ilícitos apreendidos pela PF só possam ser expropriados após transito em julgado, o que pode levar anos.

Traduzindo para a realidade: se o projeto de Derrite já estivesse em vigor, a operação Carbono Oculto, e a que prendeu Rodrigo Bacellar no Rio, possivelmente não teriam acontecido, ou teriam sido drasticamente dificultadas.

No Rio, por exemplo, caberia ao governador Cláudio Castro – aliado político de Bacellar e que, segundo Garotinho, mobilizou a sua base para soltá-lo – autorizar a PF a investigar seu próprio aliado. É uma licença para a autocracia e a blindagem.

O mesmo valeria para São Paulo: o governador Tarcísio de Freitas, que tem se mostrado um ferrenho defensor do projeto de Derrite, teria o poder de veto sobre as investigações da PF que toquem em esquemas financeiros de seu estado ou em figuras de sua base de apoio.

Portanto, o PL Antifacção não é uma mera proposta técnica. É o elemento de conexão da “máquina”, que mencionamos no título desse artigo.

É o instrumento legal que permitiria – na primeira versão de Derrite– a governadores como Castro e Tarcísio, sob o pretexto de “coordenar a segurança“, na verdade, controlassem ou mesmo impedissem as investigações federais que ameaçassem as suas redes de apoio – sejam elas lícitas ou ligadas ao crime organizado local, ou a esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro.

A convocação de Bacellar e Garotinho para depor na CPI do Crime Organizado, nesse turbilhão de revelações e suspeitas de corrupção é, portanto, um momento em que cai o véu das pretensas relações entre políticos corruptos e o crime organizado. É a oportunidade de se colocar luz à podridão dessa engenharia legislativa. Descortinar um projeto de poder que serve de cortina de fumaça para a construção de um narcoestado moderno, onde o crime não está na favela, mas nos gabinetes; e a sua arma mais poderosa não é o fuzil, mas ações aparentemente desconexas, mas que, no fundo, são coordenadas: a aberração de um projeto de lei, claramente nocivo à punição e inibição das atividades criminosas. A exemplo da sexta versão do PL Antifacção, aprovado pela Câmara dos Deputados, com esmagadora adesão do Centrão e da extrema direita.

Não se pode lutar contra o Comando Vermelho no Rio e ignorar que o PL Antifacção amarra a PF. Não se pode investigar o PCC em São Paulo e aceitar a narrativa de que o PL Antifacção é “apenas organizacional“. A batalha é uma só: é pela preservação da autonomia das instituições de investigação federal, única força capaz de cortar os tentáculos dessa hidra que já envolveu assembleias legislativas, palácios de governo e o Congresso Nacional.

Esse artigo foi baseado em:

  1. Vídeo: “CPI do Crime Organizado convoca presidente da Alerj e também…” (https://youtu.be/MEIQOm1fZxs?si=xQnqczAcOKeLG2Wp)
  2. Vídeo: “Daniela Lima – Soltura de Bacellar deixa Cláudio Castro em…” (https://youtu.be/ONgTx03t2lE?si=ulK4Bp9p5FFCfHT-)
  3. Vídeo: “Garotinho – Bacellar vai ser preso de novo junto com vários…” (https://youtu.be/hh7k83suMPk?si=dvMLvOl1CVNAqdrc)
  4. Vídeo: “Alerj aprova soltura de Rodrigo Bacellar, mas STF pode rever” (https://youtu.be/-mh6gRDXVXM?si=hGtOpdZYoUMwBi6c)
  5. Artigo: “CCJ da Alerj decide revogar prisão de Rodrigo Bacellar” – Brasil 247 (https://www.brasil247.com/brasil/ccj-da-alerj-decide-revogar-prisao-de-rodrigo-bacellar-gqmosg0y)
  6. Artigo: “Silêncio ensurdecedor: Cláudio Castro some da cena após prisão de Rodrigo Bacellar” – Diário do Rio (https://diariodorio.com/silencio-ensurdecedor-claudio-castro-some-da-cena-apos-prisao-de-rodrigo-bacellar/)
  7. Artigo: “Projeto de Lei de Derrite é presente de Natal para o crime organizado” – Política em Debate (https://politicaemdebate.org/2025/11/11/projeto-de-lei-de-derrite-e-presente-de-natal-para-o-crime-organizado/)
  8. Artigo: “As manobras no PL antifacção e o enfraquecimento da PF” – Política em Debate (https://politicaemdebate.org/2025/11/19/as-manobras-no-pl-antifaccao-e-o-enfraquecimento-da-pf/)
  9. Artigo: “O PL antifacção e o cerco contra a Polícia Federal: quem teme a verdade?” – Política em Debate (https://politicaemdebate.org/2025/11/30/o-pl-antifaccao-e-o-cerco-contra-a-policia-federal-quem-teme-a-verdade/)
  10. Artigo: “A engenharia legislativa para asfixiar a PF e blindar o crime” – Política em Debate (https://politicaemdebate.org/2025/11/20/a-engenharia-legislativa-para-asfixiar-a-pf-e-blindar-o-crime/)
  11. Artigo: “Reinaldo Azevedo fala de máfia, Motta, Derrite e Tarcísio” – Política em Debate (https://politicaemdebate.org/2025/11/16/reinaldo-azevedo-fala-de-mafia-motta-derrite-e-tarcisio/)
  12. Reportagens e investigações públicas sobre o Caso Banco Master e suas ramificações políticas.
  13. A “Fintech do PCC” e o Deputado Bolsonarista Nikolas Ferreira – PolitikBr
  14. https://www.cnnbrasil.com.br/economia/cnn-money/banco-master-recebeu-investimentos-de-fundo-ligado-ao-crime-organizado/
  15. Alexandre de Moraes manda soltar Rodrigo Bacellar, mas impõe tornozeleira e afastamento – Diário do Rio de Janeiro

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