Davi Alcolumbre Declara Guerra à Democracia

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Por PolitikBr I Brasília, Em 03/12/2025, 07h:00, leitura: 8 min

A política brasileira vive, mais uma vez, um momento de tensão artificial, fabricada no calor de ambições pessoais disfarçadas de defesa institucional. No centro do furacão está o senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), presidente do Senado Federal, que, contrariado pela indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu transformar uma prerrogativa constitucional do Chefe do Executivo em um campo de batalha político.

A crise, inexistente até que ele a proclamou, revela não um defensor do Legislativo, mas um ator que parece confundir sua posição com um poder de veto sobre a República. A pergunta que não cala é: de onde vem tamanho descontentamento? O que move um presidente do Senado a declarar, pessoalmente, que se encarregará de derrotar a indicação de um nome legitimamente escolhido pelo Presidente da República?

A narrativa foi inaugurada pelo próprio Alcolumbre. Imediatamente após o anúncio de Messias, ele saiu do silêncio para o confronto, assumindo publicamente o papel de líder da oposição à indicação. Não se tratava de um debate sobre méritos, experiência jurídica ou perfil para a Corte Maior. Foi, desde o início, uma declaração de guerra.

Em sua nota oficial, divulgada em pleno domingo (30/11), ele acusava “setores do Executivo” de tentar criar a “falsa impressão” de que divergências são resolvidas por “ajustes de interesses fisiológicos com cargos e emendas”.

A ironia, aqui, é tão grosseira que chega a ser ofensiva à inteligência do debate público. Quem, senão o próprio Alcolumbre e a base de sustentação do Congresso atual, são os maiores beneficiários e operadores do conhecido esquema de governabilidade via distribuição de cargos, emendas parlamentares e pastas ministeriais? A sugestão de que o Executivo estaria “desqualificando quem diverge” soa como um espelho virado contra si mesmo – um clássico mecanismo de projeção, onde se acusa o outro do vício que se pratica.

Vamos aos fatos. A Constituição Federal de 1988 é clara em seu artigo 101: a nomeação dos Ministros do STF é de competência privativa do Presidente da República, após aprovação pela maioria absoluta do Senado Federal. O papel do Senado, portanto, é o de sabatina e votação, um crivo importante, mas não um poder de indicação paralelo. Alcolumbre, no entanto, age como se a vaga fosse uma moeda de barganha a ser negociada entre a Presidência da República e a sua própria mesa diretora. O que é ultrajante. Sua insatisfação explícita, afrontosa, por Lula não ter escolhido o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), seu aliado político, revela o cerne da questão: se trata de frustração com a perda de influência direta sobre a composição do Supremo. O interesse não é institucional, é político e pessoal.

A pergunta que ele se recusa a responder é: qual seria exatamente o “interesse de ocasião” atendido pela indicação de Messias? E, seguindo sua própria lógica, qual seria o “interesse de ocasião” atendido pela indicação de Pacheco? A hipocrisia reside em supor que apenas o Executivo tem “interesses”, enquanto a sua própria demanda seria pura, técnica e desinteressada. Engana a quem? Como diz o ditado: Quem não te conhece, que te compre!

O editorial do jornal O Estado de S. Paulo de 02 de dezembro de 2025 capturou com precisão o tom do equívoco: “Alcolumbre rebaixa o Senado”. Ao transformar uma função de mediador e articulador em um palco de confronto pessoal, ele não eleva o Legislativo; ele o diminui, reduzindo-o a um espaço de birra institucional. Pior: na sua cruzada contra Messias, Alcolumbre não hesitou em se aliar a setores notoriamente golpistas e anti-democráticos do Congresso, aqueles mesmos que há pouco mais de um ano aplaudiam ataques às instituições. Esta é, talvez, a face mais perigosa e reveladora da crise.

Para derrotar um nome indicado por um presidente democraticamente eleito, o presidente do Senado se une a remanescentes do bolsonarismo mais radical, que nunca esconderam seu desprezo pelo STF. A “guerra” declarada por Alcolumbre, portanto, não é uma defesa do Senado. É uma capitulação. É a submissão de uma alta função institucional a um projeto de obstrução e desgaste que serve, em última análise, aos mesmos que tentaram quebrar a democracia brasileira.

O discurso sobre “fisiologismo” soa particularmente cínico vindo de um parlamentar que integra e lidera um Congresso onde a moeda de troca mais corriqueira é, de fato, a emenda parlamentar. Só em 2023, as emendas de relator (RP9) totalizaram mais de R$ 53 bilhões, um instrumento poderoso de barganha e fidelização política.

Se Alcolumbre está realmente ofendido com a sugestão de que interesses fisiológicos movem a política, que comece a limpeza pela casa. Que abra mão dos ministérios e cargos em agências reguladoras ocupados por seus aliados. Que proponha, de fato, um novo modo de relação entre os Poderes. Mas não é isso que se vê. O que se vê é a tentativa de criar um fantasma – o do Executivo autoritário que “compra” o Legislativo – para justificar uma rebelião infundada contra uma decisão que não lhe cabia tomar.

A inversão de valores é completa. Quem provoca o choque reclama do choque. Quem opera na lógica fisiológica acusa os outros de fisiologismo. Quem deveria zelar pelo equilíbrio entre os Poderes se junta a forças que desejam seu desequilíbrio.

A nomeação de Jorge Messias pode e deve ser debatida no Senado, com seriedade, foco em seu currículo e visão jurídica. Transformá-la em um cabo de guerra político, movido por mágoas e ambições não atendidas, é um desserviço ao país e à própria instituição que Davi Alcolumbre jurou representar.

O presidente do Senado parece ter esquecido que seu cargo é de guardião do processo democrático, não de chefe de uma facção de oposição. Enquanto ele não se lembrar, seguirá rebaixando não apenas o Senado, mas a confiança da sociedade na capacidade das instituições de funcionarem sem serem reféns de egos inflamados.

O confronto entre o Palácio do Planalto e a Presidência do Senado, no entanto, forçou o governo a transformar o impasse, de uma guerra declarada, em um jogo de tabuleiro institucional, onde o tempo e a forma passaram a ser as principais armas, não a força bruta.

Alcolumbre ao marcar a sabatina relâmpago do indicado de Lula para o dia 10 de dezembro, alardeando já contar com 50 dos 81 votos contrários a Messias, e buscando a rejeição sumária do nome, antes que Messias tivesse chance de se apresentar ao plenário, foi surpreendido pelo governo que, simplesmente, não enviou formalmente a indicação ao Senado.

Essa decisão, aparentemente burocrática, foi um movimento estratégico decisivo. Sem o envio formal da mensagem presidencial, o processo não pode ser aberto oficialmente no Senado. Diante disso, Alcolumbre foi obrigado a cancelar a sabatina que havia convocado de forma açodada.

A justificativa pública foi a “demora do Planalto“, mas a realidade é que o presidente do Senado se viu contido pelo próprio regimento que tentou usar como arma.

O tempo nesse impasse é o capital mais valioso. O Planalto busca postergar a sabatina para o início de 2026. Essa não é uma mera procrastinação. É uma estratégia calculada para dar a Jorge Messias tempo para conversar individualmente com os senadores, construir pontes, dissipar resistências e, sobretudo, afastar a votação do calor da reação inicial e do clima de confronto alimentado por Alcolumbre.

A estratégia do governo, ao buscar postergar a votação, é um reconhecimento tácito de que a indicação não passaria no cenário atual de confronto armado por Alcolumbre. Mas também é um movimento para desarmar esse confronto e recolocar o debate no terreno do mérito e da conveniência jurídica, e não da lealdade política ao presidente do Senado.

O que está em jogo vai além de uma vaga no STF. É um teste sobre quem controla o ritmo e a narrativa do processo de indicação. Alcolumbre buscava um checkmate rápido. O Planalto respondeu com um jogo de paciência. O resultado final dependerá de quem consegue, nos próximos meses, conquistar não apenas votos, mas a narrativa de que está agindo em defesa do interesse institucional, e não de caprichos pessoais ou disputas por influência.

A democracia, em seu funcionamento ideal, não deveria ser nem uma guerra relâmpago, nem um jogo de espera. Deveria ser um diálogo transparente. Enquanto o tempo correr a favor de quem melhor manipular as regras, é a credibilidade do processo que continua a perder.

A democracia brasileira não precisa de crises fabricadas. Precisa de seriedade. E esta começa com o respeito às competências constitucionais de cada Poder. O resto é ruído – e um ruído perigosamente articulado por quem deveria silenciá-lo: Davi Alcolumbre

Esse artigo foi baseado em:

  1. Nota oficial do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, divulgada em 24/03/2024.
  2. Editorial “Alcolumbre rebaixa o Senado”, publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo em 02/12/2025. Disponível em: https://www.brasil247.com/midia/alcolumbre-rebaixa-o-senado-diz-estado-de-s-paulo-em-editorial
  3. Análise em vídeo do comentarista Reinaldo Azevedo. Disponível em: https://youtu.be/aH7mtnKMBGU?si=wpXkp4flxbuUo0Gp
  4. Reportagem “Alcolumbre critica demora do Planalto e cancela sabatina de Messias”, publicada no Correio Braziliense em 10/12/2025. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2025/12/7305103-alcolumbre-critica-demora-do-planalto-e-cancela-sabatina-de-messias.html
  5. Constituição Federal de 1988, Art. 101.
  6. Regimento Interno do Senado Federal.

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