Blindagem e anistia: O Brasil reage

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Por PolitikBr I Brasília, Em 21/09/2025, 20h:30, Leitura: 7 min

O escárnio da anistia e da blindagem parlamentar: uma crônica da resistência popular contra o novo golpe de um parlamento fisiológico

O Brasil reage. Sem anistia a golpistas. Nâo ao descaramento da PEC da blindagem

O Brasil enfrenta mais um capítulo do roteiro golpista da extrema-direita e de seus aliados no Congresso e no exterior. Desde a histórica derrota de Jair Bolsonaro nas urnas em 2022, com vitória consagradora de Luís Inácio Lula da Silva, a elite radical conservadora, inconformada, optou pelo caminho antidemocrático: recorreu ao golpismo explícito, insuflando seus seguidores ao ataque ao Estado de Direito, à depredação das instituições e à tentativa obcecada de reescrever o resultado eleitoral na base da força, do dinheiro sujo e da retórica cínica.

Como surgiu a proposta indecente da anistia

Após o fiasco dos atos golpistas e a firme resposta do STF, que responsabilizou e puniu – até esse momento – algumas lideranças da tentativa de golpe; e ao menos um financiador, — com Jair Bolsonaro à frente, condenado a 27 anos e 3 meses de prisão —, a direita lançou mão de seu velho artifício: o apelo à anistia. O intuito é claro e repugnante: apagar, por decreto político, o mais grave crime contra a democracia. Não se trata de um movimento isolado, mas de uma ampla articulação entre deputados bolsonaristas, além de oligarquias e lobbies civis que financiaram a logística, a desinformação e o ato extremado dos terroristas e baderneiros do 08 de janeiro de 2023.

Setores do Congresso pleiteiam, à revelia do que pensa o povo que os elegeu, não só anistiar Bolsonaro, mas todo o aparato cúmplice: generais processados e já condenados, empresários cúmplices e até parlamentares flagrados em apologia ao golpe. A reação popular, medida por pesquisas recentes como o Datafolha e a Quaest, revela que a maioria absoluta rejeita frontalmente qualquer anistia, enxergando nela apenas a “licença para novas tentativas de ruptura”.

PEC da Blindagem: o estado de exceção camuflado

Em paralelo, deputados da extrema direita, em especial do partido liberal (PL), de Valdemar Costa Neto, Bolsonaro e Michelle, articularam e aprovaram na Câmara uma das propostas mais infames da história recente: a chamada “PEC da Blindagem” ou, como denominou a opinião pública, “PEC da Bandidagem”. A medida é desenhada para blindar parlamentares de qualquer responsabilização judicial, prevendo que só poderão ser processados criminalmente caso assim o decidam suas próprias Casas Legislativas — em votação secreta e com suspensão da contagem de prazos processuais enquanto durarem seus mandatos. Uma carta branca para não punição de corrupção, de crimes políticos e mesmo assassinatos, ancorada na abstração do “foro privilegiado” elevado ao extremo da canalhice e da falta de vergonha e de moralidade.

Ex-deputada Flordelis é condenada a 50 anos de prisão pela morte do marido

Se a PEC da Blindagem estivesse em vigor, casos chocantes como o da ex-deputada federal Flordelis ilustram bem o nível de impunidade que a proposta poderia gerar. Flordelis foi julgada e condenada a 50 anos de prisão por tramar e executar o assassinato do próprio marido, pastor Anderson do Carmo, além de responder por tentativa de homicídio, associação criminosa armada e uso de documentos falsos. Não fosse a possibilidade de suspensão de mandato e a perda das prerrogativas parlamentares, sua condição de deputada lhe garantiria a decisão sobre ser ou não julgada, já que a PEC exige autorização da própria Câmara em votação secreta para processar políticos durante o mandato. Uma carta branca para a “compra” de apoio, conluios descarados e impunidade corporativa das mais repugnantes

Com a PEC da Blindagem, mesmo crimes bárbaros como os de Flordelis poderiam ser blindados, exacerbando ao extremo a cultura da impunidade e tornando o Congresso um refúgio para criminosos de colarinho branco. O caso Flordelis evidencia, portanto, os riscos concretos dessa mudança institucional para toda a sociedade, oferecendo um exemplo real de como a auto blindagem parlamentar é asquerosa, mas que mostra também o quão pouco preparado está o eleitor ao escolher esses “tipinhos” que disseram sim a esse embuste, para nos representar nas duas casas do Parlamento. Sim. A culpa é da manipulação massiva de mentes, mas também do quase nenhum compromisso do cidadão ao votar.

Não bastassem os privilégios que já afastam deputados e senadores da Justiça comum, com o Supremo julgando apenas frações de denúncias, a PEC restabelece, na prática, antigos mecanismos de proteção abolidos da Constituição de 1988 após décadas de luta contra a impunidade — em pleno século XXI, tentam ressuscitar o passado vergonhoso do “coronelismo de paletó e gravata”. Não por acaso, a reação do relator no Senado, Alessandro Vieira, foi ferina: “A PEC interessa a bandidos”, e em seguida rejeitou totalmente a proposta da Câmara. Que vergonha. Que canalhas são esses senhores deputados que ratificaram tal afronta à sociedade.

A movimentação nas ruas: protestos, faixas e artistas engajados

Capitais brasileiras registram atos contra a PEC da Blindagem e o PL da Anistia (Aqui na Paulista -21/09/2025- não se exaltou Trump com a bandeira americana, como fez a ralé bolsonarista no dia da Pátria. A bandeira é brasileira. É patriotismo na veia)

Diferente de outros contextos em que os escândalos perdem força sem resposta popular, a farsa da anistia à golpistas e oportunistas, e da blindagem parlamentar, desencadeou uma mobilização inédita. Neste domingo, 21 de setembro, as principais cidades do país testemunharam atos massivos — multidões em São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Manaus e tantas outras cidades, com destaque especial para os eventos na Avenida Paulista (em frente ao MASP), no Rio de Janeiro ( em Copacabana) e no Circuito Barra Ondina, na capital baiana, que estava lotada como em pleno Carnaval. Segundo o deputado Guilherme Boulos, na Paulista o público foi superior a 100 mil participantes. Quanto terá sido no Brasil todo? Não vamos fazer como os manipuladores digitais da extrema direita, que com seus closes fechados nos vídeos inflam os números minguados que eles levam as ruas. Vamos aguardar institutos como o da USP anunciarem os números de participantes.

Artistas de referência nacional como Daniela Mercury, Wagner Moura, Nanda Costa, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan e Paulinho da Viola se juntaram à multidão, liderando trios elétricos, fazendo discursos e realizando performances voltadas a denunciar o pacto da impunidade. A força simbólica da música, da arte e da resistência cívica unificou os participantes, tornando os protestos verdadeiros marcos visuais e afetivos contra o retrocesso e o cinismo parlamentar. No fundo foi uma estupidez inominável da extrema direita ter conduzido juntas, casadas, tão abomináveis proposições. Coisa de amador. Mas o governo – contrário às duas PEC´s – agradece e comemora.

As manifestações, como registrado por vídeos e imagens aéreas, tomaram avenidas inteiras. Faixas clamavam: “Sem anistia”, “PEC da Bandidagem NÃO”, “Congresso inimigo do povo” e “Respeito à vontade popular”. Cartazes personalizaram o repúdio, expondo fotos de deputados que votaram a favor da PEC e cobrando a cassação de Eduardo Bolsonaro, acusado de conspirar do exterior, em aliança com figuras da extrema-direita dos EUA como Trump — crime hediondo de traição à pátria.

Atos também ocorreram no exterior, em Londres, Berlim, onde imigrantes brasileiros protestaram contra os parlamentares cúmplices e a exportação do golpismo. Um dos alvos foi o presidente da Câmara Hugo Motta.

O discurso dos políticos, a vergonha institucional e a rejeição popular

Diante da tempestade de protestos e da total ausência de legitimidade ética das propostas, políticos que apoiaram abertamente a manobra correram para os microfones ensaiando pedidos de desculpas, tentando se justificar por terem “se equivocado” nas votações. Destes, muitos buscaram atribuir o tamanho das manifestações à participação popular inflada por shows artísticos — argumento vexatório, considerando que o uso de “personalidades” faz parte da tradição democrática de mobilização e, de fato, serve para amplificar causas legítimas.

A rejeição popular à anistia a Bolsonaro e seus aliados é flagrante: a pesquisa Datafolha revelou que maioria significativa, acima de 70%, é contrária à iniciativa; levantamento de opinião da Quaest nas redes confirmou percentuais de até 83% contrários. Essas métricas, somadas ao constrangimento público de deputados e à contundência do relator do Senador Alessandro Vieira (MDB de Sergipe), selam o destino da “PEC da Blindagem”: sua sepultura democrática parece anunciada, ainda que o Congresso insista em tentar driblar a vontade nacional.

O significado histórico: democracia à prova

O processo atual repete velhas fórmulas de impunidade institucional e tentativa de ruptura com o pacto democrático, mas encontra uma sociedade civil mais vigilante, articulada e determinada a não entregar o país ao desmonte. A tentativa de anistia para quem atentou contra a democracia e a criação de mecanismos para garantir a impunidade de políticos acusados de crimes são, hoje, o principal teste da capacidade de resistência das instituições e do próprio tecido social brasileiro.

O recado que ecoa das ruas brasileiras e internacionais neste domingo é inequívoco: não passarão. Não haverá blindagem que resista ao grito do povo mobilizado.


Esse artigo foi baseado em:

https://politicaemdebate.org/2025/09/18/ascencao-da-rejeicao-lula-dispara-bolsonaros-afundam/

https://politicaemdebate.org/2025/09/15/datafolha-maioria-rejeita-anistia-a-bolsonaro-e-a-condenados-do-8-de-janeiro/

https://bncamazonas.com.br/poder/deputados-8/

https://www.cartacapital.com.br/politica/repercussao-negativa-faz-deputados-pedirem-desculpas-por-voto-na-pec-da-blindagem/

https://www.brasil247.com/brasil/senador-alessandro-vieira-promete-rejeitar-pec-da-blindagem-na-ccj

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/relator-da-pec-da-blindagem-no-senado-diz-que-proposta-interessa-a-bandidos/

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/videos-ruas-de-diversas-capitais-ja-estao-cheias-nos-atos-contra-anistia-e-pec-da-blindagem/

https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2025/09/7253004-deputados-voltam-atras-apos-votos-favoraveis-a-pec-da-blindagem.html

https://youtu.be/Na0GGRfTVWI?si=obDqF28nO_PAW43f

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