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Por PolitikBr I Brasília, Em 10/03/2026, 20h:06, leitura: 8 min
Editor: Rocha, J.C.
Quando o Estreito de Ormuz se Torna uma Arma de Dissuasão Geopolítica
Já no décimo primeiro dia da guerra entre os EUA/Israel e o Irã, que Trump disse que seria rápida, a Guarda Revolucionária do Irã emitiu uma declaração que merece ser lida com a atenção: qualquer país árabe ou europeu que deseje ver seus petroleiros e metaneiros navegando em segurança pelo Estreito de Ormuz terá que tomar uma decisão radical — expulsar os embaixadores de Israel e dos Estados Unidos de seus territórios.
Está, portanto, claro que um dos objetivos do Irã é expulsar os EUA do Oriente Médio, em especial do Golfo Pérsico.
O Estreito de Ormuz, aquela estreita passagem de água que separa a península Arábica do Irã – 35 Km de largura – é o gargalo por onde escoa cerca de um quinto de todo o petróleo e gás natural liquefeito consumido no planeta.
Para se ter uma dimensão do que isso significa: estamos falando de aproximadamente 20 milhões de barris de petróleo por dia — o equivalente a toda a produção combinada dos Estados Unidos e da Arábia Saudita, em um dia de operação normal.
A declaração iraniana não surgiu do nada, e Trump está em pânico porque o ataque contra o Irã não vem ocorrendo como planejado.
O desespero da administração americana, que apostou todas as suas fichas em uma ação rápida e decisiva, agora se vê enredada em um conflito de desgaste, com custos humanos, econômicos e políticos que se multiplicam a cada dia e já começa a ameaçar a própria estabilidade econômica e energética mundial.
Mas o que realmente significa a exigência iraniana? E por que ela representa um ponto de inflexão na crise atual?
O que o Irã anunciou, meses antes do ataque surpresa dos EUA/Israel, que iria fazer, e agora o fez, foi transformar o Estreito de Ormuz em um filtro geopolítico. A mensagem enviada aos países do Golfo — Kuwait, Catar, Emirados Árabes Unidos, Bahrein — e também às nações europeias é: vocês terão que escolher de que lado estão.
A estratégia iraniana é politicamente diabólica e embaraçosa em sua simplicidade, e devastadora em suas consequências potenciais. Ao condicionar a passagem segura de navios à expulsão dos embaixadores americano e israelense, Teerã força cada nação dependente do comércio marítimo por Ormuz a realizar um cálculo de custo-benefício, que expõe as contradições em se alinhar automaticamente aos EUA e até se aliar a Israel.
Cabe lembrar que para os Estados do Golfo não só, em breve, eles terão que parar a produção de petróleo e gás, por causa do esgotamento da capacidade de estocagem, mas faltar comida, e insumos mil, de qual esses Estados são dependentes via importação. E nem estamos falando no abastecimento de água dessalinizada, já que os Estados do Golfo são fortemente dependentes dessa fonte de água potável.
Os Estados do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) e o Irã estão entre os mais dependentes de água dessalinizada no mundo, devido à escassez extrema de fontes de água doce natural. A dessalinização é, em muitos casos, a única fonte viável para consumo humano, indústrias e, em menor escala, agricultura, especialmente após a redução de subsídios à agricultura intensiva em países como a Arábia Saudita.
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Abaixo está o ranking de dependência aproximada (percentual da produção/suprimento de água potável proveniente de dessalinização), com base em dados recentes de 2025-2026:
Ranking de Dependência de Água Dessalinizada
- Kuwait: ~90% – 95%
- O país com menor disponibilidade natural de água do mundo depende quase totalmente de usinas de dessalinização para o abastecimento de água potável.
- Bahrein: ~90% – 95%
- Altamente dependente, com infraestrutura costeira crítica.
- Catar: >90%
- A maior parte de sua água para consumo humano e uso doméstico vem da dessalinização do mar.
- Omã: ~85% – 90%
- Investimentos maciços em plantas de osmose reversa tornaram o país altamente dependente da tecnologia.
- Emirados Árabes Unidos (EAU): ~70% – 90%
- A produção é altíssima para manter o consumo urbano e industrial, embora alguns relatórios iniciais indicassem números menores em anos anteriores, a dependência atual é crítica.
- Arábia Saudita: ~70% – 75%
- Maior produtor mundial de água dessalinizada em volume. A água dessalinizada é predominante na costa e em grandes centros como Riad.
- Irã: ~2%
- O Irã usa dessalinização de forma limitada, concentrada principalmente nas regiões litorâneas, mas com planos de expansão.
Em 7 de março, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que uma usina de dessalinização de água doce na ilha iraniana de Qeshm foi atacada pelos Estados Unidos, declarando: “O abastecimento de água em 30 vilarejos foi afetado. Atacar a infraestrutura do Irã é uma medida perigosa, com graves consequências. Os EUA estabeleceram esse precedente, não o Irã.”
No dia seguinte, o governo do Bahrein informou que um ataque com drones iranianos causou danos materiais a uma de suas usinas de dessalinização de água.
Está mais do que clara a politica inconsequente e estúpida de Trump em atacar ativos iranianos como instalações de armazenamento de petróleo, e usinas de água dessalinizada do Irã, já que os Estados parceiros dos EUA no Golfo são mais que vulneráveis aos mísseis e drones iranianos, como já ficou mais do que demonstrado nesses 10 dias de guerra.
A crise que Trump/Netanyhu já criaram no mercado de energia, pode alcançar dimensões catastróficas, de impacto na vida humana de toda a região do Golfo, já que o Irã vem retaliando cada ataque que sofre, na mesma proporção ou pior: olho por olho, dente por dente.
Imagine um cenário aonde a capacidade de dessalinização de água é fortemente comprometida ou destruída, por exemplo, no Kwait. O mesmo se aplica aos outros Estados do Golfo. A população se revoltaria. E isso é um imenso perigo para os governantes aliados dos EUA, na região.
No mercado de energia, o Financial Times, em sua edição mais recente, trouxe uma análise detalhada dos impactos econômicos dessa paralisia dos negócios de petróleo e GNL no Golfo. O jornal britânico, que há décadas cobre com precisão as nuances do mercado, aponta que a volatilidade atual já supera a registrada durante a crise de 1973, quando o embargo árabe do petróleo mergulhou o Ocidente em uma recessão profunda. A diferença, agora, é que a economia global está muito mais interconectada e, portanto, muito mais vulnerável a choques dessa natureza.
Uma interrupção prolongada no fluxo de petróleo e GNL por Ormuz não afeta apenas o preço da gasolina na bomba; afeta o custo do frete de todos os produtos, a inflação de alimentos, a estabilidade de moedas e, em última instância, o emprego de trabalhadores em todos os continentes.
Mas a análise meramente econômica, por mais relevante que seja, não capta a totalidade do momento histórico que vivemos. O que está em curso é uma possível reconfiguração das alianças globais, imposta pela força das circunstâncias, e pela audácia de um ator que, embora militarmente inferior aos Estados Unidos, descobriu uma vulnerabilidade estrutural do sistema capitalista global: a dependência absoluta de pontos de estrangulamento geográficos.
O Irã sabe que não pode vencer uma guerra convencional contra a máquina de guerra americana. Mas descobriu que pode, com uma ousada estratégica, paralisar a economia mundial e, com isso, forçar uma negociação em termos muito mais favoráveis do que qualquer tratado de paz pode lhe oferecer.
A exigência da expulsão dos embaixadores é, nesse sentido, uma jogada de mestre da geopolítica xiita. Ela coloca os países árabes do Golfo em uma posição particularmente desconfortável e crítica, se essa guerra escalar ainda mais.
Estas são nações que, nos últimos anos, vêm normalizando as relações com Israel. Agora, o Irã obriga esses mesmos países a escolherem entre a continuidade desse processo de normalização, e a sobrevivência econômica de suas próprias populações.
O Catar, que abriga uma das maiores bases militares americanas na região – destruída, teria que expulsar o embaixador dos EUA se quisesse continuar exportando seu o gás natural liquefeito? Os Emirados Árabes, que sediam escritórios de empresas israelenses de tecnologia, e recebem turistas de Tel Aviv, com visto de entrada liberado, estariam dispostos a sacrificar esse florescente comércio bilateral em troca da passagem de seus petroleiros?
Cada país fará o seu cálculo, e é exatamente aí que reside a genialidade da estratégia iraniana: não importa qual seja a decisão, ela produzirá fraturas nas alianças existentes. Por outro lado, evidentemente, não se espera que um país europeu, fortemente dependente da presença americana no continente, vá ceder à pressão e expulsar os embaixadores, rompendo com Washington e Tel Aviv, criando uma crise diplomática de primeira grandeza no seio da OTAN. Entretanto, há de se considerar que os EUA produzem o seu próprio petróleo e gás, o que não é o caso dos europeus. Eles irão se ajoelhar a Putin? Imaginem se, nesse momento, a Rússia zerar as exportações de gás natural e óleo para os países europeus? Seria um caos.
O fato é que o mundo se encontra diante de um precipício cuja profundidade ainda não conseguimos dimensionar. As manchetes dos jornais ainda tratam o assunto como mais uma crise no Oriente Médio, mas a verdade é que o que está em jogo é a arquitetura mestra do comércio global, como o conhecemos desde o final da Segunda Guerra Mundial.
Esse artigo foi baseado em:
- https://www.ft.com/content/4cfd839b-37b0-4614-812a-928cbda7d2f3
- https://noticiabrasil.net.br/20260310/trump-esta-em-panico-porque-ataque-contra-ira-nao-ocorre-como-planejado-diz-especialista-militar-48781146.html
- https://www.brasil247.com/mundo/ira-avisa-nenhuma-gota-de-petroleo-passara-por-ormuz-enquanto-os-ataques-continuarem
- https://www.terra.com.br/economia/guarda-revolucionaria-paises-que-expulsarem-embaixadores-dos-eua-e-israel-poderao-navegar-pelo-estreito-de-ormuz,57202021a698366c1f37b461a9c202437t5xht9y.html
- https://thebulletin.org/2026/03/desalination-water-and-war/