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Por PolitikBr I Brasília, Em 09/03/2026, 21h:07, leitura: 11 min
Editor: Rocha, J.C.
A última vez que o mundo viu uma convulsão energética e geopolítica desta magnitude foi em 1973, ou talvez no choque inicial da invasão da Ucrânia em 2022. Mas o que se desenrola diante de nossos olhos, desde o amanhecer de 28 de fevereiro, é um evento de proporções tectonicamente diferentes.
Não se trata de uma “operação militar especial” limitada, nem de uma mera troca de tiros no eterno conflito árabe-israelense. Estamos diante de uma guerra de coalizão contra a República Islâmica do Irã, uma nação de 85 milhões de habitantes, herdeira de uma civilização milenar, que agora responde com uma fúria estrategicamente calculada.

Para entender o abismo para o qual estamos olhando, a voz do Embaixador Chas Freeman, decano da diplomacia americana, é uma bússola em meio à névoa da guerra.
Em entrevista recente ao programa Dialogue Works, Freeman não apenas comentou os acontecimentos, mas dissecou as entranhas de um plano que, segundo ele, já nasceu morto.
O Encontro em Mar-a-Lago
Derrubar um governo pelo ar é uma fantasia que apenas aqueles que nunca estudaram a história acreditam. Freeman lembra que nem os bombardeios implacáveis sobre a Alemanha Nazista derrubaram Hitler, e nem os ataques à União Soviética durante a Operação Barbarossa fizeram o povo se voltar contra Stalin. Ao contrário, a agressão externa é o mais potente catalisador da unidade nacional. E é exatamente isso que estamos testemunhando no Irã.
No centro dessa tragédia está a figura de Benjamin Netanyahu.
Segundo a análise do embaixador, a estratégia não é americana; ela é israelense, com selo de aprovação americano dado em 29 de dezembro de 2025, em um encontro em Mar-a-Lago.
Netanyahu vendeu à Donald Trump a ilusão de que, com um ataque cirúrgico, poderiam fragmentar o Irã e criar o cenário para o “Grande Israel”, eliminando a capacidade de autodefesa da única potência, que ainda equilibra a balança do poder na região.
O plano de campanha, entretanto, foi desenhado pelo Pentágono. E, como Freeman relata, os próprios generais americanos alertaram Trump que a operação provavelmente falharia.
O General Kane teria dito isso em particular, e os vazamentos subsequentes à imprensa, foram a maneira encontrada pelos militares de registrarem na história que o alerta foi dado. Mas Trump, obcecado pela imagem de estadista forte, e seduzido pela promessa de uma vitória rápida, ignorou o conselho. A data de 28 de fevereiro foi escolhida. E a armadilha se fechou.
O Martírio de Khamenei
O ataque não foi apenas contra a infraestrutura militar. Foi um ataque existencial. As Forças Armadas dos EUA e de Israel assassinaram o Líder Supremo, Aiatolá Ali Khamenei. Freeman aponta a ironia colossal desse ato. Khamenei era a “rolha na garrafa” do programa nuclear iraniano. Ele havia emitido uma fatwa, um decreto religioso, considerando o desenvolvimento de armas de destruição em massa como haram (proibido).
Ao assassinar Khamenei, o transformaram em um símbolo da luta contra o “grande Satã e o pequeno Satã”. Os EUA e Israel eliminaram o maior obstáculo moral e teológico para o Irã buscar a capacidade de dissuasão nuclear, contra o nuclear Israel.
O sucessor escolhido, o novo líder supremo, seu filho, é publicamente favorável à aquisição de um arsenal nuclear. Ou seja, o objetivo declarado de “impedir o Irã de se tornar nuclear” foi solenemente transformado em seu oposto. Os EUA e Israel não impediram nada; eles aceleraram o inevitável, ao removeram o guardião que o impedia.
O mundo xiita, que respeitava Khamenei como uma autoridade central, agora o vê como um mártir. A guerra deixou de ser um conflito político para adquirir contornos de uma cruzada religiosa para milhões de crentes. O resultado é uma união sagrada em torno do Irã, que já responde com uma estratégia que Freeman compara à de Muhammad Ali: a estratégia de “absolver os golpes do adversário, para, enfim, o atacar e derrotar” (estratégia “rope-a-dope“)
Exaustão e Vingança Calculada
Enquanto Washington e Tel Aviv se gabam de “lançadores destruídos” e “baixas infligidas”, Teerã sabe que a continuidade da guerra esgotará os adversários. A estratégia iraniana é clara e possui duas vertentes:
- Criar uma ameaça existencial a Israel em resposta à ameaça existencial que sofre. Isso significa que o Irã não se conterá como na guerra de 12 dias, do ano passado, em que aceitou o cessar fogo proposto por Israel, com intermediação dos EUA.
- Tornar a presença militar dos EUA na área do Golfo Pérsico insustentável. O que significa, em outras palavras, expulsar os EUA do Oriente Médio.
O que estamos vendo é uma estratégia de exaustão dos arsenais de interceptação de drones e mísseis, disparados pelo Irã contra Israel. Cada míssil iraniano, mesmo os mais antigos, força uma resposta antiaérea de Israel e dos EUA. Um míssil Patriot custa cerca de US$ 4 milhões. Um míssil THAAD (Terminal High Altitude Area Defense), muito mais. Um drone de ataque iraniano custa US$ 30 mil.
Os vídeos que chegam do front, apesar da censura militar israelense, mostram que a taxa de interceptação dos mísseis iranianos é baixa — estima-se que apenas 5% a 10% sejam abatidos. Os outros 90% estão atingindo seus alvos em solo israelense ou, pelo menos, obrigando o inimigo, a rapidamente esgotar, o seu estoque de mísseis antiaéreos para interceptá-los.
O Irã está guardando seus mísseis das novas gerações, incluindo os hipersônicos, para o momento em que os estoques de mísseis interceptadores do inimigo estiverem no fim. É a aplicação moderna da antiga arte persa de guerra: fazer o inimigo se esgotar na vanguarda para depois destruí-lo no contra-ataque.
E o campo de batalha já se expandiu para além do território iraniano. O ataque a Audeid, no Catar, destruiu um sistema de radar de mais de US$ 1 bilhão, que controlava as operações aéreas americanas do Afeganistão ao Iraque.
As bases americanas no Golfo deixaram de ser escudos para se tornarem iscas. Com isso, os Estados do Golfo, que permitiram aos EUA instalar bases militares neles, como defesa contra o Irã, agora veem que os Estados Unidos não conseguem defendê-los, e que eles se tornaram alvo.
O Colapso Econômico Global
O impacto imediato da guerra de Netanyahu/Trump, no entanto, não é apenas militar. É energético. O estreito de Ormuz, por onde passava cerca de um terço de todo o petróleo marítimo global, está efetivamente fechado. O Irã, com mísseis baseados em terra, demonstrou que a Marinha mais poderosa do mundo não consegue garantir a segurança de navegação em um canal tão estreito – 35Km de largura – sem sofrer perdas inaceitáveis.
As consequências do “Shutdown” do petróleo e do GNL são apocalípticas para a economia global. O preço do barril de petróleo disparou. Na abertura dos mercados de 9 de março de 2026, o Brent era negociado acima dos US$ 104, tendo chegado a picos de US$ 120 nos dias anteriores. A gasolina nos EUA caminha para os US$ 5 por galão, e na Califórnia, pode chegar a US$ 9. A inflação, que se pensava domada, voltará com fúria renovada.
Países como a Índia, que possuem reservas estratégicas para apenas nove dias, estão à beira de um colapso logístico e social. Taiwan, com reservas mínimas, enfrenta uma vulnerabilidade energética aguda. A China, com suas enormes reservas, sofrerá menos e, como Freeman aponta, usará isso para acelerar ainda mais a sua transição energética.
A Rússia, por sua vez, esfrega as mãos. Lucra. Se fortalece economicamente com o conflito. Ela não só viu o preço do seu petróleo subir mais de 30% em dias, como usou o caos para reafirmar o seu poder. Vladimir Putin declarou que redirecionar o petróleo do Oriente Médio sem Ormuz é “impossível no cenário atual” e já acenou com a possibilidade de retomar o fornecimento de gás à Europa, mas nos seus termos.
O mercado de ações mundial sente o golpe. O Nikkei 225 despencou mais de 5%, e as bolsas europeias seguem o mesmo caminho.
O que estamos testemunhando é a materialização do medo de todo macro investidor: o alarme de incêndio do petróleo disparou, e desta vez não é um alarme falso.
As Baixas Civis e a Expansão do Front
Enquanto os mercados derretem, o sangue corre nas ruas do Irã. Dados do Crescente Vermelho Iraniano, reportados pela agência Anadolu, indicam que mais de 1.330 civis foram mortos nos primeiros dias de guerra, incluindo cerca de 300 crianças. O ataque a uma escola primária em Minab, matou 165 meninas. Em Israel não se sabe o número de mortos e feridos nos sucessivos ataques com mísseis e drones. A censura é pesada. A realidade da guerra é tabu e escondida da população.
E Natanyagu/Trump agora se concentram em bombardear os depósitos de combustíveis do Irã. Um desses ataques foi em Teerã, cobrindo a cidade com uma imensa nuvem negra. A campanha aérea não está sendo tão “cirúrgica” quanto a propaganda do CENTCOM (Comando Central dos EUA) faz crer.
Parece que Trump teria ficado irritado em saber que uma equipe da CNN, que foi ao Irã, teria reportado que as pessoas continuavam abastecendo os seus carros normalmente nos postos de combustíveis, enquanto a guerra prosseguia.
E, assim, eles começaram a atacar os depósitos de combustíveis iranianos, para gerar escassez e revolta. O problema desses ataques é que o Irã pode revidar contra os seus vizinhos aliados dos EUA, destruindo as suas refinarias e instalações de armazenamento de óleo e gás. Aí sim a situação energética no mundo se tornará dramática, se isso ocorrer.
A guerra, como dissemos, já não se limita ao Irã e a Israel. As bases americanas em todo o Golfo foram e continuam sendo atacadas até a completa destruição. No Bahrein, a sede da Quinta Frota dos EUA foi atacada. O Catar viu as suas instalações de gás danificadas. Os Emirados Árabes Unidos, que gastaram bilhões em defesa americana, estão com seus sistemas de interceptação exauridos e ouviram de Washington: “não temos mísseis para repor; o que temos vai para Israel. Esta é a mensagem que os EUA estão enviando aos seus aliados do Golfo: vocês estão por conta própria.
A Ordem Internacional em Frangalhos
O Secretário de Estado Marco Rubio tenta, sem sucesso, alinhar o discurso. Em uma coletiva, ele se enrolou ao tentar explicar se a guerra era para defender Israel ou para eliminar uma ameaça iminente.
Freeman é impiedoso aodescrever Rubio como um “aparatchnik” soviético, capaz de distorcer a verdade com grande desenvoltura.
A verdade é que não há uma estratégia coerente. Os objetivos mudam a cada hora: hora é desarmamento, hora é mudança de regime, hora é escolher o novo líder supremo.
Nesse vácuo de estratégia, apenas uma coisa é certa: os EUA sairão desta guerra drasticamente enfraquecidos, segundo o embaixador. Os seus estoques de munição estão no limite. A sua capacidade de projetar poder em outras regiões, como no Pacífico em relação a Taiwan, foi comprometida. E a credibilidade de sua palavra foi destruída.
As negociações de fachada com o Irã, conduzidas por Whitkoff e Kushner, serviram somente para se ganhar tempo e posicionar as forças militares para o ataque surpresa. Como Freeman ironiza, por que qualquer nação voltaria a confiar na palavra americana depois disso?
Estamos apenas no início. A morte de Khamenei, na perspectiva do blog e do embaixador, desencadearia uma reação do mundo xiita em uma guerra santa. Khamenei, que sempre disse querer o martírio, o teve. Agora, o mundo colhe os frutos dessa megalomania e truculência.
Nota ao leitor: Este artigo buscou compilar, numa análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercam a guerra empreendida pelos EUA e Israel contra o Irã; e a visão do Embaixador Chas Freeman, que concedeu uma entrevista ao podcast Dialogue Works, de título: “A guerra com o Irã está destruindo todos os planos dos EUA”.
Esse artigo foi baseado em:
- Entrevista do Embaixador Chas Freeman ao programa Dialogue Works (https://youtu.be/UiE29OOJMuA)
- Chas W. Freeman Jr. | American Academy of Diplomacy
- Anadolu Ajansı: Over 1,330 civilians killed in Iran by ongoing US-Israel attacks. (07/03/2026)
- Morte de Khamenei: Irã Promete Vingança e o Mundo Mulçumano Pode Pegar Fogo
- Redirecionar petróleo sem o estreito de Ormuz é impossível no cenário atual, declara Vladimir Putin. (09/03/2026) – https://noticiabrasil.net.br/20260309/48759317.html
- Wall Street follows global markets lower as crude oil briefly pushes near $120 a barrel. (09/03/2026)