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Por PolitikBr I Brasília, Em 28/02/2026, 20h:17, leitura: 11 min
Editor: Rocha, J.C
Esse artigo do PolitikBr é uma sequência do artigo O Precipício Anunciado: Ataque ao Irã Ignora Alertas e Coloca o Mundo Em Risco, publicado logo pela manhã, comentando, como ocorreu em junho de 2025, o ataque traiçoeiro, sem provocação, de Israel e dos Estados Unidos ao Irã. Na essência, um ataque de “decapitação”, em primeiro lugar, tentando uma mudança de regime, que perdura a 47 anos, pelo assassinato das principais lideranças civis e políticas iranianas, e, agora se sabe, que nesse intento, foi um completo fracasso. Vamos ao artigo.
O mundo amanheceu neste 28 de fevereiro de 2026 à beira de um abismo cujas bordas são de fogo e retórica. A tão especulada, temida e, por alguns, ensaiada escalada militar entre Israel, os Estados Unidos e o Irã deixou de ser uma hipótese para se tornar uma realidade explosiva. As primeiras cenas deste novo ato do teatro de operações no Oriente Médio não são apenas de destruição, mas de um perigoso colapso das narrativas que tentam, em vão, justificar o injustificável: uma guerra preventiva sem provas concretas, movida por interesses escusos e uma arrogância que insiste em ditar os rumos da história a golpes de mísseis. Na essência, a crença de que “a força faz o direito”.
O estopim para este novo incêndio foi aceso com a notícia, inicialmente veiculada pela agência Reuters, pela Al Jazeera, e confirmada por fontes oficiais, de que Israel havia lançado “ataques preventivos” contra o Irã.
O termo “preventivo” é, por si só, uma peça de propaganda de guerra. Preventivo contra o quê? Contra a ameaça fantasiosa de um Irã que, segundo a narrativa israelense e norte-americana, estaria prestes a desencadear um ataque iminente aos interesses americanos? Contra Israel?
A realidade, porém, é mais complexa e menos conveniente para os belicistas. Os ataques coordenados, que contaram com a participação ativa dos Estados Unidos, visaram, novamente, em primeiro lugar, matar a liderança iraniana e assim forçar uma mudança de regime.
O que está ocorrendo é um espetáculo grotesco de cinismo. Enquanto os diplomatas ainda negociavam nos bastidores, e o Irã demonstrava paciência estratégica para evitar a escalada, a administração Trump e o primeiro-ministro israelense, já haviam optado pelo ataque ao Irã, que estava sendo planejado enquanto os EUA negociavam com os iranianos na Suíça, isto é, mais uma vez, uma cortina de fumaça.
A resposta iraniana, ao contrário do que muitos analistas ocidentais previam, não está sendo gradual. Em questão de horas, o Irã lançou a Operação “Promessa Verdadeira 4” (uma continuação direta das respostas anteriores), e o teatro de guerra se expandiu para todo o Oriente Médio. De repente, a narrativa da invencibilidade israelense, e da proteção absoluta dos Estados Unidos aos seus aliados, começou a ruir.
As imagens que chegam são de um contra-ataque iraniano coordenado, que mirou o coração da presença militar americana na região.
Fontes iranianas, como a agência Tasnim, reportam que 14 bases militares dos EUA foram atingidas em países que, até ontem, se sentiam seguros sob o guarda-chuva do Pentágono.
Do Bahrein ao Qatar, dos Emirados Árabes Unidos à Arábia Saudita, do Kuwait à Jordânia, o barulho das sirenes e das explosões não foi apenas o de mísseis, mas o de um sistema de segurança regional que se mostrou frágil, ineficaz, como já havia ocorrido em junho de 2025, quando uma chuva de fogo e de destruição se abateu sobre Israel, forçando Netanyahu a pedir aos EUA, para intermediar um cessar-fogo com os iranianos.
Vamos aos fatos concretos do que está em jogo:
- Qatar: A base aérea de Al Udeid, a maior instalação dos EUA no Oriente Médio e quartel-general do CENTCOM, foi um dos alvos principais. Relatos indicam que um sofisticado sistema de radar FP-132, vital para o rastreamento de mísseis, foi destruído.
- Bahrein: A sede da Quinta Frota da Marinha dos EUA, em Manama, foi atingida diretamente por um míssil, um golpe de altíssimo valor simbólico e militar.
- Emirados Árabes Unidos: Explosões foram ouvidas em Abu Dhabi e Dubai. A base aérea de Al Dhafra, crucial para operações aéreas, foi atacada. Há relato de, ao menos, um civil morto pela queda de destroços de um míssil, supostamente interceptado.
- Kuwait: A base aérea Ali Al Salem e Camp Arifjan foram alvos, com relatos de danos significativos nas pistas.
- Jordânia: A base aérea Muwaffaq al-Salti, que abriga a 332ª Ala Expedicionária da Força Aérea dos EUA, também foi atingida.
Enquanto isso, em Israel, o cenário era de caos. A narrativa inicial, reproduzida acriticamente por grande parte da imprensa ocidental, era de que o famoso sistema Domo de Ferro (Iron Dome), em conjunto com o sistema Arrow, e o apoio de navios americanos com mísseis SM-3, estava interceptando a esmagadora maioria dos mísseis. No entanto, as imagens e relatos que emergem, apesar da pesada censura israelense, que já resultou na prisão de jornalistas, pintam um quadro bem diferente.
A verdade, que insiste em vazar pelas brechas da propaganda, é que o Domo de Ferro falhou. Falhou mais uma vez. Falhou e vem falhando de forma retumbante.
Relatórios indicam que um míssil interceptador Arrow-3, lançado de uma base no deserto de Neguev, simplesmente saiu do curso e explodiu próximo ao local de lançamento.
Enquanto isso, mísseis iranianos, incluindo modelos hipersônicos, que também foram utilizados no conflito anterior de 12 dias, atingiram os seus alvos em Tel Aviv, Haifa e na Galileia. Uma refinaria de petróleo em Haifa, a maior do país, foi incendiada, e imagens de prédios civis destruídos em Tel Aviv circulam nas redes sociais, desmentindo a versão oficial de que “a maioria” dos mísseis foi interceptada.
O Irã tem um estoque espetacular de mísseis de curto, médio e longo alcance. Os números desse arsenal divergem, mas se noticia algo por volta de 9000 mísseis, incluindo os hipersônicos.
A tentativa de Israel e dos EUA de suprimirem os lançadores de mísseis iranianos parece que também está falhando, afinal, o Irã é uma nação gigantesca, com quase 1,7 milhão de quilômetros quadrados, e é da ordem de grandeza da Europa Ocidental, isto é, não é um estado minúsculo, como, aliás, é Israel.
E todo o arsenal iraniano está fortemente protegido por novos sistemas de defesa russos; espalhado estrategicamente e posicionado em silos subterrâneos por todo o Irã. O Irã ainda conta com informações de inteligência e vigilância chinesas em tempo real, portanto, não será fácil desarmar o Irã.
O conflito promete ser longo. O que favorece o Irã. Fragiliza os EUA e Israel. E esse é o calcanhar de Aquiles dos EUA e de Israel.
E quando os armamentos americanos e israelenses de defesa anti aérea se esgotarem? O que ocorrerá? Israel irá pedir, mais uma vez, um cessar fogo? E se, nesse caso, o Irã não aceitar? Israel irá usar um artefato nuclear? Se isso ocorrer, os EUA e Israel terão iniciado a terceira e última guerra. A nuclear.
O Irã já tinha avisado que não haveria contenção se fosse novamente atacado. Durante o conflito de junho de 2025, a estratégia iraniana foi uma escalada, saturando as defesas israelenses com ataques combinados, empregando sucessivas ondas de centenas de drones kamikaze, e mísseis “falsos”, para esvaziar os arsenais do Domo de Ferro; seguido da queda dos mísseis, realmente armados, sobre os alvos israelenses. Dessa vez é diferente. O contra ataque iraniano está sendo brutal desde o início.
O Fator Paquistão: Entre a Solidariedade Retórica e a Doutrina Nuclear
Neste cenário de alta tensão, um ator regional emerge com uma posição delicada e estratégica: o Paquistão. Em meio à escalada de junho de 2025, uma informação explosiva circulou pela imprensa internacional. Um oficial sênior da Guarda Revolucionária do Irã (IRGC), o General Mohsen Rezaei, afirmou, em uma entrevista, que o Paquistão teria assegurado ao Irã uma resposta nuclear caso Israel utilizasse tais armas contra o território iraniano.
A declaração, se verdadeira, representaria uma mudança sísmica no equilíbrio de poder regional, ampliando o conflito para uma dimensão nuclear, e arrastando um país de posse de, ao menos, 100 ogivas nucleares, e veículos lançadores, para o centro dessa guerra.
No entanto, o vice-primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores do Paquistão, Ishaq Dar, classificou as alegações como “fabricadas” e “irresponsáveis”, reafirmando que a postura nuclear do país é estritamente defensiva, e focada em sua própria segurança regional, com um viés claramente voltado para a Índia. Mas, seria esperado que ele falasse algo diferente? Obviamente que não.
Se o cenário militar já é desolador, o fator econômico adiciona uma camada de complexidade, que torna este conflito catastrófico para a economia global. O Irã, em um movimento anunciado e esperado, cumpriu a promessa que pairava como uma espada de Dâmocles sobre o mercado de energia: fechou o Estreito de Ormuz.
Através desse gargalo, de apenas 40 quilômetros de largura, escoa cerca de um quinto do petróleo mundial e a quase totalidade do Gás Natural Liquefeito (GNL) do Catar, o maior exportador do mundo. Ao decretar o bloqueio, o Irã não está apenas mirando Israel ou os EUA; está mirando o coração do sistema capitalista global.
A Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait e o Catar, todos aliados ou dependentes da proteção americana, viram suas principais rotas de exportação serem fechadas. O impacto nos preços do petróleo e do gás será imediato e devastador. Esse é o “custo” para quem decidiu brincar com fogo, em uma região que é, essencialmente, um barril de pólvora.
E no meio desse tiroteio, os países árabes do Golfo tentam, desesperadamente, se equilibrar. Ao mesmo tempo em que condenam os ataques iranianos à sua soberania, sabem que a sua segurança está atrelada a uma potência (EUA) que os coloca na linha de fogo. A declaração do primeiro-ministro libanês, alertando contra o Hezbollah arrastar o seu país para a guerra ao lado do Irã, é um sintoma do contágio que já começou.
Por fim, nesse vespeiro, não podemos ignorar o pano de fundo ideológico e as vozes que ecoam nas sombras deste conflito. A declaração de Mike Huckabee, atual embaixador dos EUA em Israel, feita em fevereiro de 2026, causou uma crise diplomática ao sugerir que seria “aceitável”, ou que estaria “tudo bem” para os Estados Unidos (it would be fine), se Israel tomasse territórios baseados em interpretações literais da Bíblia.
Na entrevista a Tucker Carlson, Huckabee defendeu o “direito bíblico” de Israel sobre uma área, que se estenderia do Rio Nilo (Egito) ao Rio Eufrates (Síria e Iraque). Não houve qualquer reprimenda ao embaixador, mostrando como Trump ratifica essa intenção.
Essa visão, frequentemente associada ao conceito de “Grande Israel” (Eretz Yisrael Hashlema), reflete a ideologia compartilhada no seio do sionismo.
O mundo árabe, claro, rejeita essa visão, que é o combustível ideológico que transforma um conflito territorial em uma cruzada, justificando o injustificável e ampliando as suspeitas sobre os reais objetivos da campanha militar: não apenas conter o Irã, mas redesenhar o mapa da região.
Talvez seja essa a razão do sionismo querer destruir o Irã, o seu inimigo existencial. Israel provavelmente vê o Irã como o único oponente real para que a Grande Israel se torne realidade; e que Israel seja a potência hegemônica regional, enquanto os Estados Unidos, embora em um mundo multipolar, por sua vez, tenta restabelecer a hegemonia unipolar americana, pela força.
O cenário nesse momento é, claro, instável. Mas a reação da Rússia, através do ex-presidente Dmitri Medvedev, é um termômetro geopolítico. Ao chamar as negociações dos Estados Unidos com o Irã de “operação de camuflagem”, e afirmar que os EUA, uma nação de apenas 249 anos, terão um fim “inglório” diante da paciência de um império persa de mais de 2500 anos, Medvedev coloca a questão em seu devido contexto: uma luta civilizacional onde o Ocidente, liderado por uma potência, em decadência relativa, tenta impor a sua vontade através da força bruta, mas sem uma estratégia de longo prazo.
Nota ao leitor: Este artigo buscou compilar, numa análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercam a escalada militar entre Israel/EUA e Irã. As fontes utilizadas são públicas e estão devidamente listadas para sua verificação.
Esse artigo foi baseado em:
- https://politicaemdebate.org/2026/02/28/o-precipicio-anunciado-ataque-ao-ira-ignora-alertas-e-coloca-o-mundo-em-risco/
- https://politicaemdebate.org/2026/02/24/gleen-diesen-manipulacao-da-midia-na-guerra-da-ucrania-comentarios-adicionais/
- https://politicaemdebate.org/2026/02/20/o-blefe-de-trump-e-a-realpolitik-da-interdependencia-nos-negocios/
- https://www.brasil247.com/mundo/ira-decreta-fechamento-do-estreito-de-ormuz-apos-ataques-dos-eua-e-israel
- https://www.aljazeera.com/news/2026/2/26/what-is-greater-israel-and-how-popular-is-it-among-israelis
- https://politicaemdebate.org/2026/02/22/o-por-que-um-ataque-dos-eua-ao-ira-e-a-receita-para-um-desastre-anunciado/
- https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2026/02/7364754-estados-unidos-e-israel-atacam-ira.html
- http://english.news.cn/20260228/ed450a6e8ebf4287bbc685766880ef6b/c.html
- https://www.tehrantimes.com/news/524352/Iran-s-Day-1-strikes
- https://militarnyi.com/en/news/one-of-israel-s-missile-defense-missile-systems-malfunctioned-and-detonated-near-launch-site/
- https://militarywatchmagazine.com/article/iran-ballistic-missile-strike-us-bases
- https://www.bolnews.com/world/iran-announces-closure-of-strait-of-hormuz/
- https://www.gazetaexpress.com/en/sa-raketa-kane-mbetur-loja-e-frikes-mes-teheranit-dhe-tel-avivit/
- https://www.hindustantimes.com/world-news/israelus-attack-on-iran-spreads-to-wider-middle-east-us-bases-in-uae-bahrain-kuwait-qatar-become-targets-101772270192009.html
- https://www.newarab.com/news/gulf-states-frontlines-israel-us-war-iran
- https://www.atlanticcouncil.org/blogs/menasource/pakistan-is-maintaining-strategic-clarity-amid-the-israel-iran-war/