O Veredito da História: A Condenação Definitiva dos Mandantes do Assassinato de Marielle Franco

A Radiografia de um Estado Capturado

Nacional, Política, Corrupção

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Por PolitikBr I Brasília, Em 27/02/2026, 19h:00, leitura: 8 min

Editor: Rocha, J.C

O caso Marielle Franco sempre foi maior que um crime.

Foi, desde o primeiro tiro, um sintoma — a manifestação mais brutal e cristalina de um modelo de poder que transforma a política em bala, a terra em lucro e a verdade em obstáculo.

No dia 25 de fevereiro de 2026, o Supremo Tribunal Federal (STF) bateu o martelo: por unanimidade, condenou, em definitivo, os mandantes do assassinato da vereadora e de seu motorista, Anderson Gomes.

A decisão, que confirma as penas impostas aos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, e ao ex-chefe da Polícia Civil, Rivaldo Barbosa, não é apenas o fim de um capítulo jurídico. É a admissão formal, tardia, mas necessária, de que o Estado brasileiro — em suas múltiplas camadas — foi cúmplice, refém e instrumento da barbárie.

Para entender o peso desta terça-feira, é preciso revisitar não só os autos do processo, mas o solo fértil onde a conspiração floresceu. E esse solo é a Zona Oeste do Rio de Janeiro, um território de expansão urbana desordenada, déficit habitacional crônico e domínio de milícias que, como bem definiu a socióloga Carolina Christoph Grillo, em entrevista à Novos Estudos ainda em 2019, operam não como um “poder paralelo”, mas como “o próprio Estado”.

A motivação do crime, desnudada pela Polícia Federal em 2024, e agora sacramentada pela mais alta corte do país, foi prosaica em sua monstruosidade: a defesa de um negócio imobiliário-ilegal.

A vereadora Marielle Franco (PSOL) atrapalhava. Atrapalhava ao se opor, com dados, mandato e voz, ao Projeto de Lei Complementar 174/2016, de autoria do então vereador Chiquinho Brazão.

A proposta visava regularizar loteamentos irregulares em bairros da cidade do Rio de Janeiro, como Vargem Grande, Vargem Pequena e Itanhangá — áreas de expansão imobiliária sob influência de milicianos.

Enquanto o grupo dos Brazão defendia a regularização para viabilizar a exploração comercial dessas terras, Marielle, alinhada aos movimentos de moradia popular, defendia que essas mesmas áreas fossem destinadas à habitação para a população de baixa renda .

O embate não era técnico; era existencial.

Em novembro de 2017, durante a votação do projeto, testemunhas relataram à PF uma “reação descontrolada” de Chiquinho Brazão à postura contrária de Marielle. Foi ali, segundo a delação do executor Ronnie Lessa, que se deu o “estopim” para a decisão de matar.

O planejamento, contudo, não seria possível sem a capilaridade institucional da família Brazão. Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, e Chiquinho, que migrara para a Câmara dos Deputados, não eram meros políticos de ocasião. Eram chefes de uma estrutura que amalgamava grileiros, milicianos e agentes públicos.

O elo mais sórdido dessa corrente era Rivaldo Barbosa. Nomeado chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro na véspera do crime — 13 de março de 2018.

O delegado não apenas sabia do plano: segundo a PF, ele “planejou meticulosamente” a execução e prometeu impunidade aos mandantes, garantindo que as investigações seriam desviadas dos verdadeiros culpados .

Os tiros que mataram Marielle e Anderson, disparado por Ronnie Lessa em 14 de março de 2018, foi, portanto, um ato orquestrado por uma aliança entre o crime organizado e o aparelho de Estado. Um golpe contra a democracia, desferido de dentro de suas próprias entranhas.

Foi nesse contexto que a ministra Cármen Lúcia (STF), ao proferir seu voto pela culpabilidade dos envolvidos, nos trouxe uma dimensão frequentemente subestimada, mas cruelmente determinante desse e de tantos outros crimes, que se comete contra as mulheres: o gênero e a raça da vítima como facilitadores da barbárie.

A fala da ministra não foi um adendo emocional, mas uma análise crua da estrutura de poder que escolheu Marielle.“Matar uma de nós é muito mais fácil”, ecoando não apenas a dor de dona Marinete, mãe de Marielle, mas uma lógica perversa de desumanização. “Nós somos mais ponto de referência do que sujeito de direitos. Sabe aquela que está ao lado daquela mulher magrinha? Sabe ao lado daquela de cabeça branca? Nós somos referência. Nós somos quase, muito parecidas com seres humanos, mas não temos a integridade ainda de um reconhecimento pleno. Então, matar uma de nós é muito mais fácil. Matar fisicamente, matar moralmente, matar profissionalmente, é muito mais fácil. Continua sendo.”

Cármen Lúcia revelou, com base nos autos, que a escolha de Marielle não foi aleatória. Houve uma reunião dos conspiradores, onde se cogitou matar o deputado Marcelo Freixo, à época uma figura de proa na oposição às milícias.

A ideia foi descartada por um critério estarrecedor: “era mais difícil, chega-se a dizer expressamente, e a Procuradoria realça esse ponto, é presidente partido, aí não pode, mas uma de nós é só para dar um recado, se continuar vai ter o mesmo fim”.

A decisão foi pragmática: matar uma mulher negra, periférica, era mais fácil, geraria menos comoção inicial e serviria como um aviso brutal aos demais. “E aí a afronta é maior. Agora, além de tudo, mulher fala, ainda fala alto e ainda fala na minha área? O que é isso? (…) Só falta dizer em que mundo nós estamos, pois é, estamos no mundo em que queremos direitos iguais“, prosseguiu Cármen Lúcia.

A misoginia, portanto, não foi um mero pano de fundo. Foi uma variável calculada na equação do crime. A ousadia de Marielle — seu lugar de fala, sua trajetória, sua resistência — foi lida pelos mandantes como uma afronta dupla: ela desafiava o poder econômico e territorial dos Brazão e, como mulher, ousava ocupar um espaço que, na visão deles, não lhe era devido.

A ministra lembrou que essa lógica de “depreciação da mulher” as torna alvos mais suscetíveis, em uma sociedade que ainda não lhes confere “a integridade de um reconhecimento pleno”. É uma violência política de gênero e raça que, no caso de Marielle, se materializou na bala.

A condenação unânime pelo STF, com a presença de todos os ministros, é um marco. Mas é preciso evitar o canto da sereia da “página virada”. O julgamento não surgiu da virtude espontânea das instituições, mas da pressão incansável da sociedade civil, da família de Marielle e de uma imprensa que, tardiamente, escavou a verdade.

A delação de Ronnie Lessa, homologada em 2024, foi a chave que destrancou as portas que deveriam ter estado abertas desde 2018. Durante anos, a investigação foi sabotada, com testemunhas intimidadas e provas soterradas, num explícito modus operandi de obstrução que, como apontou a PF, contou com a mão do próprio chefe de polícia.

O que o STF condenou, nesta quinta-feira, não foram apenas três homens. A corte condenou um sistema. Um sistema onde um deputado federal e um conselheiro do TCE podem encomendar uma morte, para proteger negócios imobiliários em áreas milicianas.

Um sistema onde o chefe da polícia é peça-chave na engrenagem do crime. Um sistema que levou oito anos para entregar justiça, e só o fez porque a verdade se tornou mais forte que a estrutura montada para ocultá-la. E, como citou Cármen Lúcia, é um sistema onde “matar uma de nós” ainda parece, para muitos, um cálculo aceitável.

Marielle foi morta por ser mulher, negra, favelada e defensora de direitos humanos? Sim. Mas, como alertou a socióloga Carolina Grillo, reduzir o caso a isso é “enterrar a investigação” e ignorar a “motivação pragmática”: o dinheiro, o poder e a terra.

Marielle foi executada porque a sua atuação política na Câmara Municipal, e nas ruas, representava uma barreira à expansão de um negócio bilionário e sanguinário. Sua voz era um obstáculo à “regularização” da ilegalidade. E, por ser quem era, se tornou o alvo perfeito para um recado de terror.

Ao condenar os mandantes, o STF diz, em tese, que não há espaço para isso. Mas a realidade é mais complexa. As milícias não foram desmanteladas com a sentença. Os esquemas de grilagem não cessaram. O projeto de poder dos Brazão, ainda que ferido, não morreu com a decisão. O que a condenação faz é jogar luz sobre a execrável e conhecida relação entre política, polícia e crime organizado no Brasil, expondo as entranhas de um Estado que, em várias de suas porções, foi privatizado pelo banditismo de terno e farda.

E, como nos lembrou a ministra Cármen Lúcia, ela expõe também o profundo fosso de gênero e raça que ainda define quem pode ser morto com maior impunidade.

A história não termina com os culpados atrás das grades. Ela se renova no desafio de impedir que novos Brazão e novos Rivaldo surjam das mesmas cinzas, e na luta para que “matar uma de nós” deixe, um dia, de ser “mais fácil”.

A memória de Marielle e Anderson não cabe em um acórdão. Ela está na luta por moradia digna, na resistência ao avanço miliciano, na exigência de que o Estado seja, de fato, do público, e na certeza de que a voz de uma mulher negra não pode ser silenciada, como se fosse apenas “um recado”. A condenação foi uma vitória da justiça. A certeza de que ela não se repetirá é a tarefa que nos resta.

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