O Por quê um Ataque dos EUA ao Irã é a Receita para um Desastre Anunciado

Geopolítica, Internacional. Economia

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Por PolitikBr I Brasília, Em 22/02/2026, 20h:46, leitura: 7 min

Editor: Rocha, J.C

Enquanto Donald Trump, em seus habituais devaneios, atribui a “paz no Oriente Médio” a uma fictícia destruição do programa nuclear iraniano por bombardeiros B-2, a realidade nos corredores do poder e nos canais diplomáticos pinta um quadro radicalmente diferente. Estamos diante de um teatro do absurdo, aonde a arrogância imperial se choca com a dura lição da geopolítica real.

As últimas 48 horas foram um prato cheio para quem busca entender as entranhas desse conflito.

De um lado, Andrei Martyanov, analista militar e ex-oficial soviético, oferece uma aula de realismo bélico. De outro, os veteranos Larry Johnson (ex-analista da CIA) e Larry Wilkerson (ex-chefe de gabinete de Colin Powell), dissecam o amadorismo diplomático e as fantasias estratégicas que emanam da Casa Branca.

O veredito é unânime e assustador: os Estados Unidos estão à beira de um precipício, e Trump, encurralado por um Congresso refém de Israel, pode estar prestes a mergulhar o mundo em um cataclismo.

A primeira e mais crucial camada dessa análise é o divórcio completo entre a narrativa oficial e a capacidade militar real. Quando Trump se vangloria dos B-2, Martyanov lembra algo fundamental: “a última guerra de verdade que os EUA travaram foi o Vietnã”. O que veio depois foi uma série de espancamentos de exércitos frágeis, com tempo de sobra para mobilização, e contra inimigos sem defesa aérea digna do nome.

O Irã, como Martyanov não cansa de repetir, “não é o Iraque”. É uma civilização com 90 milhões de habitantes, que possui um terreno montanhoso e, portanto, complexo e, uma defesa aérea integrada e funcional.

Segundo Martyanov, a lógica americana, primitiva em sua essência, é sempre a mesma: lançar tudo o que têm de longo alcance, e torcer para que a “supressão de defesas aéreas” funcione. Mas, como ele também lembra: diante do ataque surpresa de Israel, em junho de 2025, a defesa aérea iraniana ficou fora do ar por apenas 10 a 15 horas; e voltou a operar com 70% de eficiência após isso.

Contra isso, os EUA pretendem usar grupos de batalha de porta-aviões com os seus F-18 e F-35, e uma chuva de mísseis JASSM (de 900 km de alcance) e (mísseis) Tomahawks. O problema? A produção industrial americana é insuficiente, em caso de um conflito prolongado, as armas americanas são caríssimas e, como visto em conflitos anteriores, falham.

Martyanov desdenha: “um terço dos Tomahawks – lançados em operação na Síria – nem sequer explodiu”.

A vulnerabilidade, no entanto, é recíproca e pende contra os invasores. Os destroyers americanos que circulam no Golfo Pérsico são “uma má ideia”, nas palavras de Martyanov. Eles estão ao alcance dos mísseis antinavio iranianos, e a capacidade de interceptação dos sistemas AEGIS, com seus 200 ou 250 mísseis, é ridiculamente pequena diante de um arsenal iraniano que conta com “milhares” de projéteis, incluindo mísseis de cruzeiro que voam baixo, fora do alcance ideal dos radares do Patriot.

É aqui que a análise de Larry Johnson sobre a carta iraniana à ONU ganha contornos de profecia. O Irã não está blefando. Ao declarar que todas as bases e ativos hostis, num raio de 2.500 km, se tornarão alvos legítimos, eles não estão apenas cumprindo um rito diplomático. Estão traçando o mapa do inferno que se abrirá para as forças americanas na região. Jordânia, Catar, Emirados Árabes Unidos, Diego Garcia – nada estará seguro. A base aérea de Al Udeid, no Catar, que abriga milhares de americanos, entraria na mira.

Como questiona Johnson, qual seria a reação de Washington ao ver um porta-aviões em chamas ou um destroyer afundado?

A resposta a essa pergunta nos leva à segunda grande ilusão: a da guerra rápida e indolor.

O tenente-coronel Wilkerson, com a sua vasta experiência, desmonta essa fantasia.

Wilkerson lembra que a história mostra que, após a fase inicial de bombardeios, a “missão cumprida” se transforma em um atoleiro. Ele recorda o fracasso dos EUA em localizar lançadores móveis de mísseis no Iraque em 1991 e 2003, e pergunta: como fariam isso agora no Irã, um país massivo e hostil, com defesa aérea ativa?

A única aposta americana, segundo Martyanov e Johnson, é na “quinta coluna”, em células adormecidas e na desestabilização interna. Uma aposta frágil, que ignora o efeito galvanizador, que um ataque externo tem em uma nação.

Wilkerson toca num ponto nevrálgico, ao expor a miopia da inteligência americana, que se baseia em pesquisas financiadas pela NED e USAID, para acreditar que 80% dos iranianos odeiam o regime e aguardam um libertador.

Ele contrasta isso com as pesquisas sérias da Universidade de Maryland, que mostram o oposto, isto é, o efeito unificador que os ataques de junho de 2025 tiveram no Irã.

Nima, o chairman, complementa com a memória histórica iraniana: a desconfiança em relação aos britânicos agora se estende aos EUA, como herdeiros desse império. Um país atacado se une. É a lição mais básica de política, e parece ter sido esquecida.

E no meio desse vespeiro, está Donald Trump.

Johnson descreve as negociações em Genebra como uma “piada”, com Steve Witkoff e Jared Kushner correndo de sala em sala, usando Omã como intermediário, sem qualquer contato direto com os iranianos.

A falta de seriedade é tamanha que, enquanto um enviado sinaliza uma possível flexibilização, a máquina de guerra e a retórica belicista do lobby sionista em Washington, já tratam de inviabilizar qualquer acordo.

Trump está em um impasse: se ataca o Irã, arrisca um desastre militar, com potenciais 10.000 baixas (um número que, segundo Johnson, foi comunicado à Casa Branca por canais militares); se recua, é devorado pelo Congresso e pela máquina de propaganda, que irá acusar o presidente de fraqueza.

A grande variável que os falcões em Washington insistem em ignorar é a nova arquitetura do poder. A Rússia e a China não são espectadores passivos.

Martyanov aponta que a Rússia já ofereceu cooperação em defesa aérea e, muito provavelmente, fornece inteligência e alerta antecipado. Wilkerson destaca o acordo trilateral de segurança assinado pelo Irã com a Rússia e com a China em 29 de janeiro de 2026; o Irã hoje conta com a presença de radares chineses avançados, capazes de detectar aviões furtivos em um sistema integrado de alerta em camadas e defesa aérea; e o fornecimento russo de helicópteros de ataque.

O que estamos vendo é uma integração de defesa sem precedentes, criando um ambiente de batalha letal para qualquer força invasora.

Se noticiou ainda que os porta aviões americanos são particularmente vulneráveis a ataques em enxame de drones. Basta voltar a junho de 2025, e ver como os iranianos saturavam as defesas anti aéreas israelenses com drones baratos, mas mortais, enquanto, a seguir, caíam os mísseis sobre os alvos estratégicos do Irã em Israel. Uma chuva de fogo. De destruição massiva. Na Ucrânia, a Rússia emprega a mesma tática

A conclusão aponta para o fato que os EUA, cegos pelo seu excepcionalismo, e reféns de um alinhamento automático a Israel, caminham para um confronto para o qual não estão preparados. O mito da invencibilidade americana, sustentado por décadas de propaganda e por vitórias contra adversários frágeis, está prestes a ser desmascarado de forma brutal.

As opções são terríveis. Um ataque limitado, como Trump insinua, é uma quimera. No momento em que as primeiras bombas caírem, o Estreito de Ormuz pode ser fechado, desencadeando um tsunami econômico global, e as bases americanas na região serão transformadas em infernos. O preço do petróleo dispararia, a economia mundial, já frágil, entraria em colapso, e o mundo testemunharia a humilhação final de um império, que achou que ainda podia ditar regras com base na força bruta.

O que está em jogo não é apenas o futuro de Teerã, mas a sobrevivência da última ilusão de um mundo unipolar. E a verdade, nua e crua, é que essa ilusão parece ter os dias contados.

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