O Blefe de Trump e a Realpolitik da Interdependência nos Negócios

Geopolítica, Internacional. Economia

PolitikBr é uma mídia independente. Informar não é “torcida”. Não é distorcer, manipular ou mentir.

Por PolitikBr I Brasília, Em 20/02/2026, 15h:25, leitura: 6 min

Editor: Rocha, J.C

O que testemunhamos no teatro de sombras do Oriente Médio nas últimas semanas parece ser a política – ou o que resta dela – sendo utilizada como a continuação da guerra por outros meios; um espetáculo pirotécnico de dissuasão, onde a linha entre a realidade e o blefe se dissipa como fumaça sobre as águas estratificadas do Estreito de Ormuz.

O cenário é, para usar um eufemismo, digno de um roteiro de Tom Clancy reescrito por um dramaturgo do absurdo. De um lado, a máquina de guerra americana ronca seus motores, em uma mobilização que faria os preparativos para a Invasão do Iraque, parecerem um exercício de fim de semana.

Os EUA posicionaram um segundo porta-aviões, 15 destróieres, dezenas de aeronaves de combate e uma matilha de submarinos nucleares dotados de mísseis Tomahawk, todos prontos para um ataque iminente ao Irã. Isto é, a personificação da “diplomacia da canhoneira” em sua forma mais pós-moderna e faraônica.

Do outro lado, o Irã, longe de se acuar, responde fechando parcialmente o estreito de Ormuz durante exercícios navais, segundo a CBN, utilizando mísseis balísticos anti-navio, em manobras conjuntas com a Rússia e com a China. Um tiro de advertência direto na jugular do comércio energético global. É o “barril de pólvora” prestes a explodir, como bem definiu nosso blog.

E no centro deste turbilhão de aço e napalm, o que temos? Negociações. Diálogo. Diplomacia.

Em Genebra, mediadas por Omã, equipes iranianas e americanas se sentam à mesa. É aqui que a realidade se fratura. Como interpretar esta cena bizantina?

A tese central que defendemos, ecoando a opinião de analistas militares e estratégicos, é a de que o ocupante do Salão Oval está, pura e simplesmente, blefando.

Não se trata de um palpite, mas de uma leitura fria dos fatos e da correlação de forças, algo que detalhamos em artigos anteriores como “O Teatro do Absurdo” e “O Império dos Espelhos”.

A mobilização colossal dos EUA seria, então, não o prelúdio da guerra, mas o megafone da negociação. O porrete antes do aperto de mãos.

A peça que faltava para completar este quebra-cabeças estratégico acaba de ser encaixada: o ultimato de Trump, que concede de 10 a 15 dias para um acordo, noticiado pelo Jornal de Negócios e pela CNN Brasil.

Ora, um ultimato verdadeiro não vem com um cronograma tão generoso, quanto uma entrega da Shein.

Leia ainda:

O Teatro do Absurdo: Por Que a “Guerra Iminente” com o Irã é um Blefe

O Império dos Espelhos: Trump Não Vai Bombardear o Irã

Um ataque surpresa não é precedido de um aviso prévio com direito à contagem regressiva transmitida via cabo submarino. Isto é a antítese da surpresa. É o reconhecimento tácito de que a opção militar, embora real no papel, é um beco sem saída na prática.

A fatura de uma guerra com o Irã – um país com profundidade estratégica, capacidade de assimilar ataques e, crucialmente, com mísseis capazes de transformar o Estreito de Ormuz num lago de fogo – é impagável. Até para os cofres americanos.

O blefe, porém, tem um custo. E esse custo não é pago por Trump ou pelos acionistas da Lockheed Martin, mas pelo contribuinte americano, e pelos soldados que cruzam oceanos numa novela de suspense cujo final já parece escrito.

Milhares de marinheiros, pilotos e fuzileiros foram arrancados de suas famílias, porta-aviões foram deslocados a um custo bilionário, submarinos deixaram suas rotas de patrulha – tudo para criar uma “cortina de fumaça”, que dê peso às palavras de um negociador errático. É um exercício de realpolitik levado às últimas consequências, onde o cenário de guerra é o principal trunfo na mesa de paz.

E qual é o objeto dessa paz, afinal?

Não se trata de uma rendição incondicional iraniana, nem do fim do seu programa nuclear, como a retórica belicista de Washington e Tel Aviv tantas vezes alardeou.

A informação que emerge das negociações, trazida pela Reuters via InfoMoney, expõe a natureza crua do acordo que se desenha: negócios.

O Irã, através do vice-diretor de diplomacia econômica, Hamid Ghanbari, deixou claro que está disposto a discutir aspectos do enriquecimento de urânio, inclusive diluir seu estoque mais crítico, mas sem jamais abrir mão da soberania sobre seu programa nuclear.

Em troca, a contrapartida não é apenas o alívio de sanções, mas um convite direto ao capital americano para voltar a Teerã. Petróleo, gás, mineração e até a compra de aeronaves estão sobre a mesa.

Percebam a ironia sublime.

Após anos de uma campanha de “pressão máxima” que visava estrangular a economia iraniana, o desfecho possível é um acordo que abre as portas para as petroleiras dos EUA explorarem campos conjuntos no golfo Pérsico.

A “ameaça existencial” iraniana, subitamente, se transmuta em uma oportunidade de negócio para as empresas de energia americanas. Algo bem palatável para o ganancioso Trump.

Jared Kushner, o genro conselheiro, e Steve Witkoff, o enviado especial, viajam a Genebra não para ditar termos de rendição, mas para negociar contratos. A geopolítica, em sua essência mais crua, se revela como serva do dinheiro.

Nesse contexto, a presença dos navios de guerra chineses e russos, nos exercícios iranianos em Ormuz, adquire um significado adicional. É a lembrança para Washington, de que o tabuleiro é mais complexo do que uma partida de xadrez.

A China, maior compradora do petróleo iraniano, não vê com bons olhos uma interrupção no fluxo de energia, e nem abre mão da rota da seda, que tem o Irã como um dos nós.

A Rússia, observa o desgaste americano numa nova frente. Qualquer movimento em falso pode desequilibrar um ecossistema de alianças e dependências, que ninguém, a começar pelos EUA, tem real interesse em implodir.

Ao observarmos o porta-aviões cortando as ondas do Golfo e os diplomatas discursando em Genebra, não estamos vendo dois caminhos mutuamente excludentes. Vemos a mesma estrada, pavimentada com o asfalto da necessidade estratégica.

Trump, repete o roteiro de seu primeiro mandato: sai do acordo nuclear (JCPOA), impõe sanções, leva o país à beira da guerra e, na última hora, costura um novo acordo com seu nome estampado. A diferença é que, desta vez, o Irã aprendeu a lição. Só negocia com a corda no pescoço dos outros. E, por enquanto, a corda que aperta não é a de Teerã, mas a do comércio global de petróleo.

O espetáculo continua. Os mariners aguardam ordens. Os navios zarpam. E os negócios, como sempre, aguardam nos bastidores. A guerra pode ser o inferno, como disse Sherman, mas o seu ensaio geral é, definitivamente, um negócio da China.

Esse artigo foi baseado em:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *