Política, Nacional, Saúde
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Por PolitikBr I Brasília, Em 18/02/2026, 20h:28, leitura: 9 min
Editor: Rocha, J.C.
O ano era 1997. Um pesquisador da UFRJ adquiriu laminina para um experimento que nunca se concretizou. O frasco ficou lá, esquecido, até cair nas mãos de Tatiana Coelho de Sampaio. “A princípio, eu não sabia nem para que servia aquilo”, confessou ela à BBC News Brasil.
Ela não estava procurando a cura para a paralisia. Estava apenas curiosa sobre um complexo de moléculas de laminina que, sob certas condições, formava uma estrutura peculiar. O que ela viu ao microscópio era, para usar um termo que viralizaria décadas depois, divino: a proteína se organizava em forma de cruz.
Foi mais ou menos assim que, nos corredores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a bióloga Tatiana tropeçou em algo que a humanidade, especialmente aquela confinada a cadeiras de rodas por lesões medulares, esperava há séculos: a polilaminina.
Coincidência ou não, a morfologia da polilaminina é a de uma cruz. Três braços curtos e um longo. Uma estrutura cruciforme que parece um andaime molecular; uma arquitetura sagrada, esculpida pela evolução, para dar sustentação às células.
A laminina, proteína abundante na placenta humana, é a engenheira-chefe da nossa formação embrionária: é ela que organiza os tecidos, que diz às células onde devem se fixar, que orienta o crescimento. Na fase adulta, porém, a sua produção escasseia. E é justamente essa escassez que condena os neurônios de um tetraplégico ao isolamento eterno.
O que Tatiana fez foi pegar essa proteína, extraí-la de placentas doadas (um material que antes ia para o lixo hospitalar), e polimerizá-la em laboratório, criando uma versão potencializada: a polilaminina.
Em vez de moléculas solitárias, ela criou uma malha, uma rede tridimensional que, aplicada no local da lesão medular, funciona como uma ponte. Os axônios — aqueles cabos nervosos rompidos no trauma — encontram ali um caminho, um suporte físico para se reconectarem. “Você tem uma proteína que já é muito poderosa, e temos ela agora em uma forma melhorada em laboratório”, resumiu a pesquisadora.
A descoberta, publicizada agora em 2026, após quase três décadas de estudos silenciosos, teve um efeito colateral imediato: a comoção nacional. E não é para menos. Os números preliminares são, para usar o jargão científico, com a devida cautela, animadores.
Em um estudo experimental com oito pacientes paraplégicos e tetraplégicos — todos com lesões completas, do tipo A, as mais graves —, seis recuperaram movimentos. Um deles, que estava paralisado do ombro para baixo, voltou a andar sozinho. A taxa de recuperação foi de 75%, contra míseros 15% observados em dados históricos da literatura médica, para pacientes que receberam apenas os tratamentos convencionais (cirurgia, fisioterapia, anti-inflamatórios).
É claro que a ciência exige mais. Esse estudo, vale lembrar, foi divulgado como um pré-print, sem revisão por pares. A amostra é pequena. E, como a própria Tatiana faz questão de pontuar, “não tenho certeza absoluta ainda que estaremos diante de algo espetacular, mas isso é possível”.
O ceticismo metodológico é a espinha dorsal da boa pesquisa. Mas, para o público leigo — e especialmente para os 13 mil brasileiros que sofrem lesões medulares por ano, segundo estimativas do Ministério da Saúde —, o ceticismo soa como uma tortura burocrática. Porque a notícia boa veio acompanhada do rito lento da regulação.
Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início da fase 1 dos estudos clínicos. Cinco pacientes com lesão torácica completa receberão a aplicação em até 72 horas após o trauma, e serão monitorados por seis meses. O objetivo aqui não é provar a eficácia, mas a segurança: verificar se a substância não provoca reações adversas graves.
Se tudo correr bem, a fase 2 (que testa a eficácia) deve começar ainda este ano. A farmacêutica Cristália, parceira da UFRJ no desenvolvimento do medicamento, projeta que, se o cronograma não tropeçar, o registro definitivo na Anvisa pode sair em 2028.
- Daqui a dois anos. Para quem tem pressa — e quem, acamado, não teria? —, é uma eternidade. Mas, para quem espera há 28 anos, como Tatiana, é um piscar de olhos. A questão é que o Brasil não é feito apenas de cientistas pacientes. É feito também de desesperados que recorrem ao Judiciário.
A polilaminina, ainda em fase experimental, já é alvo de liminares.
Famílias de vítimas de traumas recentes têm ido à Justiça para obrigar hospitais e planos de saúde a aplicarem a substância, mesmo sem a aprovação completa da Anvisa.
O caso mais comentado foi o da nutricionista Flávia Bueno, 35 anos, tetraplégica após um mergulho no mar. Ela recebeu a aplicação no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, em 23 de janeiro. Dias depois, segundo a família, voltou a mexer o braço direito.
Do ponto de vista científico, Tatiana Sampaio é taxativa: isso é “errado”. E está coberta de razão. A fase 1 não foi desenhada para testar eficácia, e o uso compassivo, sem protocolo rígido, pode gerar dados que mais atrapalham do que ajudam. Pode, ainda, expor pacientes a riscos desconhecidos. Mas tente explicar isso a uma mãe que vê o filho imóvel na cama.
O Direito, nesses casos, opera na lógica da urgência e da dignidade humana. O juiz não está preocupado com o método duplo-cego; está preocupado com a vida que (sobre)vive ali. O choque entre a prudência regulatória e a emergência existencial é um dos dramas silenciosos por trás dessa história.
Enquanto a ciência segue seu curso, o imaginário popular já elegeu seus personagens. De um lado, a cientista. De outro, a musa.
Em meados de fevereiro, uma declaração infeliz do dirigente da Liesa, Gabriel David, colocou Tatiana Sampaio no olho de um furacão midiático. Ao ser questionado sobre a influenciadora Virginia Fonseca, ele afirmou que “nenhuma mulher é tão relevante midiaticamente nesse momento no Brasil como a Virgínia”.
A frase, naturalmente, incendiou as redes. E, no contraponto, surgiu Tatiana: bióloga, mãe de três filhos, doutora, pós-doutora, 28 anos dedicados à mesma proteína, e agora protagonista de uma descoberta com potencial de Nobel.
A comparação, ainda que injusta e tosca, nos revela um abismo cultural. Enquanto celebramos como ídolos nacionais aqueles que vendem xampus e mostram o dia a dia em mansões, uma mulher numa universidade pública, com financiamento escasso e perseverança de rocha, pode estar reescrevendo os limites da medicina.
Não se trata de demonizar a influenciadora, mas de questionar o que elegemos como “relevante”. Tatiana não tem 40 milhões de seguidores, mas tem algo que a fama não compra: a gratidão silenciosa de quem um dia pode voltar a andar.
Essa gratidão ganhou rosto esta semana.
Lais Souza, ex-ginasta da seleção brasileira, tetraplégica desde 2014 após um acidente de esqui, foi ao Rio de Janeiro conhecer pessoalmente Tatiana. O encontro, registrado e postado nas redes, foi um daqueles momentos em que a notícia científica se humaniza. “Eu precisava vir pessoalmente agradecer por todos esses anos dedicados à pesquisa. Em 12 anos de lesão, acompanhei inúmeros estudos ao redor do mundo. Li artigos, vi reportagens, ouvi especialistas, mas sem criar expectativas. Nenhum deles tinha despertado em mim o que senti ao conhecer a polilaminina”, disse Lais.
E completou com uma frase que ecoa o desejo de uma nação: “Deus, me permita estar viva para ver não apenas a minha vida impactada, mas a de milhões de pessoas.”
Há algo de profundamente simbólico na imagem das duas mulheres juntas.
A cientista que dedicou a vida a desvendar os segredos de uma proteína cruciforme; a atleta que carrega, na coluna fraturada, o peso de um sonho interrompido. Ambas, à sua maneira, carregam cruzes. Mas a promessa da polilaminina é justamente a de que a cruz não precisa ser apenas um fardo — pode ser também uma ponte.
O caminho ainda é longo. A fase 1 mal começou. Há riscos, incertezas, e a possibilidade sempre presente de que os resultados em humanos não repliquem, sob a vista do rigor científico, o entusiasmo dos modelos experimentais. Mas parece que sim. Que devemos nos alegrar desde já.
A comunidade científica internacional, naturalmente, reserva o seu julgamento. Mas, para um país tão acostumado a ver as suas inteligências emigrarem ou sucumbirem à falta de financiamento, ver uma descoberta 100% nacional, feita em uma universidade pública, com insumos de placentas doadas, e com potencial real de quebrar um paradigma, e mudar a vida de milhões, não só de brasileiros, mas mundo à fora, é mais que uma notícia: é um sopro de autoestima coletiva.
Tatiana Coelho de Sampaio não descobriu a polilaminina porque estava procurando a cura para a paralisia. Descobriu porque teve a curiosidade de olhar para um frasco esquecido, e a teimosia de não desistir dele por 28 anos.
É essa teimosia, alimentada pela ciência pública, e pela placenta generosa de milhares de mães anônimas, que hoje nos permite sonhar com um futuro onde a palavra “tetraplegia” não seja uma sentença, mas um capítulo reversível.
Que venham os testes, as fases, as burocracias. Que a pressa das liminares não atropele o rigor do método. E que, em 2028, possamos olhar para trás e ver que a cruz molecular descoberta, por acaso, – ou obra de Deus? – no Rio de Janeiro se tornou, de fato, a redenção de muitos.
O determinismo e a causalidade são conceitos fundamentais, frequentemente interligados, na filosofia e na ciência, que buscam explicar como os eventos ocorrem e se relacionam no universo. Embora relacionados, não são idênticos: a causalidade é o princípio de causa e efeito, enquanto o determinismo é a doutrina de que todas as ações e eventos são predeterminados por causas anteriores. O que terá sido nesse caso?, me pergunto nesse momento….
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