Internacional, Economia, Geopolítica
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Por PolitikBr I Brasília, Em 07/02/2026, 19h:48, leitura: 9 min
Editor: Rocha, J.C.
Enquanto o cidadão comum em Nova York, São Paulo ou Mumbai se preocupa com o preço do pão, da gasolina e com as oscilações pontuais da bolsa de valores, uma operação de guerra financeira, silenciosa, metódica e de escala tectônica está em curso.
Nos bastidores frios dos bancos centrais e nos gabinetes estratégicos das maiores potências emergentes, um consenso parece ter sido alcançado: a era da incontestável hegemonia do dólar americano chegou ao seu capítulo final.
O que estamos testemunhando não é uma simples flutuação de mercado ou um ajuste técnico nas carteiras de investimento. Estamos no epicentro de uma recalibragem consciente e coordenada da arquitetura financeira global, uma manobra que, peça por peça, desmonta os alicerces do poder econômico dos Estados Unidos.
O lançamento do BRICS Pay, e da unidade de conta UNIT, em 2026, não é o início dessa história, mas sim o seu clímax estratégico – a materialização de uma década de preparativos, que passaram despercebidos pelas manchetes tradicionais, mas foram minuciosamente registrados nos fluxos de capital e nas movimentações do ouro, entre os cofres das nações.
Para compreender a magnitude deste momento, é preciso conectar pontos que, à primeira vista, parecem isolados: a venda agressiva de títulos do Tesouro Americano pelo Brasil, pela China, pela Índia, pela Rússia – e outros players- ; a corrida desenfreada por ouro físico por parte desses mesmos bancos centrais; o colapso silencioso do setor bancário regional americano, afundado em dívidas imobiliárias comerciais impagáveis; e a parede de vencimentos de trilhões de dólares da dívida pública dos EUA.
Cada um desses fenômenos é um sintoma da mesma doença terminal: a insustentabilidade de um sistema financeiro, construído sobre a confiança infinita em uma moeda que pode ser impressa sem lastro, e em uma dívida desenfreada que cresce em espiral, divorciada da capacidade produtiva real de sua economia.
Óbvio que nos referimos aos Estados Unidos, que, com dívida, bancam a opulência perdulária da sua sociedade de consumo; que lhes confere o poder de ter mais de 800 bases militares ao redor do mundo, se colocando na qualidade de interventores e xerife do planeta e, também, da sua ineficiência, que é exportada para as outras nações, que assim pagam essa conta: uma autêntica cocaína financeira.
O BRICS, longe de ser um clube de discurso retórico, vem se transformando, aceleradamente, no executor técnico dessa intervenção cirúrgica no sistema. O bloco não está atacando o dólar com discursos; está drenando o seu sustento vital, com ações concretas.
O coração dessa estratégia é duplo. Primeiro, a construção de um sistema de pagamento alternativo, o BRICS Pay, que permite a liquidação direta de transações comerciais entre os países-membros, bypassando completamente o sistema SWIFT, dominado pelo Ocidente, e a necessidade de conversão para dólar. É uma via livre para o comércio soberano. Segundo, e crucial para a credibilidade do sistema, a criação da UNIT, uma unidade de conta lastreada em 40% ouro e 60% em uma cesta de moedas dos membros do BRICS+. Este não é um “euro do BRICS” – não é uma moeda para circular no bolso do cidadão. É uma âncora, um padrão de valor.
Ao lastrear quase a metade de sua referência no metal que, por milênios, simbolizou a riqueza real e indestrutível, o bloco envia uma mensagem poderosa: a nova arquitetura está sendo construída sobre ativos tangíveis, não sobre promessas de papel. E é aqui que a engrenagem se torna perfeita e implacável.
Para manter a paridade de 40% em ouro da UNIT, à medida que o volume de comércio dentro do bloco se expandir – e a adesão de novas nações ao BRICS+ é um fenômeno avassalador –, o sistema demandará quantidades cada vez maiores de metal físico. Isto não é uma suposição; é uma obrigação contábil. E de onde virá esse ouro? Das reservas internacionais dos próprios membros, que, não por acaso, vêm sendo acumuladas em um ritmo febril.
Observe os movimentos, todos documentados e públicos: o Banco Central do Brasil, após quatro anos de inércia, retomou, agressivamente, as compras de ouro no final de 2025, adquirindo 42,8 toneladas em apenas três meses, um aumento de 33% em suas reservas. A Índia reduziu a sua posição em títulos americanos em US$ 50 bilhões para realocar capital em ouro, inclusive repatriando toneladas físicas guardadas em cofres no Reino Unido. A China executou a manobra mais ousada: vendeu US$ 688 bilhões em títulos do tesouro americano, muitas vezes aceitando prejuízos contábeis imediatos, em uma troca calculada de “promessas de papel por propriedade real“.
Essa não é uma coincidência. É uma coordenação tácita, uma leitura compartilhada de cenário que entende que o futuro financeiro será multipolar. Cada tonelada de ouro comprada, e cada bilhão em títulos americanos vendidos, fortalece a UNIT e, por consequência, enfraquece a estrutura que sustenta o dólar. Por quê?
Porque o mercado de títulos do Tesouro Americano é uma pirâmide de confiança. A sua solvência depende da demanda constante e crescente, para rolar uma dívida que já está em US$ 38 trilhões e subindo.
Quando os grandes compradores históricos – os próprios países que o sistema outrora chamou de “emergentes” – viram as costas e se tornam vendedores líquidos, a equação quebra. A demanda cai. Assim, para atrair novos compradores, os EUA são forçados a oferecer juros mais altos. Juros mais altos significam que o custo para servir essa dívida monstruosa explode, consumindo uma fatia cada vez maior do orçamento federal, e estrangulando qualquer possibilidade de investimento produtivo. É um ciclo vicioso, matematicamente garantido: menos compradores → juros mais altos → custo da dívida insustentável → mais desconfiança → menos compradores.
Enquanto isso, a economia real americana mostra rachaduras estruturais que são, elas mesmas, fruto da era do dinheiro barato e da dívida fácil.
O colapso iminente do setor imobiliário comercial, com um rombo estimado em US$ 8,5 trilhões, não é um acidente isolado. É a materialização do risco tomado quando bilhões foram emprestados a taxas irrisórias, para construir um mundo de escritórios e shoppings, que a era pós-pandemia e o comércio eletrônico tornaram obsoletos.
Centenas de bancos regionais americanos têm exposição a este setor que supera em 300%, 400% ou 500% o seu capital próprio. Eles estão tecnicamente quebrados, sustentados apenas por regras contábeis que permitem esconder perdas.
Quando o “muro de vencimentos” de 2026 chegar – quase US$ 1 trilhão em empréstimos a vencer –, a onda de inadimplências será o gatilho, que transformará uma crise de liquidez em uma crise de solvência sistêmica.
O Fundo Garantidor de Depósitos, com seus US$ 128 bilhões, será um balde de água num incêndio florestal. A única saída será a impressão maciça de mais dólares pelo Federal Reserve, um remédio que, no longo prazo, apenas acelerará a desvalorização da moeda e confirmará os piores temores dos detentores estrangeiros de dólares.
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É neste cenário de fragilidade doméstica extrema, que o movimento coordenado do BRICS age como um catalisador poderoso. O bloco não está causando o colapso; está se antecipando e se protegendo dele, enquanto a sua fuga acelerada aprofunda as fissuras.
A UNIT lastreada em ouro surge como o porto seguro logicamente superior, em um mundo onde a confiança no dólar fiduciário se esvai. É a antítese do sistema atual: enquanto o dólar pode ser inflado infinitamente por um clique no teclado do Fed, a tabela periódica não pode ser inflacionada. A escassez geológica do ouro é o limite à arrogância monetária.
Portanto, a “tempestade perfeita” não é uma metáfora alarmista, mas uma descrição técnica. De um lado, uma superpotência endividada até a medula, com seu sistema bancário à beira do precipício, e a confiança em sua moeda erodida por ações geopolíticas que transformaram o dólar em arma – e, portanto, em risco. Do outro, um bloco de nações que, aprendendo com a história, executa friamente o “êxodo silencioso” descrito nos padrões cíclicos de colapso de impérios. Eles vendem os ativos de papel do império em declínio, e acumulam o ativo real que sobreviveu a todos os impérios.
O lançamento do BRICS Pay e da UNIT é a inauguração do novo destino para esse capital fugitivo. É a construção do próximo centro financeiro, assim como o capital fugiu da Espanha para a Holanda, e depois para a Inglaterra, e depois para os Estados Unidos.
O resultado, a médio e longo prazo, é quase uma certeza aritmética: o dólar perderá, de forma irreversível, seu status de moeda de reserva global única.
Uma nova ordem multipolar monetária emergirá, com a UNIT, o yuan, o euro e talvez outras referências dividindo o espaço. O ouro, como base última de valor, verá seu preço nominal disparar, não porque o metal mude, mas porque o papel-moeda usado para comprá-lo se deteriora.
O Brasil, a Rússia, a Índia, a china, a África do Sul, o Egito, a Arábia Saudita e os demais países do BRICS+, ao participarem ativamente desta reestruturação, deixam de ser meros “credores passivos” para se tornarem “gestores ativos de sua riqueza“.
A compra de ouro e a venda de treasuries não são apostas contra os EUA, mas apostas a favor da própria soberania e da construção de um futuro, onde o poder de barganha não está mais centralizado em Washington.
A lição final é dura, mas clara: na história do dinheiro, a confiança é um bem não renovável. Quando é esbanjada e usada como arma, ela se esvai. E quando se esvai, o dinheiro inteligente – aquele que move impérios – não faz discursos. Ele simplesmente se levanta e vai embora, em silêncio, carregando consigo o futuro. O BRICS Pay é a prova de que a mudança já aconteceu. O mundo só está, agora, começando a ouvir o estrondo tectônico, que esses movimentos representam.
Esse artigo foi baseado em:
- https://www.cartacapital.com.br/opiniao/do-pix-ao-brics-sistemas-de-pagamento-e-geopolitica-global/
- https://www.poder360.com.br/poder-economia/brasil-aumenta-reservas-de-ouro-em-33-apos-4-anos-sem-aquisicoes/
- https://youtu.be/K5eRYCPl5-k?si=j80MB3Eex2Zj0wF7,
- https://youtu.be/62_X4er_x24?si=X1v6yrr-WeuH6H79,
- https://youtu.be/XnCP0bfz5lA?si=t5lZ7_bOYGOkU5tP,
- https://youtu.be/9sejptfPumc?si=00D3P1lbdGUqg7SV,
- https://youtu.be/2wZ3AGuEIsE?si=umnRwA26YcUDa8OX,
- https://youtu.be/o1KxL5–ows?si=sFcZUR9yqwT9R-d3,
- https://youtu.be/rc4TGH7r-ew?si=fUVOZRiCNohdhyv0