Internacional, Geopolítica
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Por PolitikBr I Brasília, Em 01/02/2026, 19h:59, leitura: 6 min
Editor: Rocha, J.C.
Da captura de Maduro à disputa pela narrativa
O anúncio recente de uma anistia geral pelo governo interino de Delcy Rodríguez não representa nem um recuo e nem um gesto de conciliação ingênua. Se trata de uma jogada geopolítica refinada, inserida na mesma disputa central: quem detém a legitimidade para definir o que é democracia, justiça e soberania.
Se, no imediato pós-sequestro, Caracas respondeu com resistência jurídica e reforço defensivo, agora avança para um terreno mais sensível e eficaz — o simbólico e o moral.
A iniciativa atinge diretamente o eixo da narrativa construída por Washington para justificar a sua intervenção: a acusação de que Maduro seria chefe de uma quadrilha de traficantes de drogas – acusação risível – e a Venezuela um Estado autoritário dedicado à perseguição sistemática de opositores.
Na verdade, todos sabem porque Trump sequestrou Maduro e vem coagindo a Venezuela: retomar o controle, a médio/longo prazos, da exploração e exportação do petróleo da Venezuela, pelas empresas dos EUA; e expulsar, tanto a Rússia quanto a China, da América Central e Latina, que Trump considera o “quintal” da casa deles. O aperitivo dessa bandalheira foi o furto descarado de 50 milhões de barris de petróleo venezuelano, transformando os EUA em um Estado bucaneiro. Aliás, não é a primeira vez. Eles já cansaram de fazer isso e ainda fazem, furtando petróleo da Síria.
A anistia como mensagem interna e externa
O anúncio de Delcy Rodríguez foi feito em um ambiente cuidadosamente escolhido. Em discurso no Supremo Tribunal de Justiça, a presidente apresentou a proposta de uma lei de anistia geral, cobrindo todo o período de violência política desde 1999 até o presente. A formulação revela uma intenção dupla: pacificação doméstica e legitimação internacional.
A proposta da presidente, no entanto, ainda dependente de aprovação parlamentar, e exclui crimes como homicídio, tráfico de drogas, corrupção e graves violações de direitos humanos.
Essa delimitação é estratégica. Ao separar “violência política” de crimes comuns e atrocidades reconhecidas internacionalmente, o governo busca evitar a acusação de impunidade total e apresentar a medida como compatível com parâmetros jurídicos minimamente aceitáveis no plano global.
O gesto não se limita à letra da lei. Em paralelo, foi anunciado oficialmente em 30 de janeiro de 2026 o fechamento definitivo de El Helicoide, sede do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (SEBIN) em Caracas.
A medida faz parte de uma profunda reorganização política após a captura de Nicolás Maduro. O El Helicoide era símbolo internacional da repressão política.
A promessa de sua conversão em um centro social, cultural e esportivo tem forte carga simbólica: não apenas desativa um espaço físico, mas tenta desmonta um ícone central da narrativa acusatória contra o Estado venezuelano.
O Helicoide, os presos políticos e o cálculo simbólico
Segundo dados da ONG Foro Penal, a Venezuela mantém pouco mais de 700 presos políticos, muitos deles vinculados ao Helicoide. Desde 8 de janeiro,cerca de 300 já foram libertados em um processo gradual.A anistia geral surge como o passo final para neutralizar uma das principais bandeiras utilizadas por Washington e os seus aliados em organismos multilaterais.
Ao reconhecer publicamente a necessidade de um “novo sistema de justiça”, Delcy Rodríguez admite, ainda que de forma indireta, falhas estruturais do modelo atual. Essa admissão não enfraquece a estratégia; ao contrário, reforça a lógica do movimento. Ao assumir parte da crítica e propor uma solução interna, o governo interino desloca o debate do campo da coerção externa para o da soberania institucional.
Leia ainda:
O Sequestro de Maduro e a Agonia do Império
A Geopolítica do Espetáculo: O Conselho Imperial da Paz de Trump
Jiu-jitsu político contra a retórica imperial
A anistia não é uma política isolada de reconciliação nacional. Ela funciona como uma resposta estratégica direta à acusação central dos Estados Unidos. A retórica norte-americana, especialmente após 3 de janeiro, se sustentou na ideia de que Maduro liderava uma ditadura narcoterrorista empenhada em eliminar seus opositores.
Ao anunciar uma anistia ampla e fechar o principal símbolo da repressão, o governo venezuelano executa um movimento clássico de jiu-jitsu político: absorve a crítica, reconhece parte do problema e devolve a pressão sob a forma de iniciativa institucional soberana.
O gesto de Delcy ainda tem o mérito de dividir a oposição a seu governo, atraindo setores moderados dispostos a aceitar a distensão e isolando os grupos que insistem na radicalização.
No plano global, a iniciativa fornece munição diplomática a parceiros estratégicos como Rússia, China e Irã, além de fóruns como o BRICS+. O argumento é simples: enquanto Caracas adota soluções políticas e legais, Washington abusa com coerção e força.
Democracia, direitos humanos e a batalha pela legitimidade
O objetivo final da estratégia de Delcy parecer ser o de retirar dos Estados Unidos o monopólio discursivo sobre democracia e direitos humanos. A mensagem é direta: a Venezuela não precisa de uma intervenção externa, ilegal e violenta para resolver seus conflitos políticos. Segundo essa narrativa, o país estaria conduzindo esse processo por meio de suas próprias instituições democráticas.
Se essa leitura ganhar espaço, a posição norte-americana, provavelmente, irá ficar insustentável até para os seus parceiros e vassalos europeus, deixando Trump ainda mais isolado, enquanto o mundo vê, cada vez mais, os EUA como um Estado subversor da ordem internacional.
A contradição dos EUA se torna difícil de sustentar: como justificar o sequestro de um presidente, à revelia do direito internacional, em nome da democracia, quando o governo instalado adota medidas que apontam para a liberalização política?
Da resistência à ofensiva diplomática
A postura venezuelana, portanto, evoluiu. Se antes a resposta foi predominantemente defensiva, agora assume a forma de uma ofensiva diplomática, centrada na disputa pela legitimidade. A anistia geral é a principal arma dessa fase.
O resultado ainda é incerto. A oposição histórica pode rejeitar a medida como manobra cínica. Os Estados Unidos podem tratá-la como encenação. Ainda assim, no tribunal difuso da opinião pública global, o movimento tem potencial real de desgaste da narrativa estadunidense.
A agonia do período da hegemonia americana não se manifesta apenas quando a força falha, mas quando a sua –pretensa – superioridade moral é desmontada como farsa e usada contra ela.
O fechamento do Helicoide e a proposta de anistia são mais do que reformas institucionais: são tijolos na construção de um muro de legitimidade, que Caracas espera erguer para proteger a sua soberania e, ao mesmo tempo, expor o constrangimento de seus acusadores.
O mundo multipolar não se constrói apenas com novas alianças militares ou econômicas, mas também com essa disputa paciente, palavra por palavra, pelo direito de contar a própria história.
🔎 Fontes e leituras de apoio
- É um julgamento absolutamente político, diz procurador sobre caso Maduro nos EUA
- O sequestro de Maduro e a agonia do império
- Presidenta interina da Venezuela anuncia lei de anistia geral
- https://pt.wikipedia.org/wiki/El_Helicoide
- https://www.abc.net.au/news/2026-01-31/political-prisoners-venezuela/106291540