ICE: A Polícia Fascista de Trump

Internacional, Geopolítica

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Por PolitikBr I Brasília, Em 27/01/2026, 19h:58, leitura: 7 min

Editor: Rocha, J.C.

A morte do enfermeiro Alex Pretti, executado a tiros por agentes do ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos) em Minneapolis, não é um incidente isolado. É o ponto culminante de uma estratégia deliberada. A materialização brutal de uma política de estado que transformou uma agência de imigração em uma força de polícia política, violenta e acima da lei.

O que se desenrola em Minnesota é mais do que um protesto; é um microcosmo da fratura social e constitucional que Donald Trump alimenta, um experimento autoritário onde imigrantes — e qualquer um que se pareça com a ideia que fazem de um — são caçados.

As imagens não mentem: enquanto a narrativa oficial fala em “suspeito armado que reagiu violentamente”, os vídeos testemunham o contrário. Mostram um homem cercado, dominado por agentes encapuzados e, então, executado com 10 tiros, como um animal.

Esta dissonância entre o fato gravado e o relato oficial é a assinatura do novo modus operandi: a verdade é o que o poder declara. A realidade, um detalhe incômodo a ser apagado pela retórica e pela ocultação de provas.

Nos Estados Unidos o ICE tem licença para matar, como no filme de James Bond: Licença para matar

A operação em Minneapolis, que já vitimou também Renée Goode semanas antes, é a face mais visível de uma máquina bem azeitada.

A nomeação inicial de Gregory Bovino, de perfil ostensivo e agressivo, para comandar as ações do ICE na cidade, e a nível nacional, não foi um acidente. Foi uma declaração de intenções. Contudo, a comoção nacional gerada pelas mortes filmadas — e pela gritante contradição das imagens — forçou um recuo tático. A Casa Branca, sensível ao termômetro eleitoral, substituiu Bovino por Tom Homan, um homem de confiança de Trump e arquiteto de suas políticas de imigração mais duras no primeiro mandato.

A mudança é de figura, não de função. Homan é associado aos “melhores números” de Trump em imigração, um eufemismo para a queda histórica de travessias na fronteira com México, alcançada por meio de um aparato de terror e dissuasão.

Trocar o general no campo de batalha não significa parar a guerra; significa apenas adequar a tática ao momento político.

O discurso da administração Trump sobre os incidentes em Minnesota revela a profundidade do cinismo. Enquanto assessores como Stephen Miller rapidamente estigmatizaram as vítimas como “terroristas domésticos”, a porta-voz, diante da avalanche de evidências visuais, recuou para um “deixar que os fatos falem”. É um jogo dúbio: se solta os cães da retórica inflamada para mobilizar a base, e depois se apela a um falso rigor processual para acalmar a indignação nacional.

Hoje Trump declarou: Não acho que o homem morto a tiros agiu como “assassino” . A verdade é que Trump e a sua política violenta de repressão e deportação de cidadãos não americanos é a responsável por tudo que está acontecendo.

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O governador de Minnesota, Tim Walz, democrata, um adversário público de Trump, relatou que, após conversas, ambos pareciam “na mesma página”. Esta trégua retórica, no entanto, esconde uma crise profunda: as investigações estão paralisadas, com investigadores estaduais impedidos de acessar informações federais. Quem investiga os federais? Eles mesmos? Este é o cerne do estado policialesco: a auto contenção é uma ilusão.

A escalada de Trump e do ICE, porém, encontrou um limite inesperado no Congresso. A ameaça de senadores, de ambos os partidos, em rejeitar o orçamento governamental — que aloca US$ 170 bilhões para o Departamento de Segurança Nacional, tornando o ICE a maior agência federal — é um raro freio ao poder absoluto de Trump.

O fantasma de um shutdown em ano eleitoral, depois do recorde de 43 dias no final do ano passado, é real.

Trump governa hoje por ordens executivas e com um Congresso complacente, onde as suas medidas só são barradas, quando são, pelas cortes inferiores — para depois, frequentemente, serem invalidadas pela Suprema Corte, de maioria conservadora. Perder a maioria no Legislativo mudaria radicalmente este jogo, forçando um freio de arrumação que hoje não existe. A violência do ICE, portanto, não é apenas uma questão de direitos humanos; é uma ameaça à governabilidade e às próprias regras do jogo democrático.

Em Minneapolis, a resposta popular foi além dos protestos. Comunidades, aterrorizadas, se organizam em milícias de vigilância para alertar sobre a presença do ICE, e há mesmo um revival dos Panteras Negras, armados e adaptados ao estado de exceção migratório. Grande número deles, certamente de latinos.

A violência gera autodefesa, e em um país com mais armas do que pessoas, o cenário apontado pelos analistas — de um conflito interno beirando uma guerra civil — deixa de ser alarmismo para se tornar uma projeção lógica.

O ICE age com as características da Gestapo: prisões arbitrárias baseadas em sotaque (como o caso documentado pela CNN de um cidadão americano de origem mexicana detido por isso), invasões de domicílio sem mandado — um pilar sagrado da Constituição desde a Carta de Direitos da Virgínia de 1776 — e execuções sumárias.

A tese, defendida pelo governo Trump, de que o ICE pode invadir casas sem autorização judicial não é apenas uma violação legal; é um ataque ao núcleo do pacto republicano. É a institucionalização do arbítrio.

Trump, ao perdoar os insurgentes do Capitólio e agora ao incitar e depois tentar gerenciar a violência de sua milícia imigracionista, sinaliza claramente: para certos fins, a violência de seus apoiadores é tolerada, quando não incentivada.

A pergunta é: “quem vai parar Trump?”. A resposta talvez esteja na convergência frágil entre a revolta das ruas, a pressão econômica de greves — como a que paralisou Minneapolis — e a rara insubordinação de um Congresso, que vê seu poder usurpado por um presidente sem medidas e autoritário.

A crise de Minneapolis é um espelho. Reflete a transformação de uma agência federal em braço armado com uma agenda fascista. A da substituição do império da lei pelo império da força e da brutalidade.

A execução de Alex Pretti não foi um “erro”. Foi a política de Trump sendo executada ao pé da letra.

O recuo tático do presidente, admitindo ter havido um assassinato, à sangue frio, de um americano raiz; trocando comandantes e suavizando o discurso, é o reconhecimento de que até mesmo para um projeto autoritário, há um limite de comoção pública que não se pode ignorar em ano eleitoral.

Enquanto o ICE agir como polícia política, enquanto a caça às pessoas for oficialmente sancionada, Minneapolis não será o fim, mas um capítulo sombrio de um manual que o mundo já leu antes, em outras línguas, sob outras siglas sinistras.

Esse artigo foi baseado em:

  1. Vídeo da execução de Alex Pretti: https://youtu.be/N5GN1kY3wOI?si=sxnHNhr8ygZyJ3ND
  2. Vídeo de protestos e tensões em Minneapolis: https://youtu.be/eUgwlco3siY?si=WXOp8-De2YKMpVwZ
  3. Notícia: “Trump acusa Minnesota de incitar a insurreição após homem ser executado por agentes da imigração”: https://noticiabrasil.net.br/20260124/trump-acusa-minnesota-de-incitar-a-insurreicao-apos-homem-ser-executado-por-agentes-da-imigracao-47348503.html
  4. Vídeo sobre a crise: https://youtu.be/fu1BqXDLdFw?si=jqjxElFhgwM5fd8J
  5. Perfil da vítima Alex Pretti: https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2026/01/7340038-enfermeiro-de-veteranos-de-guerra-quem-era-o-homem-morto-pelo-ice-nos-eua.html
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  8. https://en.wikipedia.org/wiki/Licence_to_Kill

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