Turbulência no “Santo Mundo” Evangélico: Damares x Mafalaia

Nacional, Geopolítica, Economia, Corrupção

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Por PolitikBr I Brasília, Em 16/01/2026, 15h:55, leitura: 6 min

O Desafio Aceito: Quando a Guerra Santa Vira Batalha Judiciária

A cena é tão surreal quanto elucidativa.

De um lado do ringue, o pastor Silas Malafaia, radical, voz estridente e com um império midiático construído na direita evangélica.

Um autêntico exemplo de sucesso da “Teologia da Prosperidade”, – assim como outros tão os mais famosos, como o bispo Edir Macedo, o pastor R.R. Soares e outros tantos, menos cotados e ricos, – lança um desafio em tom de praça pública: “Ou a senhora dá os nomes, ou a senhora é uma leviana linguaruda!“. Aos berros, claro. Marca registrada de Malafaia.

Do outro, a senadora Damares Alves, outrora ministra da Família no governo Bolsonaro e ícone do mesmo campo, agora relatora de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPMI) que expõe as vísceras de um esquema de fraude bilionário.

Desafio aceito, a resposta da senadora Damares à Malafaia não foi um sermão ou uma defesa doutrinária. Foi uma lista. Nomes, sobrenomes e denominações onde se lê a influência neopentecostal no Brasil, agora manchada pelas escancaradas – termo na moda – evidências de fraude contra a Previdência e lavagem de dinheiro.

Este não é um mero racha político. É o momento em que a narrativa de pureza moral, vendida como lastro para a conquista do poder, encontra seu mais duro contraditor: o “batom na cueca”. A evidência financeira, o relatório, o “RIF” (Registro de Intermediação Financeira), que não mente. Revela a podridão de tudo isso.

O resultado do embate é um roteiro perfeito da hipocrisia em desespero. Malafaia, ao sentir o cerco se fechar, não por pressão de “inimigos” seculares, mas pela falência moral de seu próprio ecossistema, apela para a intimidação e para a teologia de barricada: “Se a senhora não mostrar com provas e os nomes, a senhora não é digna nem de ser evangélica“.

A senadora, por sua vez, responde à Malafaia com a frieza e a tranquilidade de quem tem atas e planilhas: “Nós estamos identificando igrejas nos esquemas de fraudes aos aposentados“.

A fala, dada em entrevista ao SBT, foi além da CPMI do INSS e atingiu a base do próprio governo Bolsonaro que a catapultou ao poder, ao qual ela agora se refere, em revelador lapso, como “um momento muito ruim para a nação“.

O círculo se fecha com ironia: a guerreira armada com discursos de ideologia da fé, se transforma naquela que desnuda. Que expõe os dados da materialidade corrupta por trás do projeto de poder que serviu: o governo Bolsonaro.

Mas a lista divulgada por Damares é apenas a ponta do iceberg. Da sujeira. Da canalhice. Da ganância desenfreada.

No calor dos debates na CPMI, outras vozes, como a do deputado Rogério Correia (PT-MG), trouxeram à luz um emaranhado de transações financeiras que pintam um quadro ainda mais complexo e sombrio.

Com base em RIFs apreendidos, Correia detalhou um fluxo de milhões de reais, originários de investigados por fraudes ao INSS, direcionados para uma rede específica de igrejas e pastores. Os nomes citados em plenário formam um who’s whoquem é quem – de parte da elite gospel brasileira: 

  • Igreja Deus é Fiel Church;
  • Pastor Péricles Albino (Igreja Campo de Antióquia);
  • Pastor André Fernandes (Igreja Batista da Lagoinha);
  • Pastor André Valadão (Igreja Adoração Church);
  • César Bellagio (Igreja Sete Church);
  • Assembleia de Deus Ministério do Renovo;
  • A família Câmara (ligada à Igreja Boas Novas); e o
  • Banco Clave Forte, este último um banco digital de origem confessional.

As transações espúrias, na casa das centenas de milhares e milhões de reais, eram justificadas como “dízimos“, mas, como questionou o deputado do PT: eu não acho que isso aqui seja apenas uma contribuição de dízimo“. A suspeita é de que serviam à lavagem de recursos desviados dos cofres públicos.

Este sistema, corrupto, não operava no submundo, mas à luz do púlpito. Onde se prega a fé.

Empresários investigados, como Felipe Macedo, eram celebrados em cultos na “Igreja Sete Church“, onde testemunhavam seus “milagres financeiros“. Festivais gospel no Allianz Parque, com ingressos VIP a R$ 3.500, eram patrocinados por empresas do grupo “Golden Boys“, também alvo das investigações.

A promiscuidade atingiu seu ápice com a criação de instituições financeiras próprias, como o banco digital “Clave Forte“, fundado pelo pastor André Valadão, com sede na Igreja da Lagoinha, e suas intrincadas relações com o Banco Master, cujo controlador, Daniel Vorcaro, é velho doador de campanhas e projetos dessas mesmas denominações.

Como denunciou o deputado Henrique Vieira (PT): “a relação entre a família Vorcaro e a igreja (da Lagoinha) é antiga. Doações milionárias, a compra de uma emissora de TV e por aí vai”. A fé, aqui, é o ativo que lastreia o conglomerado.

O que a briga pública entre Malafaia e Damares revela, portanto, não é a “corrupção de algumas maçãs podres“. Ela expõe a falência do modelo empresarial-missionário que domina parte significativa do evangelicalismo político brasileiro.

Um modelo que, para se expandir e financiar as suas emissoras, templos-sede, parques e bancos, necessita de um fluxo constante de capital que, aparentemente, a fidelidade dos fiéis não era suficiente para garantir.

A fraude ao INSS, com seu mecanismo cruel de fraudar aposentados vulneráveis para descontos ilegais em suas míseras aposentadorias e pensões, surgiu como uma fonte ilegítima e voraz.

A lavagem de dinheiro, por sua vez, foi a engrenagem que permitiu injetar esse capital ilícito no circuito legítimo do império gospel, o legitimando sob o manto sagrado do dízimo e da oferta.

Damares Alves, ao aceitar o desafio de Malafaia e divulgar a lista, pratica um ato de autopreservação política em um cenário pós-Bolsonaro, tentando se reposicionar como uma “combatente da corrupção“, mesmo que dentro de sua própria casa.

Malafaia, ao berrar, defende não a fé, mas o império – uma estrutura de poder, influência e renda que vê suas fundações serem questionadas por uma de suas próprias arquitetas.

A tragédia, deles, é coletiva.

É a exposição final de que o projeto de “conquistar a nação para Cristo” se degenerou ou sempre foi degenerado, só não exposto à claridade. À luz dos fatos nus e crus.

Uma rapina sob o disfarce da fé. O furto descarado do muito pouco que gente humilde recebe, fruto de anos de labuta, em aposentadorias e pensões pífias, mesmo assim rapinadas.

A senadora Damares deu nome a alguns dos bois. Mas nós nos perguntamos quantos bois haverá ainda mais que usufruíram do alheio? Nessa ciranda de fraude perversa..

Esse artigo foi baseado em:

  1. Brasil 247. “Após críticas de Malafaia, Damares divulga lista de igrejas citadas na CPMI do INSS”. Disponível em: https://www.brasil247.com/brasil/apos-criticas-de-malafaia-damares-divulga-lista-de-igrejas-citadas-na-cpmi-do-inss
  2. Estado de Minas. “Damares diz que CPMI identificou grandes igrejas em esquema de fraudes”. Disponível em: https://www.em.com.br/politica/2026/01/7332599-damares-diz-que-cpmi-identificou-grandes-igrejas-em-esquema-de-fraudes.html
  3. ICL Notícias. “Deputado, Malafaia e Damares na CPMI do INSS”. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/deputado-malafaia-e-damares-na-cpmi-do-inss/
  4. Cobertura em vídeo do desdobramento das denúncias. Disponível em: https://youtu.be/Yze1BBjOVOs?si=iEV_z5FZfirWt0kI

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