Nacional, Geopolítica, Economia, Corrupção
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Por PolitikBr I Brasília, Em 14/01/2026, 16h:42, leitura: 7 min
Editor: Rocha, J.C.
A liquidação extrajudicial do Banco Master foi decretada pelo Banco Central do Brasil (BC) em 18 de novembro de 2025. A medida foi motivada por uma grave crise de liquidez, comprometimento da situação econômico-financeira e violações às normas do sistema financeiro nacional, após suspeitas de que o banco teria fabricado carteiras de crédito inexistentes, comercializando ativos sem lastro e captando recursos com títulos de alto rendimento.
A liquidação do Banco Master marcou o fim de uma instituição com mais de 50 anos de história e que foi reconfigurado por mudanças de estratégia que ampliaram a exposição a riscos.
A Justiça dos EUA reconheceu a liquidação do Banco Master e bloqueou o ativos do banco em decisão que valida o processo brasileiro, em território norte-americano.
Hoje (14/01) a Polícia Federal (PF) realizou a segunda fase da Operação Compliance Zero para investigar, novamente, o Banco Master.

As autoridades policiais apuram a suposta ocorrência da prática de crimes de organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição financeira, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro.
Ao todo, 42 mandados de busca e apreensão, expedidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF), estão sendo cumpridos em São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.
Também há medidas de sequestro e bloqueio de bens e valores que ultrapassam os R$ 5,7 bilhões.
Entretanto, a liquidação extra judicial do Banco Master, longe de ser um ato de saneamento do sistema financeiro nacional, se transformou no epicentro de uma batalha que expõe, com rara clareza, os mecanismos de funcionamento de uma poderosa rede de interesses. Esta rede, que atravessa o financeiro, o político e o midiático, não hesitou em lançar mão de todos os artifícios – dos mais grosseiros aos mais sofisticados – para tentar obstruir a justiça, intimidar autoridades e confundir a população. O que estava em jogo não era a sobrevivência de um banco, mas a capacidade do Estado de coibir uma fraude histórica, conforme classificou o Ministro da Fazenda Fernando Haddad, e a tentativa desesperada de poderosos agentes de se safarem ilesos.
Fernando Haddad, foi um dos primeiros a perceber a dimensão do furacão declarou: estamos diante do que pode ser “a maior fraude bancária da história do país”.
Haddad saiu ainda em defesa pública do BC, dando “todo o respaldo institucional da Fazenda”. A declaração não era retórica; era um reconhecimento de que o Banco Central estava sob ataque.
O primeiro front dessa guerra foi aberto nas redes sociais.
Como revelado por reportagens como a do Jornal do Brasil – “Febraban identifica postagens pagas, de ínfluenciadores de direita, contra Banco Central e a liquidação do Master” – e do Diário do Centro do Mundo – “BC sofre ofensiva coordenada na web após liquidação do Master, diz levantamento“.
Destacamos para fins de contexto um trecho da matéria do Diário do Centro do Mundo:
“…O vereador de Erechim (RS), Rony Gabriel (PL), declarou que foi procurado em dezembro por uma empresa que se apresentava como responsável por “gerenciamento de reputação para um grande executivo”. Segundo ele, havia previsão de contrato e pagamento em troca da produção dos vídeos.
Rony Gabriel disse que a proposta previa conteúdos com a narrativa de que o Banco Master seria vítima do Banco Central.“
E a trama teria partido do próprio Vorcaro, segundo a PF, que identificou haver indícios de que o dono do Master teria ordenado uma campanha coordenada de desinformação.
Influenciadores digitais, de ambos os espectros ideológicos (direita e esquerda), foram contratados para, quase que simultaneamente, publicar vídeos atacando a conduta do Banco Central.
No celular de Vorcaro, apreendido durante a Operação Compliance Zero, a PF encontrou mensagens com ordens diretas para que auxiliares coordenassem as ações dos influenciadores digitais.
Foram mapeados cerca de 40 perfis, que teriam recebido roteiros prontos e vídeos de exemplo. Relatos indicam contratos de até R$ 2 milhões.
Os ataques focavam na conduta do BC e de seus diretores, alegando que a liquidação da instituição financeira teria motivações políticas ou técnicas equivocadas.
A estratégia era clara: sem discutir os méritos das fraudes, se criava uma cortina de fumaça questionando a “precipitação” do BC, tentando inverter os papéis e pintar o Master como vítima.
Mas a ofensiva não ficou restrita ao mundo virtual. Enquanto os influenciadores atacavam a reputação do Banco Central, braços dentro do Estado se moviam para tentar paralisar a ação por dentro.
A figura central neste movimento, segundo as acusações, é o ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Jonathan de Jesus. Ex-deputado federal pelo Republicanos, com carreira consolidada no centrão e indicado ao TCU por Arthur Lira, Jonathan de Jesus decidiu, de forma atípica e considerada por muitos juristas como inconstitucional, interferir no processo de liquidação. Ele autorizou o início do trabalho dos técnicos do TCU no BC em despacho no dia 13, criando um clima de instabilidade e de pressão sobre a autarquia.
O Banco Central havia decidido impetrar uma interpelação judicial contra o TCU, mas acabou desistindo de recurso.
A atitude de Jonathan de Jesus, ministro, é tão grave que motivou o senador Alessandro Vieira a protocolar uma representação na Procuradoria-Geral da República (PGR).
O senador classificou a atuação do ministro do TCU como “absolutamente inconstitucional”, alertando que ela colocava em risco a credibilidade do Banco Central e do Sistema Financeiro Nacional.
Se a atuação no TCU é preocupante, a situação no Supremo Tribunal Federal (STF) beira o escandaloso. O ministro Dias Toffoli, relator do inquérito que apura as fraudes do Banco Master no STF, foi alvo de denúncias gravíssimas.
Como exposto pelo deputado estadual Renato Freitas e amplamente repercutido, familiares de Toffoli (irmãos e um primo) tinham negócios milionários no Paraná em sociedade com um fundo de investimentos chamado Arlin.
Acontece que esse fundo – segundo a denúncia do parlamentar – faz parte da teia de empresas usadas na fraude do Banco Master, e sua gestora, a Reage, é investigada por lavagem de dinheiro do crime organizado.
O Parlamentar frisa, na opinião dele, haver um claro conflito de interesses; tão evidente que a comunidade jurídica estranhou profundamente as decisões de Toffoli no caso: decretar sigilo máximo e, mais inusitado, determinar uma “acareação” entre o dono do banco e um diretor do BC antes dos depoimentos.
Para completar, ainda segundo Renato de Freitas, se soube que Toffoli viajou recentemente no jato particular de um dos advogados do Banco Master. Diante dessa teia de conexões, a pergunta sobre a isenção de Toffoli, para julgar o caso, se responde sozinha. Enquanto ele for o relator, a justiça no caso Master estará sob uma “nuvem de suspeita”. Palavras do parlamentar.
O que está em jogo, portanto, vai muito além de um banco. Estão em risco R$ 1,86 bilhão de fundos previdenciários de estados e municípios, dinheiro de aposentados e trabalhadores que podem simplesmente evaporar. Está em risco a credibilidade de duas das principais instituições de controle do país, o BC e o TCU. E, por fim, está em jogo a confiança mínima de que o sistema financeiro e o judiciário brasileiros funcionem com isenção e na defesa do bem comum.
A aparente tentativa de transformar esse caso em um “tapetão”, se prosperar, significará que uma fraude financeira colossal, segundo o Ministro Haddad, pode ser não apenas cometida, mas também protegida por uma rede que vai até os gabinetes mais altos dos tribunais.
O caso Master funciona como um raio-X da podridão institucional. Mostra como o dinheiro pode financiar campanhas de desinformação em massa. Mostra como cargos-chave em tribunais são ocupados por apadrinhados políticos. E mostra como a velha política do centrão pode convergir quando o objetivo é salvar a própria pele e manter os privilégios de uma elite predatória.
Esse artigo foi baseado em:
- Vídeo com declarações do ministro Fernando Haddad e denúncias sobre influenciadores: https://youtu.be/rMONYDWmN-0?si=TiTiJu2CigV8beCi
- Banco Master: da fundação em 1974 à crise de 2025 — trajetória, perfil institucional e transformação do antigo Banco Máxima – Jornal Grande Bahia (JGB)
- Polícia Federal faz nova operação contra o Banco Master | Agência Brasil
- https://www.cnnbrasil.com.br/politica/master-tcu-deve-comecar-inspecao-em-documentos-do-bc-ate-esta-quinta-feira/
- Justiça dos EUA reconhece liquidação do Banco Master e bloqueia ativos | Agência Brasil
- Análise sobre a estratégia de destruição de reputações: https://politicaemdebate.org/2025/12/29/a-lama-como-metodo-a-estrategia-perversa-da-destruicao-de-reputacoes/
- https://www.revistabusiness.com.br/noticia/3660/barueri/geral/pf-acha-no-celular-de-vorcaro-ordens-para-ataques-de-influenciadores-contra-bc-e-jornalistas.html
- Notícia sobre a decisão do TCU suspender inspeção: https://noticiabrasil.net.br/20260113/47005841.html
- Reportagem sobre a relatoria do TCU no caso Master: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/relator-do-tcu-suspendera-inspecao-no-bc-e-mantem-liquidacao-do-master/
- Reportagem da Febraban identificando campanha paga: https://www.jb.com.br/economia/2026/01/1058246-febraban-identifica-postagens-pagas-de-influenciadores-de-direita-contra-banco-central-e-a-liquidacao-do-master.html
- Levantamento sobre a ofensiva coordenada na web: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/bc-sofre-ofensiva-coordenada-na-web-apos-liquidacao-do-master-diz-levantamento/