Internacional, Geopolítica
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Por PolitikBr I Brasília, Em 12/01/2026, 10h:24, leitura: 8 min
Editor: Rocha, J.C.
O analista geopolítico e coronel reformado do Exército dos EUA, Douglas Macgregor, conhecido por suas análises francas e contundentes, não poupou palavras ao comentar o recente ataque russo que atingiu Lviv, no extremo oeste da Ucrânia, a meros 100 quilômetros da fronteira polonesa. A sua fala, mais do que uma simples avaliação militar, soa como um obituário para a estratégia ocidental no conflito. O ataque, segundo ele – e corroborado por analistas de defesa -, não foi mais uma salva de mísseis, mas um ponto final escrito em fogo e cinzas: a introdução operacional do míssil hipersônico 9M730 Oreshnik (ou “Ereshnik”) alterou irrevogavelmente o quadro militar de poder na Europa, e mesmo no mundo.
O alvo, Lviv, foi profundamente simbólico. Por anos, a região foi considerada um “santuário” logístico pelas forças da OTAN, um hub crucial e relativamente seguro para o fluxo de armas, inteligência e até pessoal estrangeiro; longe da linha de frente do conflito com a Federação Russa, no leste e sul. O ataque com o Oreshnik dissipou uma ilusória sensação de que o jogo poderia virar a favor de Kiev.
Se os russos podem atingir Lviv com um sistema hipersônico, de capacidade nuclear, contra o qual não há qualquer possibilidade de defesa, pelo uso dos atuais sistemas anti mísseis ocidentais, então todo o território ucraniano – e, por extensão, qualquer ponto da Europa – está sob a mesma ameaça existencial.
Mas o que é o Oreshnik, e por que ele causa tanta apreensão?
Diferente dos mísseis de cruzeiro ou balísticos tradicionais, o Oreshnik é classificado como um míssil balístico hipersônico. Ele tem alcance de até 4800Km, na versão atual, e opera em uma trajetória balística clássica.
O Oreshnik foi utilizado pela primeira vez, de forma experimental, contra um alvo em Dnipro em 2024, causando uma destruição sem precedentes. O Oreshnik foi disparado da Ásia Central e destruiu uma imensa fábrica de natureza metalúrgica, parte do esforço de guerra ucraniano.
A Ucrânia, para os russos, se transformou, desde o início, no laboratório ideal para avanços tecnológicos militares em todos os campos, sejam em armas a laser, robots de combate dotados de inteligência artificial, novas blindagens para tanques, camuflagens, drones terrestres e aéreos, cada vez mais mortíferos, novos sistemas de interceptação de misseis e, claro, mísseis hipersônicos. Os mais mortíferos.
O Oreshnik é um divisor de águas. Ele é dotado de 06 ogivas principais, que se dividem, cada uma, em mais 06, totalizando 36 projéteis independentes, para ataque a múltiplos alvos, em velocidade mach 10 a 12.
O míssil que atingiu Dnipro, assim como o míssil disparado contra Lviv, não usou carga explosiva. Não foi necessário. O efeito destruidor veio da energia cinética da ogiva – Ec = mv²/2, onde ‘m’ é a massa da ogiva e ‘v’ é a sua velocidade – do projétil (projétil cinético). O tempo estimado para o impacto no solo, após a reentrada da ogiva a 100 km de altitude, é de aproximadamente 27,69 segundos. Ou seja, os últimos 10Km até atingir o alvo, leva menos de 3 segundos. É como um relâmpago. É assim que os vídeos mostram. Relâmpagos. 36. Depois clarão e fogo.
Para fins de comparação, considerando-se a ogiva vazia (impacto cinético ) como tendo massa média de 150Kg, no ponto da explosão – velocidade terminal de 13.000Km/h-, o poder destrutivo foi de aproximadamente 234 kg de TNT detonadas em milésimos de segundo, e concentradas em um único ponto sólido, sem a dissipação de uma onda de choque aérea. A temperatura após o impacto atingiu mais de 7.000oC, muito superior à temperatura da superfície do sol, que é de 5.500oC.
Considere que à 7.000°C o aço não apenas funde (o que ocorre a 1.565°C), ele se vaporiza instantaneamente. Portanto, no ponto de impacto, o metal se transforma em um plasma superaquecido, antes mesmo de ter tempo de escorrer como líquido.
Mesmo um bunker super reforçado, com espessas chapas de aço, seria pulverizado por um processo de erosão hidrodinâmica, onde o metal do bunker flui como um líquido e se dissipa como gás sob a pressão e o calor inimagináveis do impacto.
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A mídia estatal russa, em tom de puro deboche, lembra que bastariam 11 minutos para o Oreshnik chegar a uma base aérea na Polônia, e 17 minutos para atingir Bruxelas, sede da OTAN. Se ele fosse disparado de Kaliningrado ou da Bielo Rússia, parceira estratégica de Moscou, esse tempo seria muito menor — um recado explícito à Europa e aos EUA sobre os riscos insanos de qualquer escalada. Não há defesa conhecida para esse míssil. Ponto. É quebra de paradigma. Física bruta contra tecnologia convencional. A defesa antimíssil ocidental, onerosa e alardeada como escudo – o Patriot americano ou o IRIS-T alemão – , foi reduzida, diante do Oreshnik, nas palavras de Macgregor, a um “brinquedo de criança“.
O timing do ataque em Lviv também pode ser visto como uma resposta calculada. Especialistas apontam que Moscou vinha demonstrando contenção relativa em atingir certas infraestruturas profundas no oeste, possivelmente para evitar uma escalada direta com a OTAN.
A tentativa terrorista de Kiev em assassinar Putin, ataque esse planejado pelo MI-6 e pela CIA, entretanto, deu toda a legitimidade a Putin em atacar Lviv. Não foi um recado dirigido a Zelensky. Foi um claro aviso dirigido às lideranças belicistas da Inglaterra, França, Polônia, Alemanha, em especial – a resposta russa veio de forma brutal e pedagógica.
O ataque a Lviv com o Oreshnik foi, antes de tudo, um passo em uma escalada controlada. A Rússia notificou Washington antes do lançamento, um protocolo para evitar um mal-entendido nuclear, demonstrando, paradoxalmente, um nível de “profissionalismo” na gestão de crises que Macgregor afirma faltar aos “crianções em Washington“. A mensagem foi clara: “Nós podemos retaliar de forma esmagadora e vocês não podem nos impedir. Pensem bem no próximo passo“.
Cabe lembrar que Moscou tem, de seu arsenal de mais de 6000 armas nucleares, 2000 táticas, ao passo que todo o ocidente tem 200.
O ataque a Lviv não foi um evento isolado. Ele fez parte de uma onda coordenada massiva – com drones, mísseis de cruzeiro e balísticos – que visou exclusivamente a infraestrutura energética ucraniana. O objetivo declarado é a guerra de desgaste, uma estratégia clássica de aniquilação do potencial logístico e moral do inimigo.
Macgregor faz uma analogia histórica: o General Sherman fez em Atlanta o que os Aliados fizeram na Alemanha em 1944. Sem eletricidade, não há aquecimento em um inverno rigoroso, não há água encanada, não há transporte público e, crucialmente, não há como mover a logística militar em grande escala por ferrovias eletrificadas. A capital, Kiev, com meio milhão de lares no escuro e no frio, se tornou um símbolo de um Estado que perdeu a capacidade de sustentar a sua própria população e a sua máquina de guerra. A Ucrânia se transformou, nas palavras ácidas do coronel, em um “cadáver econômico“, mantido vivo apenas por um “suporte de vida ocidental“, que consiste em remessas de dinheiro e armas.
Aqui reside a crítica central de Macgregor e de analistas que seguem esta linha: a hipocrisia seletiva. Ele lembra que quando os EUA e a OTAN desmantelaram a rede elétrica da Sérvia em 1999 ou a do Iraque em 2003, a ação foi vendida à opinião pública como “degradação de comando e controle”. Quando a Rússia, após quase quatro anos de conflito, adota tática similar, é imediatamente acusada de cometer “crime de guerra” pela liderança europeia. Essa dissonância retórica, para ele, mina a credibilidade moral do Ocidente e ignora a natureza brutal e assimétrica da guerra moderna.
O futuro desenhado pelo Oreshnik é sombrio. O míssil pode carregar ogivas convencionais ou operar em modo de impacto cinético, mas o seu projeto é claramente nuclear. O destacamento de Oreshnik´s que será estacionado na Bielorrússia coloca capitais como Londres, Varsóvia, Berlim ou Paris a minutos de um ataque inevitável. Isso não é apenas uma vantagem militar; é uma redefinição geopolítica. A Europa é colocada sob a sombra direta do poder de fogo russo, anulando décadas de investimentos em “escudos” defensivos.
A conclusão imposta pela análise é dura. A guerra por procuração do Ocidente Coletivo contra a Rússia atingiu o seu limite lógico. O Oreshnik é o símbolo desta assimetria insustentável. Ele sinaliza que Moscou não apenas pode continuar o conflito indefinidamente, mas pode escalá-lo ainda mais, a um nível da completa destruição do Estado ucraniano. O fim do jogo, portanto, não será uma vitória militar ucraniana no campo de batalha – algo fantasioso –, mas o colapso interno da Ucrânia e uma rendição sob termos draconianos: neutralidade, desmilitarização e o fim de sua condição de proxy da OTAN.
A insistência ocidental em “encher um poço sem fundo“, esperando por um milagre, é qualificada por Macgregor como uma “morte cerebral estratégica“. O Oreshnik foi o balde de água gelada que trouxe a realidade de volta. A ilusão de que o Ocidente poderia travar uma guerra às portas da Rússia, sem sofrer consequências catastróficas, terminou.
Esse artigo foi baseado em:
- https://youtu.be/ckC2Tzfx4zA
- https://noticiabrasil.net.br/20260110/em-caso-de-ataque-com-misseis-oreshnik-bunker-nao-salvara-zelensky-diz-coronel-americano-46913150.html
- https://www.infomoney.com.br/mundo/ataque-russo-com-missil-com-capacidade-nuclear-e-recado-dizem-especialistas/
- https://politicaemdebate.org/2025/08/04/putin-escala-o-apocalipse-producao-em-massa-do-missil-hipersonico-oreshnik-e-a-retorica-do-mao-morta/
- https://politicaemdebate.org/2025/10/13/russia-china-e-ira-assumem-a-lideranca-hipersonica-deixando-os-eua-para-tras/