Internacional, Geopolítica
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Por PolitikBr I Brasília, Em 05/01/2026, 18h:44, leitura: 7 min
Editor: Rocha, J.C.
Na manhã seguinte, em Washington, a cena beirava o grotesco. Dentro do Beltway — a bolha política que separa a capital americana do mundo real — brindes foram erguidos e discursos auto celebratórios ecoaram. A prisão de um único homem, Nicolás Maduro, era vendida como uma vitória estratégica monumental. Um troféu. Um atalho para a redenção da política externa norte-americana.
Para o coronel reformado do Exército dos Estados Unidos Douglas Macgregor, a comemoração não era apenas prematura — era risível.
Em uma análise crua e direta, Macgregor expõe o que aquela euforia realmente revela: a persistente miopia de uma elite que insiste em repetir os mesmos erros históricos, como se o fracasso anterior jamais tivesse acontecido.
Um roteiro conhecido, um desfecho previsível
A operação que culminou no sequestro de Maduro — e que deixou ao menos 80 civis mortos — não inaugura um novo capítulo na geopolítica americana. Ela apenas reencena um roteiro antigo, sangrento e amplamente documentado. Macgregor faz o paralelo imediato e incontornável: Bagdá, 2003; Trípoli, 2011.
A lógica é sempre a mesma. Se decapita o topo do regime, se assume que o corpo político entrará em colapso e se renderá docilmente à vontade do império. O resultado, invariavelmente, é o oposto: caos, vácuo de poder, guerra civil e uma ferida histórica que alimenta ódio por gerações.
O ódio aos estadunidenses é retroalimentado. Trump é mais um promotor desse ódio visceral aos vizinhos do Norte.
A morte de civis — como Johanna Rodriguez Sierra, dilacerada por estilhaços do ataque americano — não é um “efeito colateral”. É a consequência estrutural desse modelo de intervenção.
Onde o poder realmente reside
A análise de Macgregor desmonta rapidamente uma das maiores ilusões de Washington: a ideia de que o poder na Venezuela reside em figuras civis palatáveis ao Ocidente. Não reside. Nunca residiu.
O poder real está nas mãos de homens armados. No comando do general Vladimir Padrino López e das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (FANB). Quando Padrino López declarou que a soberania venezuelana foi violada e que todas as capacidades seriam empregadas para defender o país, não se tratava de retórica. Era um aviso direto.
A lealdade da cúpula militar não é a Maduro como indivíduo, mas ao sistema chavista que os estruturou, financiou e consolidou ao longo de três décadas. A crença de que sequestrar o líder faria esse aparato se dissolver é, nas palavras de Macgregor, “mentalidade de amadores”.
A fantasia logística
Políticos em Washington, como Marco Rubio, falam em “exercer influência” ou “administrar a política” venezuelana. Macgregor elimina o eufemismo: controlar um país da dimensão territorial, demográfica e geográfica da Venezuela exige ocupação. Exige “botas no chão”. Muitas.
Não algumas dezenas ou centenas de operadores especiais, mas uma força maciça de ocupação. O próprio governo americano admite não ter tropas suficientes no país para isso — e rejeita explicitamente a criação de uma autoridade de ocupação nos moldes do Iraque.
A pergunta inevitável surge: como esse plano funcionaria?
A resposta, segundo Macgregor, é simples e brutal: não funciona.
O ponto cego econômico
A armadilha se aprofunda quando se observa o cenário econômico. Os Estados Unidos estão financeiramente exaustos, com uma dívida nacional em trajetória explosiva ( US$ 38 trilhões; na prática impagável, na realidade, em breve, talvez nem mais “rolável”).
Manter um bloqueio naval à Venezuela custa milhões de dólares por dia — um fardo insustentável para uma economia que, nas palavras de Macgregor, “imprime dinheiro para financiar o próprio colapso”.
Enquanto isso, a Rússia e a China operam as suas indústrias de defesa em regime contínuo, 24 horas por dia. A disparidade estratégica é gritante e crescente.
O petróleo — sempre o petróleo
Os Estados Unidos já são auto suficientes em petróleo há muito tempo. Verdade que a maior parte desse óleo vem do poluente e caro fraturamento hidráulico do xisto betuminoso. Então, qual seria o objetivo final de tamanho investimento, risco e desgaste internacional? Obviamente privar os “adversários” da maior reserva de hidrocarbonetos do planeta. O petróleo da Venezuela alcança valor estimado de US$ 18,4 trilhões. O país tem cerca de 303 bilhões de barris de petróleo bruto – cerca de um quinto da reserva global.
Imagine você controlar essa riqueza, direcionando a sua extração para as empresas americanas, e assim poder carrear bilhões e bilhões de dólares em impostos para o já quase falido Estados Unidos? O problema é que há outros atores também ávidos por essa riqueza. O maior deles, a China. Parceira estratégica da Venezuela, assim como a Rússia.
A retórica sobre “democracia” desaba na mesma velocidade dos interesses colonialistas. O próprio Trump foi direto: se trata de recuperar interesses petrolíferos americanos.
Na verdade, é mais do que isso: se trata de privar países terceiros a se beneficiarem dessa riqueza, bem ali no “quintal dos Estados Unidos“.
Aqui surge a ironia trágica apontada por Macgregor: não se bombeia petróleo em uma zona de guerra. A tentativa de coagir a indústria por meio da força destrói exatamente a infraestrutura que se deseja controlar. É, como resume o coronel, “tentar roubar uma casa em chamas jogando gasolina no incêndio”.
Um efeito geopolítico reverso
Longe de enfraquecer os adversários, a operação de Trump produziu o efeito contrário. Delcy Rodríguez, agora presidente interina por 03 meses, em vez de se tornar uma figura moderada, denunciou a ação como barbárie, solidificando a sua base política com um viés antiamericano ainda mais radical. Se demonstrasse hesitação, seria removida pelos próprios generais.
Washington não criou um parceiro. Criou um mártir e fortaleceu uma liderança ainda mais hostil.
Isolamento no próprio quintal
A imprudência se espalha. As ameaças de Trump ao presidente colombiano Gustavo Petro corroem uma relação histórica na região. Petro, como observa Macgregor, usará essas ameaças para alimentar o sentimento nacionalista e antiamericano em toda a América Latina.
O resultado é claro: os Estados Unidos caminham para o isolamento político em seu próprio hemisfério.
O custo humano e o retorno do caos
Os 80 civis mortos são a face real da chamada “libertação” americana — uma face convenientemente ignorada pela grande mídia dos EUA e pelas demais atreladas à submissão, tão comum na América Latina e na Europa. Esse sangue não desaparece. Ele gera ódio. Um ódio que atravessa gerações, como no Iraque e no Afeganistão.
E o caos tem efeito bumerangue. A instabilidade provocará uma nova onda migratória em direção à fronteira sul dos EUA. “Milhões irão para o Rio Grande”, alerta Macgregor.
Um tiro no pé estratégico
A conclusão é devastadora. Não há plano para o pós-guerra. Não há estratégia de saída. Apenas arrogância cega, lançando uma granada em um barril de pólvora.
Os Estados Unidos, mesmo que tentassem, não iriam conseguir administrar a Venezuela — até porque mal consegue proteger as suas próprias fronteiras. A alternativa racional, sugere Macgregor, seria recuar, retirar a Marinha e concentrar esforços em reconstruir o próprio país. Mas isso não ocorrerá, porque, no fim das contas, “a guerra dá lucro — e o sangue estrangeiro é barato para Washington”.
A operação contra Maduro não representou avanço algum na geopolítica global. Foi um tiro no pé estratégico, que expôs a falência moral, logística e intelectual da política externa intervencionista dos EUA. Um erro caro, pago com sangue alheio — e que retornará aos Estados Unidos na forma de ódio, instabilidade e crise humanitária batendo à sua porta.
Esse artigo foi baseado em:
- https://politicaemdebate.org/2026/01/05/venezuela-a-bola-fora-do-pretenso-rei-do-mundo-trump-mete-os-pes-pelas-maos/
- Análise em vídeo do Coronel Douglas Macgregor:
https://youtu.be/ZhD-UzcDFBA