Internacional, Geopolítica
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Por PolitikBr I Brasília, Em 05/01/2026, 19h:49, leitura: 5 min
Editor: Rocha, J.C.
Este texto é uma versão adaptada e reorganizada para o blog, do vídeo do canal O Grande Tabuleiro, intitulado “CHINA–RÚSSIA–IRÃ SALVAM VENEZUELA E ACABAM COM A HEGEMONIA ENERGÉTICA DOS EUA”. O conteúdo original foi analisado, contextualizado e confrontado com os acontecimentos que se desenrolam desde 03 de janeiro de 2026, quando Nicolás Maduro foi sequestrado por forças dos Estados Unidos.
A veracidade do material base não foi possível de ser confirmada por análise de outras fontes. O que nos parece mais conteúdo especulativo do que fatos. Fica essa ressalva.
O que se vê não é apenas uma crise diplomática, tampouco um episódio isolado de brutalidade imperial. O sequestro de um chefe de Estado soberano funcionou como gatilho histórico para algo muito maior: a aceleração de um processo que já estava em curso, mas que ainda carecia de um evento catalisador — a ruptura prática do sistema do petrodólar.
Washington acreditou estar executando mais uma operação cirúrgica, dessas que costumam render manchetes domésticas e submissão externa. O cálculo era simples, quase preguiçoso: retirar Maduro do tabuleiro, desorganizar o Estado venezuelano, provocar um caos administrativo e forçar uma negociação sob chantagem. O problema é que essa lógica pertence a um mundo que já não existe.
A Venezuela de 2026 não está isolada. Ela está ancorada em um eixo geopolítico consolidado, formado pela China, pela Rússia e pelo Irã, que há anos trabalha silenciosamente na construção de infraestruturas paralelas ao sistema financeiro e energético controlado pelos Estados Unidos. O sequestro de Maduro não interrompeu esse projeto; ao contrário, forneceu a justificativa política, moral e estratégica perfeita para acioná-lo em modo de emergência.
Em questão de dias, contratos foram cancelados com clientes ocidentais, rotas redesenhadas e sistemas de pagamento substituídos. Toda a produção petrolífera venezuelana foi redirecionada para fora do circuito do dólar. As reservas financeiras venezuelanas foram transferidas para bancos chineses e russos. A China converteu US$ 500 milhões em títulos do tesouro americano em ouro a favor da Venezuela. E o petróleo, agora 100% direcionado para a China, para a Rússia, para o Irã e para a Índia, passou a ser negociado em yuanes, rublos, riais e até em acordos de escambo direto com a Índia – troca de petróleo por produtos farmacêuticos -, algo que não se via em larga escala desde o colapso da União Soviética. Não se trata de simbolismo: se trata de milhões de barris diários deixando definitivamente o sistema financeiro ocidental.
A China avançou com a frieza de quem joga xadrez em um tabuleiro global. Pagamentos em yuan digital lastreado em ouro, financiamento direto via o Banco Popular da China, investimentos estruturais em portos, refinarias e logística venezuelana. A Rússia, por sua vez, fez o que sabe fazer de melhor: garantiu proteção estratégica através da escolta dos petroleiros venezuelanos por navios de guerra russos, por todo o percurso; integrou sistemas financeiros alternativos e deixou claro que qualquer tentativa de intervenção adicional teria custos reais. O Irã adicionou a variável mais sensível de todas: dissuasão militar indireta, deixando explícito que a Venezuela agora opera sob um guarda-chuva geopolítico ampliado.
Enquanto isso, Washington assiste impotente. Navios da Quinta Frota observando, à distância, superpetroleiros carregando petróleo venezuelano sem poder interceptar, sancionar ou sequer intimidar. Um retrato simbólico do que está acontecendo em escala maior: o fim da capacidade americana de impor regras unilaterais ao sistema energético global.
A ironia histórica é cruel. Ao tentar reafirmar a sua hegemonia pela força, os Estados Unidos aceleraram exatamente o processo que buscavam impedir. A desdolarização, antes gradual, se tornou abrupta. Países que observavam com cautela passaram a agir. Países da América Latina, da Ásia e até aliados tradicionais começam a diversificar relações, testar os sistemas alternativos e reduzir as suas exposições ao dólar. O “precedente venezuelano” se transformou em prova de conceito: é possível romper com o sistema ocidental e sobreviver.
Nada disso teria ocorrido dessa forma sem o sequestro de Maduro. O ato que pretendia demonstrar força revelou fraqueza estrutural. Mostrou que o poder americano já não é capaz de controlar as cadeias energéticas globais, nem disciplinar Estados soberanos dispostos a romper o status quo. Mais do que isso: mostrou que o império perdeu a sua capacidade de prever reações sistêmicas.
Esse episódio se encaixa perfeitamente na sequência analítica que vimos se desenrolar desde 03 de janeiro de 2026. Primeiro, o sequestro de um presidente. Depois, a reação internacional inesperadamente robusta. Em seguida, o isolamento político de Washington, inclusive entre parceiros históricos. Por fim, a consolidação de um novo eixo energético multipolar, com a Venezuela ocupando um papel central — algo impensável há poucos anos.
Não se trata de romantizar governos ou regimes. Se trata de reconhecer uma mudança estrutural. A hegemonia energética dos Estados Unidos não está sendo desafiada no discurso, mas desmontada na prática, barril por barril, contrato por contrato, sistema por sistema. E esse processo, uma vez iniciado nesse nível, não admite retorno.
A pergunta que paira agora não é se o mundo entrou em uma nova fase. Isso já aconteceu. A pergunta é quantos outros episódios de arrogância estratégica ainda serão necessários para que Washington compreenda que o século XXI não responde mais às lógicas do século XX.
Esse artigo foi baseado em:
- https://politicaemdebate.org/2026/01/05/venezuela-a-bola-fora-do-pretenso-rei-do-mundo-trump-mete-os-pes-pelas-maos/
- https://politicaemdebate.org/2026/01/05/douglas-macgregor-a-armadilha-da-venezuela-sai-pela-culatra/
- Pepe Escobar: CHINA–RÚSSIA–IRÃ SALVAM VENEZUELA E ACABAM COM A HEGEMONIA ENERGÉTICA DOS EUA https://www.youtube.com/watch?v=ZDflNi0RpDI&t=320s


