O Apocalipse Global que Trump Está Criando

Internacional, Geopolítica

PolitikBr é uma mídia independente. Informar não é “torcida”. Não é distorcer, manipular ou mentir.

Por PolitikBr I Brasília, Em 04/01/2026, 19h:32, leitura: 5 min

Editor: Rocha, J.C.

A doutrina do caos e o colapso final das regras internacionais

Quando os tambores de guerra começam a ressoar é natural que o olhar se volte para os estrondos mais próximos. Ucrânia. Oriente Médio. Frentes já conhecidas, quase normalizadas pelo noticiário permanente da instabilidade.

Mas e se o estopim de um conflito de proporções verdadeiramente globais não estiver em Kharkiv, Odessa ou no sul do Líbano, e sim em Caracas?

E se a reeleição de Donald Trump, longe de inaugurar um isolacionismo pragmático sob o slogan “America First”, estiver acionando uma engrenagem de confronto direto entre potências nucleares?

A análise fria — e perturbadora — do estrategista russo Aleksandr Dugin, combinada às ações recentes dos Estados Unidos na Venezuela, sugere que já não estamos diante de “guerras híbridas” ou de conflitos periféricos administráveis. O que se desenha é uma reconfiguração tectônica da ordem internacional, na qual eventos aparentemente regionais passam a funcionar como gatilhos sistêmicos.

Nesse tabuleiro ampliado, a eventual tomada de cidades como Odessa e Carcóvia pela Rússia deixa de ser uma hipótese para se tornar peça quase previsível de uma escalada maior.

Para compreender o momento é preciso olhar para a Venezuela não como um país isolado em crise, mas como símbolo.

Símbolo daquilo que Washington, sob Trump, decidiu não mais tolerar: um governo anti-imperialista, alinhado à Rússia, ao Irã e à China, assentado sobre as maiores reservas de petróleo do planeta e sendo parte do hub da Rota da Seda no Caribe.

Um olhar mais atento mostra, como apontam análises independentes, que a ação violenta de Trump se trata de uma clara intimidação dirigida a toda a América Latina; combinada à apropriação direta de recursos estratégicos.

O método é antigo: se cria a crise, se impõe o medo e se oferece a “solução” que coincide, curiosamente, com o controle de petróleo, rotas e ativos, nesse caso. A novidade não está na lógica, mas na velocidade e na ausência total de disfarce diplomático.

É nesse ponto que a leitura de Aleksandr Dugin deixa de soar como provocação ideológica marginal e passa a funcionar como diagnóstico interno do pensamento estratégico russo.

Para Dugin, o mundo já ingressou em uma fase aberta de conflito global, na qual as mediações tradicionais perderam eficiência. Não haveria mais espaço para guerras por procuração cuidadosamente calibradas. A intervenção direta dos EUA na Venezuela sinalizaria que Washington aceita — e até deseja — a escalada. Vamos lembrar que Trump ameaçou abertamente o Canadá de anexação e fala a todo momento, implicitamente, até em tomar a Groenlândia à força. O autêntico senhor caos.

A consequência lógica de Dugin, segundo essa visão, é brutal em sua simplicidade: se os Estados Unidos reivindicam para si o direito de agir militarmente em qualquer ponto do hemisfério ocidental, então a Rússia também deve formular e aplicar a sua própria Doutrina Monroe. Uma doutrina que reconheça, sem ambiguidades, zonas de influência vitais e autorize ações diretas para protegê-las.

Em outras palavras: se a América Latina é tratada como quintal estratégico de Washington, a Ucrânia e o Mar Negro passam a ser assumidos, sem rodeios, como espaço soberano de interesse russo.

Nesse enquadramento, Odessa e Carcóvia, cidades históricas russas, deixam de ser apenas alvos militares em potencial. Se tornam réplicas de uma mensagem geopolítica. Um aviso claro de reciprocidade estratégica: “vocês avançam em nosso entorno no Caribe; nós consolidamos o nosso na Europa Oriental”.

Na premissa de Dugin, a soberania dos Estados intermediários evapora, reduzida à condição de fichas em uma barganha entre impérios armados. É a política internacional regressando, sem pudor, à lógica do século XIX — agora munida de tecnologia do século XXI.

Enquanto essa engrenagem se move no plano das grandes potências, outro fenômeno revela a fratura interna do próprio Ocidente. Após o sequestro de Nicolás Maduro e o ataque à Venezuela, protestos explodiram dentro dos Estados Unidos e em diversas cidades do mundo. Manifestantes se concentraram diante da Casa Branca e em capitais europeias e latino-americanas, denunciando o que classificaram como uma guerra por petróleo e uma violação aberta do direito internacional. As palavras de ordem foram diretas: tirem as mãos da Venezuela, sem sangue por petróleo.

Essas manifestações não são ruído marginal. Elas indicam que, mesmo no coração do império, cresce a percepção de que Trump está empurrando o sistema internacional para um território sem regras, no qual a força substitui definitivamente o direito. A legitimidade externa se esfarela ao mesmo tempo em que a coesão interna se rompe.

O Brasil, nesse contexto, desempenhou um papel revelador. Ao reconhecer Delcy Rodríguez como presidente interina da Venezuela, o governo brasileiro sinalizou uma tentativa de preservar algum grau de autonomia regional frente à narrativa norte-americana. O gesto é politicamente relevante, mas também expõe seus limites: ele contrasta com a brutalidade do jogo real em curso, no qual declarações diplomáticas têm peso ínfimo diante de bombardeios, sanções e sequestros presidenciais.

O que Trump está construindo, portanto, vai muito além de uma política externa agressiva. Ele está ativando um possível mecanismo de Guerra Quente, em um ambiente multipolar instável e perigoso.

Na Guerra Fria passada, o medo da destruição mútua impunha freios claros. Hoje, com canais diplomáticos degradados, desconfiança generalizada e decisões tomadas sob impulso pessoal, o risco de erro de cálculo cresce exponencialmente.

A intervenção na Venezuela não é, em essência, sobre a Venezuela. É um recado direto à Rússia e à China: as regras acabaram. A resposta russa, seja em Odessa ou em outra frente, tende a deixar claro que Moscou não apenas compreendeu a nova lógica, como está disposta a operá-la com rigor equivalente. O mundo, assim, desliza para um estado de anarquia sistêmica, onde não há árbitros, apenas forças em colisão.

O “apocalipse global” não será um clarão nuclear repentino. Ele já está em curso. Se manifesta na erosão acelerada das normas, na falência das instituições multilaterais e na naturalização da lei do mais forte. É a visão de Dugin abandonando o plano teórico e se materializando nos mapas de guerra.

Esse artigo foi baseado em:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *