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Por PolitikBr I Brasília, Em 10/12/2025, 17h:50, leitura: 6 min
O jornalista Jamil Chade é um dos mais respeitados correspondentes internacionais brasileiros, com formação em Relações Internacionais pela Universidade de Genebra e trajetória marcada por investigações jornalísticas rigorosas, coberturas diplomáticas e defesa intransigente da democracia e dos direitos humanos. Radicado há décadas nos Estados Unidos, se destacou como jornalista do Estado de S. Paulo, do Portal UOL, do qual se desligou recentemente, e agora colabora com o Portal ICL; tornando-se referência na apuração de temas como corrupção transnacional, organismos multilaterais, crises humanitárias e o avanço de movimentos autoritários pelo mundo. Sua produção jornalística combina profundidade analítica, sensibilidade histórica e compromisso ético, posicionando Chade como uma das vozes mais consistentes do jornalismo contemporâneo dedicado à transparência, ao pluralismo e à preservação das instituições democráticas.
Nesse artigo, destacamos os principais pontos e impressões de Jamil Chade acerca do episódio lamentável protagonizado pela maioria da Câmara dos Deputados, em fina sintonia com o deplorável presidente da Casa, Hugo Motta, que aprovaram – à revelia da opinião da maioria da sociedade, contrária à anistia a golpistas – , uma anistia disfarçada à Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e 03 meses de prisão, por tentativa de golpe de estado contra o presidente Lula, eleito em 2022, e seu vice, Geraldo Alckmin.
Esses são os principais pontos extraídos de um vídeo publicado por Jamil. Cuja indignação e nojo desse parlamento abjeto, é também nosso.
A prisão de Jair Bolsonaro não foi um ponto final. Foi, na verdade, uma vírgula num processo golpista que apenas se adaptou, migrou de endereço e vestiu um novo disfarce. Às 2h27 da madrugada desta quarta-feira, 10 de dezembro de 2025, enquanto o Brasil dormia, a democracia foi esfaqueada no escuro.
A Câmara dos Deputados, a casa que deveria representar o povo, se transformou no epicentro de um novo ataque, aprovando a modalidade mais covarde de golpe: aquele que se reveste de uma falsa legalidade para vender impunidade.
A escuridão da noite não foi um acaso. Foi um símbolo. A sessão foi transformada em ato secreto, com a suspensão da transmissão pública e a expulsão da imprensa. Esse gesto, por si só, é a assinatura do autoritarismo. É a confissão de um crime contra a transparência e contra a República.
Como bem aponta Jamil ao analisar esse episódio: foi uma “autêntica continuidade da tentativa de golpe“. A mesma turma, os mesmos métodos: quando não conseguem tomar o poder pela força, tentam subvertê-lo por dentro, nas brechas das leis que eles mesmos distorcem.
A camuflagem jurídica do projeto — uma suposta “reforma da dosimetria” — é tão frágil quanto obscena. Seus próprios artífices não escondem a origem e o propósito. Se sabe que o próprio Bolsonaro, de dentro da prisão, aprovou o esboço do projeto apresentado por seu filho, Flávio. Pense no absurdo e na afronta: um homem condenado por tentar enterrar a democracia com um golpe, é consultado como um estrategista sobre uma lei feita sob medida para o livrar da cadeia. Isso não é política. É uma conspiração. É um “golpe dentro do golpe“, como definiu Jamil, onde o condenado vira um legislador fantasma.
Esse episódio não é um fato isolado. É o elo mais visível de uma corrente de negociações espúrias que já havíamos dissecado. A pressa desesperada, a votação na calada da noite, é a entrega da contrapartida. É o “bom preço” pago para que Flávio Bolsonaro não se tornasse um candidato incômodo em 2026, – artigo A Engrenagem do Poder: Banditismo, Dosimetria e o Preço de uma Candidatura – acalmando o “mercado” e setores do centrão que temem seu nome. A redução da pena do patriarca Bolsonaro é a moeda de troca dessa transação que envergonha a política.
Jamil Chade lembra que esta é a continuação do mesmo movimento que tentou impedir a posse de Lula e Alckmin. Não parou em 8 de janeiro de 2023. Derrotado nas urnas, no STF e temporariamente na força, o bolsonarismo golpista se recolheu ao seu reduto mais fortificado: o Congresso, onde conta com aliados que, por conivência, oportunismo ou medo, abrem as portas para o estado de exceção. O plano é de longo prazo, como alerta a análise: preparar o campo para o que virá após 2026, independentemente do vencedor das eleições. O objetivo é amarrar as mãos da Justiça, corroer a autoridade do STF e normalizar a ideia de que crimes contra a democracia não são punidos, são negociados.
A escolha da data não poderia ser mais cínica. O dia 10 de dezembro, consagrado internacionalmente aos Direitos Humanos, foi marcado no Brasil por um ato de vandalismo contra os pilares mais básicos da República: a igualdade perante a lei e a soberania da Justiça.
A história ensina, como no caso de Juscelino Kubitschek, que anistiar golpistas não traz paz, apenas adia a crise e embala uma tragédia maior. A anistia de 1961 não impediu 1964. A anistia de 2025 prepara qual golpe?
O que vimos nesta madrugada, em que a Câmara apunhalou a sociedade, foi a radiografia de um corpo político doente. Um organismo que, em suas sombras, revela tentáculos que se estendem ao exterior, buscando apoio em herdeiros do franquismo na Espanha, em supremacistas nos EUA e na rede global da extrema direita. O golpismo é local, mas seu manual e seu apoio são internacionais.
Contudo, se o Congresso hoje é o centro do ataque, também pode ser — e será — o campo da resistência. A suspensão da sessão não calou a democracia, apenas a jogou para as ruas, para as redes, para a imprensa livre e para o Senado, onde a batalha agora se desloca. As forças democráticas dentro e fora do Parlamento foram postas em estado de alerta máximo. O sol que nasceu sobre Brasília nesta manhã não dissipou a ameaça. Ele apenas a iluminou, mostrando com clareza brutal o tamanho do desafio. O despertar, como bem avisam as palavras finais da análise, precisa ser agora. Antes que a madrugada da vergonha vire a noite permanente do retrocesso.
Esse artigo foi baseado em:
- Notícia: “O que pode fazer o STF caso o Congresso reduza as penas de Bolsonaro e outros golpistas?” (CartaCapital).
- Notícia: “Davi anuncia votação do PL da Dosimetria no Senado após análise da Câmara” (Senado Federal).
- Notícia: “Câmara dos Deputados aprova projeto que reduz pena de condenados por tentativa de golpe” (Notícia Brasil).
- Conteúdo de mídia social sobre manifestação contra a PL (Instagram).
- Análises e reportagens veiculadas em canais de mídia independente (YouTube).
- https://noticias.r7.com/brasilia/dosimetria-otto-rejeita-levar-pl-direto-para-plenario-e-designa-esperidiao-amin-como-relator-10122025/
- https://www.brasil247.com/brasil/datafolha-54-dos-brasileiros-acham-justa-prisao-de-bolsonaro