A Última Cartada dos EUA: “Vampirizar Aliados” para Sustentar uma Hegemonia em Colapso

A Última Cartada dos EUA: “Vampirizar Aliados” para Sustentar uma Hegemonia em Colapso

PolitikBr é uma mídia independente. Informar não é “torcida”. Não é distorcer, manipular ou mentir.

Por PolitikBr I Brasília, Em 06/12/2025, 19h:16, leitura: 11 min

(Atualizado em 07/12/2025, 04h52)

As Vozes que Decifram o Caos

Antes de mergulharmos na complexa teia geoeconômica atual, é essencial conhecer as credenciais das fontes que fundamentam esta análise. Glenn Diesen é professor de Relações Internacionais na Universidade do Sudeste da Noruega, autor de livros influentes sobre a nova Guerra Fria, política russa e a ordem mundial multipolar. Seu podcast é uma referência para quem busca entender as movimentações estratégicas por trás das manchetes. Já Sean Foo é um economista e analista de mercados com foco especial na China, criador do canal Shanfu Gold no YouTube, onde desmonta narrativas econômicas dominantes com dados concretos, abordando temas como geopolítica, ouro, prata e o deslocamento do poder econômico global. A conversa entre ambos, intitulada “Colapso Econômico no Japão, EUA e Europa”, serve como espinha dorsal para este artigo, revelando um diagnóstico sombrio para o Ocidente e uma estratégia de sobrevivência que beira ao desespero.

O Cenário do Colapso: Japão, Europa e a Armadilha da Dívida

O debate de Sean e Glenn começa com um olhar sobre os pilares deteriorados da antiga ordem unipolar. O Japão, conforme exposto por Sean Foo, está preso em uma “armadilha muito perigosa”. Com uma relação dívida/PIB que beira os 250%, o país enfrenta um colapso industrial iminente.

As exportações japonesas para os EUA vem caindo há meses, pressionadas pelas tarifas impostas por Trump. O iene, nesse ambiente, vem se desvalorizando fortemente; até mesmo ante um dólar que também enfraquece, elevando o custo das importações de energia – vital para uma nação, que importa cerca de 90% de sua necessidade energética pós- acidente de Fukushima. A solução de curto prazo? Mais estímulos fiscais, aprofundando a dívida pública e postergando uma crise que, segundo Foo, é inevitável: “Mais cedo ou mais tarde haverá um calote”.

A Europa segue um roteiro semelhante de autoflagelação geopolítica. Ao aderir cegamente às sanções contra a Rússia e à compra de energia americana mais cara, – que custa de 5 a 7 vezes mais que as praticadas nos EUA por Kwh – o continente vem promovendo a sua própria desindustrialização, com a Alemanha como caso emblemático.

Recentemente a Volkswagen anunciou que planeja exportar carros fabricados na China para mais mercados. As fábricas chinesas da Volkswagen podem produzir tanto veículos com motor à combustão interna quanto carros elétricos. Os destinos de exportação que a empresa está considerando incluem países do sudeste e da Ásia Central.”

Então, se a Europa não mudar de rumo, fatalmente enfrentará nos próximos anos, cada vez mais, a fuga do seu “capital produtivo industrial” em direção aos Estados Unidos (como sorrateiramente induz Trump), para a China e outros países. Foo em sua análise é direto: a única saída racional para a Europa seria um acordo separado com a Rússia para retomar o fluxo de energia barata e recuperar a competitividade perdida. Isso parece o óbvio. Mas, como frisado por Glenn, a Europa construiu um arquétipo de ódio tão intenso aos Russos, que uma decisão econômica racional nem passa pela cabeça das lideranças vassalas europeias que, assim, preferem sacrificar o futuro de seus países.

A “indecisão política” e a visão maniqueísta, artificialmente construída, que vê a Rússia como “a fonte de todo o mal” tornam a lógica de Sean Foo politicamente impossível. Ao invés disso, a Europa se submete, se tornando vítima da estratégia de sobrevivência americana.

A Estratégia Americana: O Vampirismo do Conde Drácula e o Cerco ao “Quintal”

Diante de uma dívida pública colossal de US$ 38 trilhões (contra US$ 9 trilhões em 2009), construída em cima de um modelo de consumo perdulário e sem limites da sociedade americana, e sem vantagem industrial para competir com a China ou com o bloco BRICS+, os Estados Unidos, na visão de Sean Foo, estão também “presos em uma armadilha”.

A única saída para os americanos para tentar manter a sua hegemonia, em franco declínio – ou ao menos evitar um colapso abrupto – é o que Sean nomeia, com precisão ferina, de “Estratégia do Conde Drácula”.

Se trata de um processo de vampirização econômica dos aliados submissos, notadamente o G7 e a Europa. Foo explica: “Os Estados Unidos entendem que quando se trata do BRICS, do Oriente, do Sul Global, vai ser realmente difícil para eles competir com base na economia. […] Mas eles ainda podem, com certeza, torcer o braço de seus aliados para alimentar a economia americana”. Isso se materializa na pressão para que empresas aliadas realoquem fábricas para solo americano, na compra de energia e armamentos caros dos EUA e na relutância em permitir que nações como o Japão liquidem suas vastas reservas de títulos do Tesouro Americano – um movimento que desestabilizaria ainda mais o mercado de dívida dos EUA.

Paralelamente, os EUA travam uma batalha crucial por influência no hemisfério ocidental, seu quintal estratégico. A análise citada pela Notícia Brasil reforça: “Se os EUA perderem a América Latina, perdem a hegemonia global”.

A eleição de Javier Milei na Argentina e o subsequente “resgate” americano de US$ 20 bilhões são vistos por Foo não como um ato de bondade, mas como uma jogada para ampliar a influência financeira sobre um país rico em lítio, mineral essencial para a transição energética e tecnológica. – Isso, supondo, que o lítio continuará a ser um elemento chave na fabricação, em especial, de baterias para fins elétricos. Talvez não seja assim…

O endurecimento contra a Venezuela, por sua vez, visa controlar suas vastas reservas de petróleo. É uma tentativa de consolidar um bloco econômico coeso nas Américas, dependente de Washington e desvinculado, na medida do possível, da China que, aliás, vem investindo massivamente na América Latina, em especial no Brasil e no Peru.

Afim de contexto, cabe mencionar ainda que a China vem investindo massivamente também na África. Ela, de longe, ultrapassou os Estados Unidos em influência política e investimentos, em especial em infraestrutura.

O modelo predatório e colonial ocidental do passado e do presente é fator chave para que os africanos deem as boas vindas aos Chineses e aos Russos. A ganância desenfreada de americanos e europeus, que se acostumaram a dilapidar as riquezas dos povos africanos, agora cobra seu preço. A expulsão da França do Sahel é um exemplo desse momento.

A Bolha da IA como Última Tábua de Salvação

Se vampirizar aliados é a tática de curto e médio prazo, a grande aposta estratégica de longo prazo dos EUA está na Inteligência Artificial. Foo descreve um plano que soa a roleta russa: direcionar trilhões de dólares – boa parte proveniente do endividamento contínuo – para a corrida da IA, com o objetivo utópico de alcançar primeiro a Inteligência Artificial Geral (AGI). Esta, uma vez atingida, supostamente geraria um salto quântico em inovação e produtividade, salvando a economia americana da implosão. “É uma corrida contra a auto-implosão“, define Foo.

Aqui, entram em cena vozes críticas, como as do professor Miguel Nicolelis, neurocientista brasileiro de renome mundial. Em vídeo, Nicolelis e outros analistas, como o financista José Kobori, alertam que os vultuosos investimentos em IA configuram uma “bolha trilionária” prestes a estourar. O mecanismo é conhecido: quando a bolha estoura, trilhões em riqueza de papel evaporam. Fundos e investidores são forçados a liquidar ativos da economia real para cobrir perdas, desencadeando uma crise de liquidez em cadeia que trava o crédito e paralisa a economia. O próprio Sam Altman, CEO da OpenAI, já sinalizou que, no limite, espera um resgate estatal – socializando os prejuízos após a privatização dos lucros.

A bolha da IA não é um risco isolado; é o acelerador de uma crise de dívida já insustentável. A implosão desse castelo de cartas, como alertado, não só quebraria empresas de tecnologia, mas, através dos mecanismos de transmissão financeira, atingiria “todos os setores” da economia global, iniciando uma nova Grande Recessão.

A China e a Futilidade do “Desacoplamento”

Enquanto os Estados Unidos lutam se para manter de pé, a China avança com um pragmatismo avassalador. As revelações do CEO da NVIDIA, Jensen Huang, é um testemunho devastador dessa realidade. Ao descrever a IA como um “bolo de cinco camadas” (energia, chips, infraestrutura, modelos e aplicações), Huang desmonta a ideia de superioridade americana inconteste. Uma visão embaraçosa politicamente, mas reveladora.

  1. Energia: A China tem o dobro da capacidade dos EUA, com custos drasticamente menores.
  2. Chips: Os EUA estão “gerações à frente”, mas Huang adverte: “Não seja complacente”. A China domina a manufatura e recebe subsídios massivos.
  3. Infraestrutura: Enquanto os EUA levam anos para construir um data center, “eles [a China] podem construir um hospital em um fim de semana”.
  4. Modelos e Aplicações: A China está “muito à frente” em código aberto, base do ecossistema de inovação, e sua sociedade é majoritariamente otimista quanto aos benefícios da IA, ao contrário do ceticismo ocidental.

Huang é categórico: ao banir a NVIDIA do mercado chinês, os Estados Unidos “concederam aos chineses essencialmente o segundo maior mercado de IA do mundo”. Ele adverte: “Você não vai substituir a China”.

A análise de Huang converge com a de Sean Foo: a tentativa dos Estados Unidos de “desacoplamento” e de “redução de riscos” é uma corrida contra o tempo. Reconstruir cadeias de suprimentos levará décadas e custará muito caro. Enquanto isso, o consórcio China-Rússia, fortalecido justamente pelas sanções ocidentais, cria um sistema econômico paralelo.

Foo explica: a Rússia fornece energia e commodities baratas à China, e o comércio bilateral é quase 100% desdolarizado, usando rublo ou yuan. A Rússia, um dos poucos países do mundo com superávit comercial em relação aos chineses, agora emite títulos denominados em yuan, ajudando a criar um mercado de capitais internacional para a moeda chinesa. Este ciclo virtuoso (para o bloco sino-russo) é “autoalimentado” e “não vai parar tão cedo”. A desdolarização, portanto, não é um evento, mas um processo acelerado pela própria instabilidade fiscal americana, e de perda de credibilidade.

O Fim do Jogo e a Bifurcação Inevitável

A síntese da análise desse artigo aponta para um desfecho quase inevitável. Os Estados Unidos, sufocados pela brutal dívida pública, que a medida que cresce torna cada vez mais custosa a sua rolagem; sem competitividade industrial e com uma aposta arriscadíssima em uma bolha de IA, não têm condições de “vencer” a China em uma competição econômica pura. A estratégia americana se reduz a duas frentes: extrair riqueza de aliados vassalos – um processo que enfraquece a coesão do próprio Ocidente – e tentar isolar a China tecnologicamente, formando blocos geoeconômicos bifurcados.

Sean Foo prevê um mundo onde os chips de IA chineses, 40-50% mais baratos e sem “portas dos fundos” percebidas, dominarão o Sul Global e o BRICS, enquanto os Estados Unidos tentarão manter o G7 em um enclave tecnológico caro e controlado. No entanto, mesmo essa estratégia depende de os aliados aceitarem ser canibalizados indefinidamente – uma premissa frágil.

A única saída racional, na visão de Sean, seria um “divórcio amigável” com a China antes que a dívida americana entre em colapso definitivo, gerando uma revolta social interna e o fim da primazia do dólar. O relógio, no entanto, continua correndo. A bolha da IA pode estourar antes. A Europa pode quebrar. O iene pode entrar em colapso. Cada uma dessas crises alimentará a outra em um processo retroalimentativo, sinalizando assim o fim de uma era.

A hegemonia ocidental, construída no pós-Guerra, não está sendo desafiada; está se desintegrando por dentro, vítima de suas próprias contradições financeiras, da arrogância, e da miopia geopolítica de suas elites.

Este artigo foi baseado em:

  1. Vídeo: “A Bolha da IA – Real – E o Impacto Será Global?” – Análise sobre a bolha da IA com menções a Miguel Nicolelis e Sam Altman.
  2. Vídeo: “Can’t Replace China – NVIDIA CEO Warns Of China’s Quick Proliferation of AI Tech” – Entrevista com Jensen Huang, CEO da NVIDIA, sobre a competição em IA com a China.
  3. Vídeo: “Colapso Econômico no Japão, EUA e Europa” – Entrevista do economista Sean Foo ao podcast do professor Glenn Diesen.
  4. Artigo: “Se os EUA perderem a América Latina, perdem a hegemonia global, avaliam analistas” – Notícia Brasil, sobre a importância geopolítica da América Latina.
  5. Volkswagen planeja exportar carros fabricados na China para mais mercados | CNN Brasil

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *