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Por PolitikBr I Brasília, Em 01/12/2025, 20h:02, leitura: 6 min
Em um palco global ensanguentado, Benjamin Netanyahu, o homem que por anos vem definindo a política israelense com mãos de ferro e retórica inflexível, curva-se. Não perante as vítimas de Gaza, cujo número se perde na casa das dezenas de milhares, mas perante a instituição presidencial de seu próprio país, em um pedido formal de clemência. O gesto, solene e calculado, é o ponto final grotesco de uma estratégia de sobrevivência política que transformou conflitos regionais em cortina de fumaça, e vidas humanas em moeda de troca para escapar da prestação de contas.
A raiz do desespero atual de Netanyahu não brota do recente revés militar contra o Irã, mas de um processo lento e constante de erosão judicial que o acompanha há anos. Acusações sólidas de corrupção, suborno e fraude que pesam sobre ele como uma espada de Dâmocles. Sua resposta, longe de enfrentar as alegações no mérito, foi uma campanha sistemática para enfraquecer as instituições que o poderiam julgar.
A tentativa de reforma judicial, apresentada em 2023 sob o verniz de uma “reforma de equilíbrio de poderes”, era, na verdade, um assalto claro à independência do Supremo Tribunal israelense. O objetivo era transparente: criar um escudo legal personalizado, imunizando o executivo – e, por extensão, seu líder – do escrutínio judicial.
A sociedade israelense, profundamente dividida, reconheceu o perigo e saiu às ruas em protestos históricos, mas o cerco jurídico continuou a se fechar.
Foi neste contexto de desespero doméstico que o Hamas lançou seu ataque em 7 de outubro de 2023. O radical da extrema direita, como Netanyahu, assassinado nos Estados Unidos, Charlie Kirk, de defensor incondicional de Netanyahu, passou a levantar questionamentos sobre o ataque do Hamas e a conduta do governo israelense diante da tragédia. “O país todo é uma fortaleza… Seis horas de retrocesso? Alguém no governo deu a ordem para recuar? É uma pergunta legítima, não uma teoria conspiratória”, questionava.
Em uma de suas intervenções mais duras, Kirk destacou a dimensão do trauma: “Israel tem o tamanho de Nova Jersey. Estavam transmitindo ao vivo o assassinato de judeus”. Essa crítica direta ao núcleo da narrativa de segurança do Estado foi interpretada como traição por seus antigos apoiadores. E, assim, emergem as especulações: Kirk teria sido morto por um extremista motivado por fanatismo religioso? Ou sua eliminação foi resultado de uma articulação mais profunda, alimentada pelo próprio temor que ele expressava ter de Netanyahu e dos setores pró-Israel que o pressionavam?
No contexto desse artigo é importante levantar essas dúvidas sobre como, de fato, se deu o ataque terrorista do Hamas. Houve negligência? Difícil acreditar. Facilitação, afim de se criar um ambiente de repressão extrema, como se viu, contra os palestinos? Muitos creem que sim
A tragédia e o trauma nacionais pelo massacre de civis pelo Hamas foram imensuráveis. Netanyahu, no entanto, viu na guerra total não apenas uma resposta de segurança necessária, mas a oportunidade definitiva de sublimação de sua crise pessoal. A “unidade nacional” em tempo de guerra se tornou um mantra conveniente para silenciar dissidências e adiar indefinidamente qualquer discussão sobre sua aptidão para governar.
A ofensiva em Gaza, inicialmente justificada pela legítima defesa e pela busca dos reféns, rapidamente degenerou em uma campanha de destruição de escala e ferocidade tais que o Tribunal Penal Internacional (TPI) acusou Netanyahu de genocídio, expedindo um mandado de prisão contra o primeiro ministro.
Enquanto o mundo via crescer o número de crianças, mulheres e idosos indefesos sob os escombros, Netanyahu via, nas telas de seus estrategistas, os gráficos de sua sobrevivência política se consolidarem. A guerra era a distração perfeita, um conflito existencial que relegava as acusações de corrupção à condição de mera “politicagem” em tempos inapropriados.
A aposta, porém, continha uma falha de cálculo geopolítica monumental. A extensão da destruição em Gaza e a paralisia no processo dos reféns minaram lentamente o apoio internacional, mesmo dos aliados mais próximos. E então, numa jogada que pretendia ser o grand finale restaurador de sua imagem de estadista forte, veio o ataque ao Irã. Incitado pela percepção de uma janela de oportunidade e por uma complacência tácita – alguns diriam incentivo – da administração Trump em seu retorno ao poder.
Netanyahu autorizou uma ação militar direta. O resultado foi um desastre estratégico. A retaliação iraniana foi devastadora, atingindo profundamente o território israelense com uma ferocidade não vista em décadas. O “forte” se mostrou vulnerável. O “estrategista” se revelou imprudente. A imagem de invencibilidade, cuidadosamente cultivada, desmoronou sob uma chuva de mísseis hipersônicos e de drones.
A população israelense, que suportara os traumas do 7 de outubro e os custos morais de Gaza, se via agora sob fogo direto e em um isolamento internacional crescente. A revolta interna, antes contida pelo discurso bélico, explodiu. A distração já não funcionava; pelo contrário, a guerra havia voltado para casa com uma clareza crua.
É neste cenário de ruína – moral, política e de segurança – que o pedido de clemência presidencial ganha seu significado mais cínico e trágico. O arquiteto de uma política externa agressiva que levou o país a uma de suas situações mais perigosas, o homem que instrumentalizou um sofrimento inenarrável para salvar a sua pele, agora apela para a misericórdia da mesma República cujos freios e contrapesos tentou desmantelar.
Netanyahu não pede perdão aos palestinos de Gaza, nem aos familiares dos reféns por ventura ainda em cativeiro, nem mesmo aos cidadãos israelenses que viram sua segurança evaporar. Seu pedido é uma manobra jurídica fria, o último recurso de um jogador que queimou todas as cartas da legitimidade política e do capital estratégico.
Cabe aqui a citação de Victor Hugo: “A queda é a fornalha. A decadência é o fogo lento”.
A narrativa que se desenha não é apenas a de um político corrupto que busca escapar da cadeia. É a narrativa de como a luta pela impunidade pessoal pode moldar o destino de nações inteiras, desviar a atenção de crimes domésticos para crimes de guerra, e levar um país a um precipício do qual talvez leve gerações para se recuperar.
O pedido de clemência é, portanto, a última confissão de um fracasso. Não o fracasso de um general no campo de batalha, mas o fracasso moral de um líder que, para não enfrentar a Justiça, tentou reescrever as regras, depois tentou distrair o mundo com um banho de sangue, e finalmente, humilhado e encurralado, estende as mãos vazias, esperando um perdão que sua própria trajetória tornou indecoroso conceder.
Esse artigo foi baseado em:
- Notícia Brasil: “Netanyahu pede perdão presidencial em julgamento que é acusado de corrupção” – https://noticiabrasil.net.br/20251130/netanyahu-pede-perdao-presidencial-em-julgamento-que-e-acusado-de-corrupcao-45660945.html
- Política em Debate: “Cessar-fogo: Trump e Netanyahu perderam a aposta contra o Irã” – https://politicaemdebate.org/2025/06/24/cessar-fogo-trump-e-netanyahu-perderam-a-aposta-contra-o-ira/
- Netanyahu é indiciado por crimes de suborno, fraude e quebra de confiança | G1
- https://politicaemdebate.org/2025/09/16/larry-c-johnson-o-assassinato-de-charlie-kirk-o-sionismo-e-as-versoes-que-desmoronam/
- Netanyahu: Tribunal Penal Internacional expede mandado de prisão de premiê de Israel e do comandante do Hamas – BBC News Brasil