O PL Antifacção e o Cerco Contra a Polícia Federal: Quem Teme a Verdade?

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Por PolitikBr I Brasília, Em 30/11/2025, 20h:01, leitura: 8 min

A ofensiva de políticos brasileiros da extrema direita e do “Centrão” para enfraquecer a Polícia Federal (PF), promovendo um cerco à atuação independente da PF, e tentando a sua asfixia operacional, através da transformação seletiva do Projeto de Lei Antifacção, – preparado pelo governo Lula e enviado à Câmara dos Deputados – em um instrumento que, se aprovado pelo Senado sem alterações, ao invés de combater o crime organizado, irá dificultar ou mesmo inviabilizar as investigações, tem objetivos claros.

Esse movimento não é isolado, nem fruto de improviso. É parte de um rearranjo político que, desde já, mira 2026. E Guilherme Derrite, apadrinhado de Tarcísio de Freitas, tem atuado exatamente nessa direção.

Quando apresentou o primeiro relatório do projeto, Derrite incluiu mudanças que reduziam as atribuições da PF, criavam obstáculos operacionais e abriam brechas para disputas de competência que poderiam, na prática, dificultar investigações sensíveis envolvendo o crime organizado.

A repercussão foi imediata: a Polícia Federal, o Ministério da Justiça e especialistas reagiram. Diante da pressão, o relator recuou parcialmente, mas o movimento deixou claro o objetivo político — uma PF menos autônoma significaria menos risco para quem teme a luz, a verdade e as investigações.

Ao mesmo tempo, no Senado, Davi Alcolumbre, citado em operações envolvendo emendas suspeitas e pressões políticas no entorno do “orçamento secreto”, articula uma votação acelerada do PL.

Nada disso é coincidência. Um Congresso que tem 290 parlamentares beneficiados por R$ 3,2 bilhões em emendas de relator — segundo levantamentos jornalísticos — evidentemente não vê com bons olhos uma Polícia Federal fortalecida, autônoma e disposta a investigar.

O caso que simboliza o caos: Pedreiras e os 540 mil dentes arrancados

Nada expõe melhor a podridão do antigo orçamento secreto do que o escândalo de Pedreiras, no Maranhão.

A Controladoria Geral da União (CGU), em auditoria oficial, identificou que a cidade de 39 mil habitantes registrou 540.000 extrações dentárias em 2021. Isso significa 14 dentes arrancados por morador, praticamente metade da arcada dentária de toda a população — num único ano.

Uma das empresas envolvidas fechou R$ 16 milhões em contratos públicos entre 2019 e 2022, parte deles vinculada justamente ao esquema investigado. A fraude é tão grotesca que se tornou exemplo internacional de como a manipulação de dados em saúde pode gerar rombos, desviar recursos e destruir a lógica de políticas públicas.

Quem tem medo da PF? A resposta começa a ficar clara.

A “prefeitura do papai”: Hugo Motta e o poder hereditário no Sertão

Outro capítulo é o da chamada “prefeitura do papai”. Um escárnio. Descaramento à luz do dia. Sem pudores.

O deputado Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, enviou R$ 10 milhões em emendas para a cidade onde o seu pai é prefeito — Patos, na Paraíba.

Se trata de uma dinastia política que controla o poder local desde os anos 1950 e que encontra, nas brechas das emendas, combustível para perpetuar a sua influência local.

O modelo é sempre o mesmo:

  1. recursos chegam via emendas;
  2. obras e contratos são direcionados;
  3. grupos políticos se fortalecem;
  4. investigações são sufocadas ou prorrogadas.

Uma Polícia Federal fortalecida, com poder e independência – independência de atuação no governo Lula, não no de Jair Bolsonaro – é uma ameaça permanente ao mal uso do dinheiro público. E isso apavora os aproveitadores e apadrinhados políticos.

Vamos lembrar que o famigerado “orçamento secreto“, uma excrescência em se tratando do uso do dinheiro público, foi a mola mestre que livrou Bolsonaro de ser impedido durante o seu famigerado governo.

Uma PF enfraquecida, como deseja o lobby parlamentar, mantém essa “bandalheira” intacta.

Banco Master: o fio que liga Brasília, Rio e São Paulo

Se os casos de Pedreiras e Patos revelam a lógica das cidades pequenas, o colapso do Banco Master expõe o risco sistêmico envolvendo duas das maiores capitais do país: Rio de Janeiro e São Paulo.

Cláudio Castro e o Rioprevidência

O governador do Rio autorizou — via gestão do Rioprevidência — aplicações da ordem de R$ 1 bilhão em títulos vinculados ao banco, contrariando parecer técnico contrário dos especialistas em gestão do próprio estado.

Com a liquidação extrajudicial do Master e a prisão de executivos, a operação virou alvo de pedidos formais de investigação. O servidores temem perder parte do patrimônio previdenciário. Afinal, a garantia financeira que o sistema bancário oferece nesses casos é de R$ 250 mil. Nós estamos falando em cerca de R$ 1 bilhão.

Segundo levantamento recente, 18 entes federativos (estados e municípios) aplicaram recursos previdenciários através de seus RPPS no Banco Master, totalizando cerca de R$ 1,86 bilhão em letras financeiras do banco.

Entre os maiores casos, como já citamos, temos o fundo de previdência do Estado do Rio de Janeiro (Rioprevidência) que investiu cerca de R$ 1 bilhão.

Diversos municípios — especialmente nos estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul — também aplicaram:

  • Em SP: Cajamar (≈ R$ 87 milhões), São Roque (≈ R$ 93 milhões), Araras (≈ R$ 29 milhões), Santo Antônio de Posse (≈ R$ 7 milhões), Santa Rita d’Oeste (≈ R$ 2 milhões).
  • Em MS: Campo Grande (MS) (≈ R$ 1,2 milhão), Fátima do Sul (≈ R$ 7 milhões), São Gabriel do Oeste (≈ R$ 3 milhões), Angélica (MS) (≈ R$ 2 milhões), Jateí (MS) (≈ R$ 2,5 milhões).
  • Também há menções a municípios como Maceió (AL): o fundo de previdência municipal teria aplicado cerca de R$ 117,9 milhões no Master.

Mas a pergunta é por que se aplicar recursos tão vultuosos em um banco com problemas e desde algum tempo na eminência de quebrar?

De acordo com uma análise do economista José Kobori ao ICL, o Banco Master representava uma ameaça singular: um banco pequeno (com apenas 0,57% dos ativos do sistema) que, no entanto, concentrava um risco enorme para o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), chegando a comprometer quase 40% de seu valor. A tese de Kobori é que o banco estaria, na prática, “especulando” com a proteção do fundo para captar dinheiro à taxas elevadas e manter um negócio “fadado ao fracasso“.

Ainda segundo Kobori, essa estratégia agressiva do Master foi sustentada por uma forte rede de apoio:

  1. Proteção Política: O presidente do Master, Daniel Vorcaro, tinha ligações com o Centrão, que atuou para proteger a instituição nos poderes Legislativo e Executivo.
  2. Distribuição Predatória: Bancos de investimento de peso, como XP e BTG, distribuíram os CDBs do Master oferecendo comissões exorbitantes de até 4%, contra uma média de mercado de 0,5%. Isso seduziu investidores e injetou mais de R$ 40 bilhões no banco, enganando, na visão de Kobori, pequenos aplicadores e o próprio sistema.

Com a liquidação extrajudicial do Banco Master ( pelo Banco Central do Brasil ) e a prisão de seus controladores pela PF, esses aportes – como o quase R$ 1 bilhão investidos pela Rioprevidência – entram em grave risco — ou já em processo de perda. É o tipo de escândalo que exige transparência imediata e fiscalização severa. A PF está no rastro — e precisa continuar.

Tarcísio, doações milionárias e a EMAE

No caso paulista, o enredo passa por três elementos:

  • doações de pessoas do entorno do Master para a campanha de Tarcísio;
  • a privatização da Empresa Metropolitana de Águas e Energia S.A (EMAE);
  • a aplicação de recursos da venda em produtos de instituições ligadas ao mesmo conglomerado do Master.

Nada disso implica culpa automática. Mas a conexão é real, foi documentada pela imprensa e motivou questionamentos formais. E toda vez que interesses financeiros cruzam com decisões públicas de bilhões, a autonomia da PF se torna indispensável.

Por que mexer na PF agora?

A pergunta que importa é simples: por que, justamente no momento em que a PF avança sobre desvios bilionários, grupos parlamentares ligados a governadores tentam limitar a sua atuação?

O PL Antifacção deveria fortalecer o Estado contra o crime organizado. Mas a sexta versão de Derrite, aprovada a toque de caixa na Câmara dos Deputados, caminha na direção exatamente oposta — limitar a PF, expandir espaços ambíguos e abrir margens para interferências.

Há um padrão:

  • prefeitos beneficiados por emendas;
  • deputados com repasses suspeitos;
  • governadores envolvidos em investimentos temerários;
  • grupos financeiros sob investigação;
  • articuladores políticos buscando controlar a pauta da segurança.

Quando todas as peças formam o mesmo desenho, não se trata mais de coincidência. É estratégia. É cálculo. É medo — medo de uma PF forte, autônoma e capaz de chegar ao “andar de cima”.

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