A Engrenagem do Absurdo: A Tornozeleira e a Encenação da Demência

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Por PolitikBr I Brasília, Em 24/11/2025, 17h:34, leitura: 7 min

O episódio surreal da tentativa de destruição da tornozeleira eletrônica pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e as subsequentes alegações sobre seu estado mental não é apenas um caso isolado de bizarrice, mas a manifestação de uma estratégia política perene da extrema-direita: a teatralização do caos e a fuga cíclica da responsabilidade.

Para compreender a cena em sua totalidade, é necessário dissecar não apenas o fato em si, mas o ecossistema das narrativas, as reações públicas e as consequências jurídicas que o envolvem.

Tudo começou com um ato de ingênua, para dizer o mínimo, e esdrúxula tentativa de destruição da tornozeleira. Bolsonaro, sob vigilância – em prisão domiciliar, naquele momento – , confessou à Polícia Federal (PF) ter danificado o aparelho.

A versão inicial, de um acidente doméstico batendo a perna em uma escada, rapidamente se mostrou frágil como um cristal, perante a versão subsequente: a de que ele, movido por “curiosidade”, usou um ferro de soldagem no dispositivo. A premeditação, ainda que revestida de uma justificativa pueril, era evidente. O fato, por si só, já seria grave o suficiente, configurando violação das condições impostas a ele pela Justiça.

No entanto, foi a terceira versão, gestada no laboratório dos assessores médicos e jurídicos, que elevou o caso ao patamar do surreal: a alegação de que o ato teria sido cometido sob o efeito de uma alucinação causada pela ingestão dos medicamentos Pregabalina e Sertralina.

Esta tentativa de medicalizar um ato de claro desafio à Justiça não passou despercebida pela crítica do jornalista Reinaldo Azevedo. Em sua análise, Azevedo desmonta a farsa com precisão. Ele reconhece que, de fato, a bula dos referidos medicamentos lista alucinações como um efeito colateral possível, um resguardo padrão da indústria farmacêutica contra eventuais ações judiciais. Contudo, salienta um ponto crucial: é uma reação extremamente rara, da qual a vasta maioria dos médicos nunca sequer testemunhou um caso. Teria sido Bolsonaro o sortudo ou o não afortunado? O fato é que esse detalhe desmonta mais uma versão fajuta, sem pé e nem cabeça.

E diante de versão tão fantasiosa e bizarra, só mesmo a pilheria cabe ao caso. Reinaldo, com ironia, desnuda a inconsistência da tese: “alucinação mesmo seria se o Bolsonaro, tomando esses remédios, passasse a fazer a defesa da democracia, do Estado de Direito, e dissesse que se pudesse votar na próxima eleição, votaria no Lula”.

A conclusão é inevitável: não se trata de alucinação, mas de fingir demência – expressão que, como o próprio Reinaldo enfatiza, embora possa ser considerada capacitista em outros contextos, descreve com exatidão a postura de quem se faz de desentendido para escapar de responsabilidades.

A estratégia, porém, esbarra em sua própria contradição lógica. Se Bolsonaro estivesse, de fato, em estado de demência clínica ou de insanidade mental temporária, como poderia ser o condutor lúcido e estratégico da extrema-direita? Tendo reuniões com expressões do bolsonarismo, como o deputado Nikolas Ferreira, em sua casa?, e articulando alianças e definindo rumos políticos?

A conveniência seletiva do surto – ativo apenas no momento de violar a tornozeleira, mas ausente em todos os outros aspectos de sua vida pública – é tão flagrante que beira o insulto à inteligência coletiva. Reinaldo Azevedo vai ao cerne da questão ao afirmar que “fascistóides não são loucos… são escolhas políticas”.

Medicalizar o fascismo, o autoritarismo ou a simples má-fé é um desserviço, pois desloca um problema ético e político para o campo patológico, isentando o agente de sua responsabilidade. “As coisas que Bolsonaro faz e fala decorrem do seu pensamento, não de uma patologia clínica”, sentencia Reinaldo. A “cura” para o fascismo, como ele mesmo propõe, não está na farmácia, mas no robustecimento das instituições: “a droga contra o fascismo, de maneira geral para a sociedade, é informação e contra fascistas cadeia”.

E foi exatamente nesse último ponto – a cadeia – que o Supremo Tribunal Federal (STF) emitiu seu veredito. A Primeira Turma da Corte, de forma unânime (4 a 0), decidiu manter Bolsonaro preso, convertendo a prisão em preventiva. A decisão, analisada pelo professor Walter Mairovic, sinaliza um alinhamento sólido do colegiado com a posição do relator, Ministro Alexandre de Moraes. A mensagem é que não há espaço para relativizações ou para a aceitação de versões fantasiosas, quando se trata de descumprir ordens judiciais e, sobretudo, no contexto dos processos que investigam a tentativa de golpe de estado de 2022.

Mairovic projeta o futuro jurídico do ex-presidente, indicando que esta prisão preventiva tem alto potencial de “emendar” com a prisão definitiva, uma vez que haja o trânsito em julgado da condenação pelo crime de tentativa de golpe. O especialista também aborda a hipótese remota de uma interdição por insanidade, o que, em tese, transformaria a pena de prisão em medida de segurança. No entanto, ele alerta que esta é uma via perigosa e instável, pois a medida de segurança é indeterminada e cessaria tão logo a suposta “cura” fosse atestada.

O cerne da análise de Mairovic, porém, é desolador para a defesa de Bolsonaro: ele considera que os advogados do ex-presidente enfrentam uma “missão impossível” do ponto de vista técnico-jurídico. Restaria, portanto, apenas o “esperneio” de uma figura que ele classifica como “amoral” e “mitômana”.

Neste cenário de crescente isolamento político e jurídico do ex-presidente, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, questionado sobre a prisão de Bolsonaro, evitou qualquer tom de celebração ou vingança, preferindo uma abordagem que enfatiza a normalidade institucional e a responsabilidade pelos atos. “Todo mundo sabe o que ele fez. Ele não é preso porque querem prender. Ele é preso porque praticou crimes. E as pessoas que praticam crimes têm que ser responsabilizadas”, declarou o presidente, conforme publicado pelo Correio Braziliense.

A fala de Lula opera em dois níveis fundamentais. Primeiro, ela desmonta por completo a narrativa da perseguição política, tão caro à retórica bolsonarista. Ao afirmar que “todo mundo sabe o que ele fez”, Lula aponta para a evidência pública dos fatos – os ataques à democracia, a gestão catastrófica da pandemia, a tentativa de golpe e, agora, a violação da tornozeleira. Segundo, a sua declaração reforça o princípio basilar do Estado de Direito: a lei é igual para todos. Ao destacar que a prisão decorre da prática de crimes e não de vontades políticas, Lula posiciona o episódio não como uma vitória de um campo sobre o outro, mas como um triunfo da institucionalidade sobre o arbítrio. É a antítese discursiva do “esperneio” descrito por Mairovic.

O quadro que se forma, portanto, é de uma confluência perfeita entre a crítica social mordaz, a rigorosa aplicação da lei e a defesa serena das instituições. De um lado, a narrativa pública, representada por vozes como a de Reinaldo Azevedo, que expõe o cinismo e a teatralidade por trás das justificativas esfarrapadas. Do outro, a resposta institucional, personificada pelo STF, que age para conter o esperneio com a firmeza da caneta e da lei. E, no ápice, a posição presidencial, que ressalta a natureza crime-consequência do caso, recolocando o foco naquilo que realmente importa: se assumir as responsabilidades pelos atos praticados.

A encenação da demência se revelou não apenas falácia, mas um tiro que saiu pela culatra e que fortaleceu a percepção de que Bolsonaro é um agente que opera consistentemente à margem da verdade e da lei. O episódio da tornozeleira, longe de ser uma mera curiosidade forense, é um microcosmo de uma guerra maior: a batalha entre a normalidade democrática e a política como espetáculo do absurdo.


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