Quando o cristão comemora a morte, o Evangelho se cala.
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Por PolitikBr I Brasília, Em 06/11/2025, 16h:53, leitura: 6 min
“Está claro que a recente megaoperação policial autorizada pelo governador Cláudio Castro, que resultou na morte de 134 pessoas — entre elas quatro policiais — não é um ato de bravura ou justiça, mas a expressão do sintoma de uma doença social grave: o desprezo pela vida de pobres e negros, muitos deles inocentes.
O choque brutal que tomou os Complexos do Alemão e da Penha, mais do que um golpe contra o crime, expôs as raízes apodrecidas de um sistema corrompido e seletivo na aplicação da violência, que reproduz a desigualdade e alimenta a barbárie institucionalizada.” (PolitikBr)
O silêncio cúmplice, o silêncio conveniente, o silêncio que finge não ver o óbvio: a banalização da morte. Foi exatamente esse o som que ecoou após a chacina promovida pelo governo Cláudio Castro: o silêncio da morte. Seguido, então, de desespero, revolta e muito choro. Choros de mães que perderam filhos. Choros de filhos que não terão mais pais.
Mas o que realmente choca não é apenas o número de corpos. É o aplauso. Sim, o aplauso.
Dentro de uma igreja católica, durante uma missa, fiéis aplaudiram o governador – comandante em chefe – responsável pela carnificina. Um homem que se apresenta como servo de Deus; guiado pela fé, mas que transformou a violência de Estado em política pública e o sangue dos pobres em troféu. Ele ainda, microfone em mãos, teve a audácia de cantar um hino.
Em nosso artigo anterior, Só uma sociedade doente aplaude chacina, tratamos dessa contradição brutal: a incoerência entre o discurso cristão de amor ao próximo e o aplauso à morte do semelhante. O Cristo dos Evangelhos, aquele que chorou diante da dor humana, teria se retirado silenciosamente daquele templo. E é sobre esse silêncio que precisamos falar — o silêncio do Evangelho diante da hipocrisia dos que o usam como manto para justificar a barbárie.
O Evangelho calado
Dom Luiz Fernando Lisboa, Arcebispo de Cachoeiro de Itapemirim (ES), publicou ontem (04/11) o artigo da CNBB intitulado: “Quando o cristão comemora a morte, o Evangelho se cala.”
A frase é uma ferida aberta — e necessária. Porque quando a fé se confunde com o ódio, e a religião se converte em instrumento de legitimação da violência, o Evangelho deixa de falar. Disse ele:
“A Igreja, desde os primeiros séculos, ensina que a vida humana é dom de Deus, e que ninguém tem o direito de destruir o que pertence ao Criador.
A indiferença diante da morte, especialmente quando celebrada, é o sintoma de uma fé adoecida e de uma espiritualidade atrofiada.
A fé cristã não negocia a dignidade. Cada pessoa — inclusive quem errou, quem caiu, quem se perdeu — é imagem e semelhança de Deus. Toda morte é uma perda para a humanidade, não uma vitória.
Jesus não festejou a queda dos pecadores; A fé verdadeira chora as mortes e luta para que não se repitam.
A Igreja não se omite, mas também não se alegra com a destruição do outro. Evangelizar é defender a vida sempre — até o último sopro.”
Essa é a nossa indignação maior.
Não há Evangelho onde há aplauso à morte.
Não há Cristo onde há celebração do sangue derramado.
Não há fé quando a empatia é assassinada junto com os pobres.
O pronunciamento da CNBB é, portanto, mais do que uma nota pastoral. Mostra o que nos tornamos enquanto sociedade — cúmplices, indiferentes, anestesiados pela retórica do “bandido bom é bandido morto”. Só que nesse discurso há um detalhe que muitos ignoram: os mortos não eram “só bandidos”, como dito por Castro. Muitos eram trabalhadores, jovens, pais e filhos, sem ficha policial e sem qualquer mandado de prisão. Ao menos 17 dos 130.
Lula e o contraste moral
Enquanto o Rio de Janeiro celebrava o massacre como vitória, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva elogiava uma operação policial realizada na Bahia contra o Comando Vermelho, que prendeu líderes do tráfico sem matar ninguém.
“É isso que eu quero: uma polícia que prenda, não que mate”, afirmou.
E foi além: classificou a megaoperação de Castro como “desastrosa”, cobrando inteligência, estratégia e humanidade na segurança pública.
Essa diferença é emblemática.
Enquanto o governo Castro aposta no medo generalizado da sociedade, aterrorizada pela força bruta dentro e fora da favela, na Bahia – e nas ações da Polícia Federal no combate ao narcotráfico – se aposta no caminho da inteligência policial.
Enquanto o Rio se afunda na barbárie, a Bahia mostrou que é possível combater o crime sem transformar a favela em campo de guerra.
A fé que se perde entre os aplausos
Em outro ponto do seu artigo Dom Luiz Fernando Lisboa cita:
“A justiça é necessária, mas sem misericórdia, ela se torna vingança. O Papa Francisco recorda que “nenhuma paz é duradoura quando se constrói sobre o sangue dos irmãos”. A verdadeira justiça quer restaurar, não eliminar. Defender a vida não é proteger o crime, mas reafirmar que o mal se vence com o bem. A segurança pública precisa caminhar junto com a inclusão social, a educação, a escuta e o cuidado. “
Há uma contradição insustentável quando o púlpito que prega “amai ao próximo como a ti mesmo” é o mesmo cuja congregação aplaude a matança de irmãos. Essa é a essência da hipocrisia religiosa. O verdadeiro Evangelho não se alegra com a morte. Alguém, realmente humano, pode se alegrar com sofrimento e morte?
Quem professa a vida, ao contrário, se compadece da dor e se levanta diante da opressão. O que se viu, porém, foi uma distorção: um cristianismo transformado em capa moral para a violência institucional com fins puramente políticos. Um acinte à religiosidade.
“Ser cristão é acreditar que a vida tem sempre a última palavra. Diante da violência e do ódio, o Evangelho nos convida à conversão do olhar: a trocar a indiferença pela solidariedade, a vingança pela compaixão, a comemoração da morte pela promoção da vida. Em Mateus 5,9 lemos: “Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.” ( Dom Luiz Fernando Lisboa)
O Evangelho verdadeiro não se cala por covardia, mas porque sabe que palavras não bastam quando a fé é traída. E é por isso que resta a nós, cidadãos e cristãos de verdade, não silenciar. Falar. Denunciar. Resistir. Porque a consciência não pode se calar.
Esse artigo foi baseado em:
https://politicaemdebate.org/2025/11/03/so-uma-sociedade-doente-aplaude-chacina/
https://www.brasil247.com/regionais/nordeste/lula-elogia-operacao-policial-de-baixa-letalidade-na-baahia-e-pede-inteligencia-para-estrangular-o-crime
https://www.cnbb.org.br/quando-o-cristao-comemora-a-morte-o-evangelho-se-cala/
https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2025/11/7285304-lula-classifica-como-desastrosa-megaoperacao-contra-faccoes-no-no-rio.html
https://apublica.org/2025/10/operacao-de-claudio-castro-nao-matou-suspeitos-matou-gente-como-voce-e-eu-e-por-motivo-futil/
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cp3dzv2d47vo
https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2025/11/7284041-claudio-castro-e-aplaudido-em-missa-apos-megaoperacao-no-rj.html