A Distopia Libertária que Arrasta a Argentina ao Abismo

A Distopia Libertária que Arrasta a Argentina ao Abismo.

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Por PolitikBr I Brasília, Em 22/10/2025, 20h:10, Leitura: 6 min

Há um momento na história em que o absurdo deixa de ser apenas grotesco e se torna trágico. A Argentina vive esse momento. Javier Milei, o homem que chegou ao poder prometendo “passar a motosserra” no Estado e “libertar” o mercado, conseguiu o que poucos imaginavam: destruir em pouco menos de 2 anos o que restava da economia argentina — e ainda ser celebrado por parte da elite neoliberal brasileira como um messias da eficiência.

Milei não governa um país. Governa um laboratório de caos, onde a ideologia anarcocapitalista substitui a razão, e o povo serve de cobaia. O discurso de “menos Estado e mais liberdade” se tornou, na prática, “menos comida e mais desespero”. E, ironicamente, é o próprio mercado — aquele que o presidente argentino jurou libertar — que agora o devora.

Segundo reportagem do G1, o governo dos Estados Unidos formalizou uma linha de crédito no valor de US$ 20 bilhões em favor da Argentina, por meio de um acordo de swap cambial que permite ao país usar dólares norte-americanos para conter o colapso do peso. Mas o que se vendeu como “resgate econômico” é, na verdade, um salvamento político — um cheque diplomático a um aliado ideológico.

Como apontou a jornalista norte-americana Stephanie Ruh, o acordo é um risco bilionário para os cofres dos EUA, já que envolve a compra direta de pesos argentinos em plena crise fiscal norte-americana. O dinheiro não foi “empréstimo”, mas um compromisso de troca com lastro volátil e alto risco. Em outras palavras, um gesto simbólico de apoio a um aliado de Trump — e uma tentativa de evitar que o colapso de Milei manche a imagem da extrema direita global.

A motosserra e a fome

Em apenas um dia, segundo a análise do site Opinião Litoral, Milei queimou US$ 8 bilhões do pacote para conter a desvalorização do peso — uma sangria cambial que mais que nunca mostra o fracasso de sua política econômica. O autodenominado “leão libertário” acabou cercado pelas próprias jaulas que ergueu: inflação reprimida à base de austeridade brutal, desemprego crescente e aumento da pobreza.

O que restava do tecido social argentino foi rasgado à motosserra. Programas sociais foram extintos, subsídios cortados e os serviços públicos, dilapidados. O “mercado livre” virou um deserto de oportunidades. A desigualdade disparou. E, como bem observou o especialista em finanças José Kobori, em seu site; se trata de um fenômeno global:

É um método: você ataca o Estado para tomar o Estado; ataca a política para tomar a política.”

Essa fórmula — ensaiada por Trump, testada por Bolsonaro e agora elevada ao paroxismo por Milei — é uma estratégia de dominação sob o disfarce da “libertação”. Se destrói o Estado em nome da liberdade, mas o resultado é o inverso: se cria um vazio institucional onde o capital predatório reina sem limites.

A Farsa do anarcocapitalismo

O anarcocapitalismo de Milei é uma caricatura ideológica. Como disse José Kobori:

É uma junção de imbecilidades que criou corpo na internet.”

A crença de que o “mercado” pode substituir o Estado é uma infantilização do pensamento econômico. O mercado só existe porque há Estado; é o Estado que garante a propriedade privada, regula contratos, protege o crédito e assegura o valor da moeda. Sem Estado, não há capitalismo — há barbárie.

Mas o discurso messiânico do “anticasta” seduziu os desesperados. Milei ascendeu sobre a ruína da esperança argentina, tal como Bolsonaro o fez no Brasil: prometendo “limpar” o sistema, enquanto o contaminava por dentro. Sua imagem — ora caricatural, ora agressiva — serve à lógica da extrema direita global: a teatralização do poder. Prova disso foi o autêntico show de horrores de Milei roqueiro em um evento de promoção de seu próprio livro – o uso da tática da distração. Enquanto a Argentina afunda, Milei dá seu showzinho particular, feito um palhaço.

Trump, o tutor do caos

O empréstimo bilionário dos Estados Unidos é, portanto, mais do que um auxílio econômico de um aliado: é o símbolo da tutela trumpista sobre o fracassado Milei.

Trump enxergou em Milei a oportunidade de reafirmar sua influência hemisférica. Ele emprestou US$ 20 bilhões ao cambaleante Milei em um momento de shutdown dos Estados Unidos, em que se deixa de pagar os salários de milhares e milhares de trabalhadores, por falta de dinheiro.

Mas essa operação política não salva a Argentina; apenas a empurra mais fundo no abismo. A dependência externa volta a crescer, o endividamento dispara e a soberania econômica se dissolve.

O Ídolo de Tarcísio e a síndrome da extrema direita

No Brasil, Tarcísio de Freitas chegou a exaltar Milei como exemplo de “coragem e eficiência”. Ironicamente, é essa admiração que revela o verdadeiro DNA da extrema direita brasileira (bolsonarismo): a crença de que a destruição do Estado é sinal de modernidade. O mesmo discurso que tenta sucatear, para depois privatizar o SUS; que ataca as universidades públicas e criminaliza as políticas sociais, agora se vê travestido com sotaque portenho, em Buenos Aires. E ainda recheado de escândalos de corrupção. O mesmo modus operandi falso da extrema direita.

O colapso argentino é o que agora? Milei era celebrado como “modelo”. A Argentina vive hoje a consequência direta do desmonte do Estado. O “libertário” que prometia um novo futuro mergulhou a Argentina em uma tragédia: fome, dívida e subserviência.

Trump, ao falar sobre o empréstimo swap de US$ 20 bilhões à Milei, afirmou que a Argentina está ‘morrendo’ e ‘lutando para sobreviver’:

Nada está beneficiando a Argentina, eles estão lutando por suas vidas. Você entende o que isso significa? Eles não têm dinheiro. Eles não têm nada. Eles estão lutando tanto para sobreviver. Eles estão morrendo’, disse.

O bondoso Trump. Tão preocupado com o povo argentino. Nos poupe de tanta hipocrisia.

Milei é o espelho deformado de um modelo econômico equivocado pela ilusão de que o mercado pode substituir o Estado. Seu governo é uma distopia viva, uma mistura de fanatismo econômico e messianismo digital. E o “resgate” de Trump não é solidariedade — é migalha ideológica.

A Argentina, mais uma vez, paga o preço da brutalidade neoliberal extremada. E o mundo assiste a mais um capítulo de autodestruição que poderia ter sido evitada.

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