Lula e Trump: o diálogo entre caminhos opostos

Lula e Trump: O diálogo entre caminhos opostos.

PolitikBr é uma mídia independente. Informar não é “torcida”. Não é distorcer, manipular ou mentir.

Por PolitikBr I Brasília, Em 19/10/2025, 20h:03, Leitura: 4 min

O cenário geopolítico anuncia um encontro provavelmente tenso:  Os Presidentes Lula e Trump deverão se reunir em breve, mas as circunstâncias que envolvem ambos não poderiam ser mais antagônicas. De um lado, Trump, imerso em múltiplas crises: internas, econômicas e diplomáticas. Do outro, Lula que, com pragmatismo político e senso histórico, sustenta a tão necessária busca pela paz, do respeito à soberania entre as nações, e uma feroz defensa da multipolaridade.

A conjuntura é profundamente desfavorável a qualquer diálogo sereno. Trump se move como um líder contestado e acuado, tentando afirmar autoridade através do autoritarismo e da intimidação. Seu governo tem multiplicado ameaças à Venezuela, chegando a cogitar uma intervenção militar e até o assassinato de Nicolás Maduro — uma escalada verbal que remete ao auge da Guerra Fria e que foi reforçada pelo apoio explícito de figuras como Corina Yoris, a chamada “nobel da guerra”, que endossa a cartilha intervencionista de Washington .

Enquanto isso, Lula caminha em direção oposta. O presidente brasileiro tem defendido, em fóruns internacionais, o direito de autodeterminação dos povos e rechaçado qualquer interferência estrangeira na Venezuela. Recentemente, sem citar Trump, afirmou que “nenhum presidente deve dar palpite na Venezuela”. Essa declaração veio em resposta direta à pressão norte-americana e às movimentações de Washington junto à oposição venezuelana. Nos bastidores, chanceleres de ambos os países procuram “destravar a comunicação” diplomática diante da escalada de tensão .

Esse contraste é apenas um entre vários pontos de divergência. Enquanto Lula consolida o papel do Brasil como mediador e construtor de pontes, Trump aposta na lógica da coerção e da divisão. O caso mais simbólico talvez seja o processo de “paz sob pressão” em Gaza, onde o cessar-fogo entre Israel e Hamas vem sendo violado sistematicamente por Israel.

Trump tenta vender a imagem de negociador, mas na prática não controla o ímpeto de seu aliado Benjamin Netanyahu que, às claras, sabota o frágil acordo firmado, e cuja política de ocupação brutal transforma qualquer acordo em mera ficção. Segundo o analista Salem Nasser, entrevistado pelo Brasil 247, “Trump vende paz, mas o conflito permanece”. A narrativa diplomática da Casa Branca, portanto, esconde o fato de que os Estados Unidos continuam coniventes com a política de limpeza étnica de Israel contra o povo palestino.

O virtual colapso do cessar-fogo em Gaza é sintoma de uma política externa que, sob Trump, tenta reafirmar o domínio geopolítico americano apoiando regimes de exceção, mesmo ao custo de um genocídio.

Paralelamente, a situação doméstica norte-americana está longe de confortável. Sete milhões de manifestantes foram às ruas nos principais estados do país para protestar contra o que chamam de “autocracia de Trump”. As imagens dos protestos, carregadas de cartazes dizendo que “Trump não é rei”, sintetizam o acirramento da polarização de uma sociedade dividida entre o mito do poder pessoal e a defesa das instituições democráticas. O movimento reflete o retorno do espírito de resistência que, ironicamente, Trump ajudou a reacender.

No plano econômico, a administração republicana tenta conter o impacto das próprias medidas. O tarifaço recente, imposto contra diversos países — inclusive o Brasil —, acabou por agravar a desaceleração da economia americana, que já vinha enfrentando pressões inflacionárias e perda de competitividade industrial. Enquanto o FMI elogia o desempenho econômico do Brasil, cuja resiliência neutralizou o efeito das tarifas impostas por Trump e estimuladas pela dupla Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo contra o próprio país, os Estados Unidos enfrentam uma crescente percepção de isolamento. A retórica protecionista que deveria impulsionar a indústria nacional terminou por encarecer insumos, desestabilizar cadeias produtivas e reduzir o poder de compra interno do povo americano.

Lula, por outro lado, de forma diametralmente oposta, defende que as relações econômicas entre parceiros seja de ganha – ganha, como costuma dizer o vice presidente Geraldo Alckmin. Uma visão estratégica e não apenas ideológica. O Brasil, hoje, goza de ótima avaliação internacional, por manter um equilíbrio entre crescimento econômico, austeridade, compromisso fiscal e uma política externa ativa. Essa construção de respeitabilidade contrasta vivamente com o isolamento de Trump, que se fecha num discurso de grandeza perdida e poder ameaçado.

Nessa atmosfera, um eventual encontro entre Lula e Trump deve se centrar na pauta econômica, que interessa a ambos os países, mais do que de um entendimento mais amplo. Será um diálogo entre duas visões. De um lado, o da diplomacia e da interdependência. De outro, o poder coercitivo unipolar. O primeiro busca criar pontes; o segundo, construir muros. O Brasil fala de respeito; os Estados Unidos, de submissão. A distância entre ambos não está apenas na geografia — está nos alicerces morais de suas políticas.

Esse artigo foi baseado em:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *