Milei virou seu próprio espetáculo: um presidente em jaqueta de couro, tentando distrair o povo

Milei: o colapso anunciado da farsa libertária

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Por PolitikBr I Brasília, Em 08/10/2025, 18h:51, Leitura: 6 min

A Argentina vive um dos períodos mais sombrios de sua história democrática recente. O que começou como a promessa de uma “revolução liberal” comandada por Javier Milei — um personagem histriônico, de retórica histérica e soluções ditas mágicas, e que diz falar com seu cão, Conan, morto em 2017.— se transformou rapidamente em uma crise institucional, social e econômica sem nem mesmo completar dois anos de seu desastroso governo. O discurso anticasta, que vendia a ideia de romper com o “sistema corrupto”, se revelou uma farsa cuidadosamente embalada para o consumo das massas desesperadas por mudança, em especial os segmentos da população mais jovem.

A promessa e o engano

Milei ascendeu ao poder explorando o ressentimento social e a falência do Estado argentino, desgastado por décadas de políticas neoliberais e populismos econômicos que se alternaram em ciclos de fracasso. Seu discurso, temperado com gritos, metáforas de “serras elétricas” e ataques à “casta política” – ele e sua irmã agora fazendo parte dela – , prometia uma limpeza moral e fiscal. Porém, o que se viu, em poucos meses de governo, foi o desmonte acelerado do Estado, a explosão da miséria e uma corrosão social que ameaça a própria estrutura da nação.

Os cortes brutais em subsídios e o arrocho fiscal imposto aos mais pobres abriram feridas profundas na sociedade. Enquanto Milei vendia a imagem de “gênio econômico libertário”, o país mergulhava num colapso previsível: inflação dos alimentos fora de controle, desemprego crescente e um aumento dramático dos índices de pobreza.

O economista Eduardo Moreira resumiu bem essa tragédia ao afirmar que Milei está “destruindo a Argentina” — Ele professa a fé cega do ultra liberalismo, travestida de patriotismo. Se trata de uma aplicação radical do receituário de Milton Friedman e Hayek em um país que já não possui estrutura para suportar tamanha desregulamentação. O resultado é a volta à barbárie: filas de famintos, apagões em serviços públicos e o desmonte da soberania nacional.

O colapso ético e o espetáculo grotesco

A tragédia argentina não é apenas econômica — é também moral. Milei se apresentou como o inimigo da corrupção, o paladino da ética. Mas logo a máscara de seu governo caiu. Sua irmã Karina Milei, autointitulada “Chefa”, foi envolvida em um escândalo de corrupção e tráfico de influência que desmontou o discurso da “nova política”. Ela teria participado de um esquema de manipulação de cargos e contratos públicos, operando com o mesmo cinismo das velhas oligarquias que o presidente jurava combater.

E, como se a realidade não fosse trágica o suficiente, Milei resolveu transformar a política em espetáculo circense. No evento que se tornou símbolo da sua desconexão com o povo — realizado num espaço de shows em Buenos Aires — o presidente apareceu em uma jaqueta de couro, pulando no palco ao som de uma banda de rock, enquanto a miséria crescia nas ruas. O ato performático, transmitido em rede nacional, foi um misto de autoparódia e desespero: Milei tentava reanimar a base de jovens que o elegera com promessas de ruptura, mas que agora veem o país afundar no caos.

No telão, imagens de líderes da extrema direita mundial — entre eles Jair Bolsonaro, exibido no momento da facada — compunham um cenário mórbido. Um “show de horror”, como definiu a imprensa argentina. A encenação buscava fabricar empatia por meio do vitimismo político, mas o resultado foi patético. Enquanto cantava e lançava seu livro “O Milagre Econômico”, Milei pedia “paciência” à população, prometendo que “tudo vai melhorar”.

Mas a realidade é outra: os supermercados estão vazios, a inflação corrói salários e a paciência dos argentinos acabou. Sua popularidade despenca, os governadores se afastam e a base parlamentar minguou — hoje, a “banda de rock” de Milei simboliza, com precisão, o tamanho real de sua sustentação política.

A crítica feita no vídeo é certeira: Milei ainda não entendeu que é presidente. Confunde palanque com governo, aplauso com legitimidade, espetáculo com gestão. Assim como Bolsonaro, acredita que governar é manter um personagem em cena — um ator que se alimenta de plateia, não de resultados. Ambos transformaram o exercício do poder em performance, e a política em um reality show de baixa qualidade moral.

O retorno do velho vício

Os escândalos de corrupção envolvendo a irmã Karina e o aliado acusado de ligação com o narcotráfico — enterraram de vez o discurso anti corrupção e da “nova política”. A “casta” que Milei dizia combater está viva, fortalecida e agora ocupa os corredores da Casa Rosada.

O que se vê, prematuramente, é o colapso ético de um governo que prometia ser diferente, mas opera com os mesmos vícios do velho poder argentino: nepotismo, favorecimento, autoritarismo e um desdém absoluto pelas instituições democráticas.

A farsa ideológica

O caso Milei é emblemático e serve de alerta ao Brasil. A retórica da extrema direita é sempre a mesma: culpar o Estado, demonizar o funcionalismo, atacar a educação, os gastos com saúde pública, com as artes, cortar os programas sociais e de renda, as aposentadorias – sempre que possível – e glorificar o “empreendedorismo individual” — enquanto protege as elites financeiras. É uma política de guerra contra o povo, vendida como “libertação”. A mesma “libertação” que Trump está promovendo nos EUA.

O ultra liberalismo, disfarçado de modernidade, é na verdade uma ideologia de submissão — ao mercado, aos EUA e ao capital especulativo internacional. É a velha dependência colonial reeditada com memes, tiktokers e slogans pseudo-revolucionários. Milei, que se diz “anarcocapitalista”, nada mais é do que um reprodutor das políticas que empobrecem nações inteiras para enriquecer rentistas e bancos estrangeiros.

As consequências

Mais do que um erro político, Milei representa uma fraude. Sua campanha baseada em ódio, teorias conspiratórias, uma doutrina econômica perversa, e teatralidade circense, não passa de cortina de fumaça. A Argentina volta a ser o laboratório de políticas neoliberais que faliram nos anos 1990 — e, como então, o povo é quem paga a conta.

A história, porém, é implacável com farsas. Milei está sendo engolido pela realidade. O discurso de que “tudo é culpa do socialismo” perde força quando a miséria bate à porta e a corrupção explode dentro do próprio gabinete presidencial. O libertarismo de Milei é o velho engano dos déspotas modernos.


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