Tarcísio, o deboche e o veneno: a insensibilidade da extrema direita é a sua mais grotesca marca

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Por PolitikBr I Brasília, Em 07/10/2025, 12h:20, Leitura: 4 min

Tarcísio, o deboche e o veneno: quando a insensibilidade se torna método

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, parece ter decidido seguir à risca o manual do cinismo político da extrema direita brasileira. Diante de um escândalo grave de adulteração de bebidas alcoólicas com metanol — um episódio que já contaminou centenas de pessoas e possivelmente matou ao menos 12 —, o governador preferiu debochar. Disse, em tom de piada, que “só vai se preocupar quando falsificarem Coca-Cola”. É uma frase que, por si só, sintetiza o abismo ético que separa a sensibilidade humana de quem ocupa o poder.

A declaração de Tarcísio não é apenas infeliz. É um insulto aos mortos, aos hospitalizados, às famílias destruídas e a toda uma sociedade que espera de seus líderes, no mínimo, respeito e empatia. O deboche diante da dor alheia, em tom de brincadeira, não é um deslize verbal — é uma confissão moral. O mesmo tipo de frieza que vimos em Jair Bolsonaro durante a pandemia, quando, diante de milhares de mortos por Covid-19, disse que “não era coveiro” e ironizou pacientes agonizando por falta de oxigênio em Manaus. É o mesmo DNA político: o da desumanização como instrumento de poder.

Essa forma de se expressar não é casual. Ela revela o método: banalizar a tragédia para anestesiar a sociedade. Ao transformar um desastre sanitário em piada, Tarcísio reduz o escândalo à anedota, desloca o debate da responsabilidade para o campo do “mimimi” e, de quebra, se apresenta como o homem “comum”, supostamente imune ao “politicamente correto”. É uma estratégia de comunicação política importada da extrema direita internacional — de Trump, de Steve Bannon, de Milei — e que tem, no Brasil, adeptos cada vez mais confortáveis em zombar da dor humana.

Mas voltemos aos fatos. O caso é gravíssimo. Segundo reportagem do G1, pelo menos 12 pessoas morreram e outras centenas foram hospitalizadas em diversos estados brasileiros após consumir bebidas adulteradas com metanol, uma substância altamente tóxica usada como solvente industrial e combustível. O consumo de pequenas quantidades pode causar cegueira, falência renal, coma e morte. Se trata de um crime de saúde pública em larga escala. A vigilância sanitária e as forças policiais deveriam estar em operação nacional de emergência. Em vez disso, temos um governador rindo da situação.

Quando Tarcísio diz que só se preocuparia se “falsificassem Coca-Cola”, ele não apenas ignora a gravidade da tragédia — ele normaliza a ideia de que a vida humana é descartável, desde que não envolva marcas famosas ou interesses corporativos. O subtexto é claro: a dor dos pobres, das vítimas anônimas, dos que compraram bebida barata, não merece atenção. É o mesmo desprezo que vimos quando o governo federal, durante a pandemia, minimizou as mortes porque “eram de velhos” ou “de quem já tinha comorbidade”. A morte, quando não é lucrativa, parece não ter importância.

O mais grave é que esse tipo de discurso não é apenas imoral. Ele é politicamente calculado. A indiferença performática. O deboche se torna uma arma cultural. E em tempos de redes sociais, cada frase desumana serve como senha ideológica: quem ri junto, pertence ao grupo. Quem se indigna, é “esquerdista”. Assim, a linguagem do desprezo se institucionaliza.

Ao agir assim, Tarcísio trai a liturgia do cargo e o próprio sentido de governar. Um governador não pode ser o porta-voz do sarcasmo diante da tragédia. Deve ser o primeiro a garantir investigação, fiscalização e responsabilização dos culpados. Deve se colocar ao lado das vítimas, não desdenhar de sua dor. Deve comunicar à sociedade que vidas importam mais do que o marketing político. Mas o governador prefere o espetáculo da grosseria à responsabilidade pública.

A fala de Tarcísio revela mais do que insensibilidade: revela a deterioração ética da política contemporânea brasileira. Quando o riso é usado para mascarar a omissão, o deboche se torna uma forma de poder torto, brutalizado. E o que mata não é só o metanol nas garrafas — é a indiferença que contamina a alma da política.


Esse artigo foi baseado em:
🔗 Brasil 247 – Tarcísio debocha após mortes por metanol em SP
🔗 G1 – Intoxicação por metanol no Brasil: casos e mortes

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