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Por PolitikBr I Brasília, Em 05/10/2025, 19h:53, Leitura: 8 min
O colapso do experimento Milei se tornou um verdadeiro estudo de caso do ultra neoliberalismo no século XXI. Em meio à persistente crise social argentina, o fracasso econômico e o ético colidiram: Javier Milei, antes visto como o “messias do ajuste fiscal”, agora enfrenta crescentes índices de desaprovação, pressões cambiais e um escândalo de corrupção que envolve a sua irmã, braço direito e gestora do núcleo duro do poder.
Ao fundo dessa desordem, ecoa o elogio cínico de Tarcísio de Freitas, presidenciável – que diz que não é presidenciável – brasileiro da extrema-direita. Ele exaltou em abril desse ano o ajuste fiscal de 5% de Milei em cima do lombo do pobre: “Se você me perguntasse há um ano se seria possível o Milei cortar 5% do PIB de gasto público em um ano, eu diria que não é possível, mas foi”, afirmou Tarcísio durante o evento J. Safra Macro Day 2025, do Banco Safra. Tarcísio fala não para os pobres, os desvalidos, os espoliados e os injustiçados. Ele fala para as plateias tupiniquins sedentas por cortes de direitos e benefícios sociais, as mesmas vozes de sempre que se beneficiam das extorsivas taxas de juros praticadas pelo Banco Central; mas sua voz silencia quando o ídolo naufraga e expõe o abismo entre o discurso e a realidade.
A aurora do governo Milei foi “vendida ao povo argentino, engabelado“, como uma cruzada contra o chamado “estado ineficiente”, cortando 5% do PIB em gastos públicos — um feito que soou como música para os ouvidos dos financistas locais e globais, sempre ávidos em transformar qualquer crise alheia em oportunidade especulativa. Tarcísio, do púlpito dos eventos bancários, celebrou a façanha, talvez como exemplo para o Brasil. Mas omitiu o preço pago pelo povo argentino: uma devastação social que transformou a vida dos mais pobres em moeda de ajuste para o enriquecimento contínuo dos já abastados.
Ao longo de todo o governo Milei, iniciado em dezembro de 2023, os cortes de gastos sociais em proporção ao PIB foram dramáticos e constituíram a principal âncora do seu projeto de ajuste fiscal. Do corte de 5%, ao menos um terço afetou diretamente as áreas sociais – saúde, educação, previdência e programas de assistência para os mais pobres- . Isso significa aproximadamente 1,5% do PIB a menos nessas políticas, quando consideradas as perdas acumuladas no orçamento social desde dezembro de 2023 até o fim de 2025. Ao longo de dois anos, o ajuste fiscal extremado resultou em uma retração inédita dos gastos destinados à população mais vulnerável, sem precedentes nas democracias atuais, mas o preço foi o óbvio aumento da pobreza, da miserabilidade, o que levou à intensas mobilizações sociais e instabilidade política, reprimida de forma violenta pelo governo.
O rosto real da farsa se revelou rapidamente. A economia argentina não decolou. Ao contrário, se endividou ainda mais recorrendo ao FMI. E mostra sinais claros de derrocada, nesse momento, pela incapacidade de reter reservas e pela criatividade desesperada dos argentinos em fugir da espiral inflacionária e cambial. Entre abril e agosto desse ano, por exemplo, 9,5 bilhões de dólares evaporaram das minguadas reservas, via arbitragem entre câmbios — um saque autorizado pela própria arquitetura desastrada do ajuste.
Incapaz de segurar a sangria, Milei queimou 1 bilhão de dólares em dois dias num pueril esforço de conter a queda do peso, assistindo atônito à corrosão da credibilidade de sua política econômica diante dos mercados — ironicamente, aqueles mesmos mercados cujo aplauso estrondoso embasou cada um de seus ataques ao povo argentino.
O “milagre Milei” se transmutou, então, ao pesadelo Milei. Desemprego, congelamento de salários, precarização acelerada da saúde e da educação, congelamento de pensões, aumento astronômico dos preços dos alimentos, tudo isso sob a sombra dos escândalos de corrupção — como o suposto esquema de propinas da irmã Karina na compra de medicamentos para deficientes, que explodiu a desaprovação popular para o maior índice já registrado desde o início do mandato: 54% dos argentinos repudiam seu presidente, com 49,5% considerando seu governo “ruim” ou “péssimo”.
A metáfora se fecha quando se observa o que acontece no Brasil sob gestão oposta. A gestão de Lula. Enquanto Milei sacrifica o povo argentino no altar do rentismo e da ortodoxia, o governo Lula vem ampliando os programas sociais; as reservas internacionais aumentaram em 30 bilhões de dólares. A taxa de desemprego caiu para números historicamente baixos (5,6%), o investimento estrangeiro direto atingiu patamares recordes e, após décadas de regressão tributária, foi bem sucedida o início da inversão da lógica perversa, que garantia aos ricos e super-ricos uma alíquota de imposto inferior à paga pelas classes menos favorecidas.
Lula, ao contrário do “herói” de Tarcísio, apostou em políticas inclusivas: ampliou a isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil mensais, atacou os privilégios fiscais dos milionários e bilionários, está investindo pesado na reindustrialização do Brasil e optou pela recuperação dos investimentos públicos, como mola de reativação da economia nacional. Como diz Lula: “A roda da economia tem que girar”.
Embora os “mercados” tenham torcido o nariz, os números frios — sempre evocadas pelos fiéis do culto fiscalista — gritam: crescimento das reservas cambiais, explosão dos investimentos públicos, desemprego em queda livre, inflação que deve ser menor que 4,5% esse ano, e renda em recuperação. Não há milagre, só a velha lição que Tarcísio e seus admiradores fingem não enxergar: os países só prosperam quando a riqueza circula da base para o topo, e não o contrário.
Destaquemos o silêncio ensurdecedor de Tarcísio nesse novo contexto: sua retórica de exaltação ao ajuste Milei sumiu, quando ficou patente que o modelo, longe de ser referência, é sinônimo de devastação. Ao se espelhar no fracasso argentino, o presidenciável da extrema-direita apenas sinaliza a quem serve — não ao povo, mas ao capital especulativo que lucra com a dor dos pobres. Aquele “clubinho” que se beneficia do rentismo nacional.
A Argentina de Milei é hoje laboratório de um liberalismo extremado. A aposta na farsa fiscalista é aposta no autoritarismo, na desigualdade, e no retrocesso social. O Brasil atual, ainda sob embate e pressões, prova que há outro caminho. O povo argentino, decepcionado, já pagou para ver. O brasileiro, ao menos por ora, colhe os frutos de escolhas mais humanas e inclusivas. Esperamos que continue assim.
Com as recentes derrotas no Congresso e o fracasso retumbante de seu plano econômico, Javier Milei vê seu projeto político derreter diante dos olhos, até mesmo, dos antigos aliados.
Milei amarga também graves reveses nas urnas, como ficou claro na eleição recente na província de Buenos Aires, a mais populosa da Argentina. Nesse pleito, sua base foi derrotada com significativa margem, sinalizando uma erosão profunda tanto do apoio popular quanto da máquina partidária capaz de sustentar a sua agenda nefasta.
Esse panorama desenha um futuro sombrio para Milei e seus correligionários nas próximas eleições nacionais e locais. O esvaziamento de apoio no maior colégio eleitoral argentino indica que seu discurso antiestablishment já perdeu o apelo até entre os setores que, antes, queriam dar uma chance à aposta ultraliberal. Agora, diante dos resultados tangíveis: desemprego elevado, queda do poder de compra, aprofundamento das desigualdades e cortes que atingiram em cheio a vida cotidiana da população, o fracasso de Milei deixa de ser abstrato para se tornar regra sentida no dia-a-dia do povo.
A tendência, apontada por muitos analistas políticos, é de que Milei não só continue enfrentando derrotas legislativas, mas também vire alvo de rejeição massiva nas urnas, consolidando o colapso de sua experiência ultraliberal; o que soa como um alerta dramático ao Brasil e a outros países, como os EUA, que segue sob Trump o mesmo caminho.
Esse artigo foi baseado em:
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