Enquanto Donald Trump insiste em usar tarifas como arma política contra o Brasil e contra outros parceiros do BRICS, como a Rússia, a China, o Irã e a Índia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reage de forma estratégica ao convocar uma reunião para formular uma resposta coordenada às agressões econômicas dos Estados Unidos. O formato dessa reunião foi inédito. Foi por videoconferência na tarde de hoje (07/09). As discussões não envolvem apenas uma retaliação pontual às tarifas impostas por Washington, mas de um movimento que deve acelerar a construção de alternativas financeiras e comerciais dentro do bloco.
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Por PolitikBr I Brasília, Em 08/09/2025, 18h:39, Leitura: 5 min
O gesto de Lula foi mais um passo na formatação de uma nova ordem multipolar, em que os principais atores são os países do BRICS e do Sul Global, e que depende de unidade frente ao inimigo comum. No caso do Brasil, as tarifas impostas sob o pretexto farsesco de “perseguição judicial” contra Jair Bolsonaro, revelam a essência da política externa americana: tentar punir quem busca autonomia e ameaçar a hegemonia do decadente Estados Unidos.
Lula, ao chamar os parceiros – Rússia, China, Índia, Irã, África do Sul, demais parceiros e associados – à mesa (20 países), mostra que sozinho o Brasil, assim como os demais Estados, seriam alvo da coerção, mas unidos se transformam em uma frente capaz de enfrentar a pressão e devolver na mesma moeda.
Lula, portanto, ao convocar o bloco busca resistir coletivamente às agressões tarifárias e políticas dos EUA, o que só se dará, de forma efetiva, pela aceleração de alternativas econômicas concretas, como resposta ao novo protecionismo global.
A realidade na geopolítica atual é que Trump, de volta à presidência, emprega as tarifas para tentar induzir a reindustrialização dos Estados Unidos perdida desde os anos de 1970, o que é legítimo, mas que será um fracasso dessa forma – a ruptura do ordenamento de negócios entre as nações – será um fracasso, já que a reindustrialização vem sendo tentada desde o governo Barack Obama e não é viável, nem talvez em10 ou 20 anos. Outro objetivo de Trump é fazer caixa para uma economia deficitária desde os anos 2000, com uma dívida pública astronômica de US$ 37 trilhões, já impagável, e que deve chegar fácil a US$ 41 trilhões em poucos anos, afinal, quem paga o preço das tarifas é o consumidor americano.
Para tentar manter os EUA como potência unipolar, Trump ainda tenta conter a expansão do BRICS, da OCX e do Sul global, não somente com tarifas, mas com ameaças, coerção. Mas esses países estão cansados dos EUA e não mais aceitam se submeter ao domínio do dólar desde os anos 1940, usado como arma geopolítica e confiscos. Esses mesmos grupos e países também não aceitam mais financiar a ineficiência econômica e o estilo perdulário de vida do povo americano. E para que isso não ocorra, Trump abriu uma guerra político-econômica contra o mundo, como vemos hoje.
Em discursos recentes no BRICS, Lula ressaltou que a escalada protecionista “reforça a importância de superar entraves e ampliar opções de pagamento” entre os países do bloco, defendendo explicitamente a implementação de alternativas como a moeda do BRICS, o sistema BRICS Pay, uso ampliado de moedas locais e a criação de rotas logísticas e digitais próprias (por exemplo, cabos de dados submarinos). Para Lula, a resposta à agressão norte-americana só pode ser a coesão estratégica e a coordenação pragmática, neutralizando a desinformação e desenvolvendo um “plano Marshall às avessas”, no qual os países emergentes financiam seu próprio desenvolvimento, fugindo da dependência dos mecanismos do FMI e do Banco Mundial.
O momento não é apenas de autodefesa. Lula insiste que o BRICS precisa liderar uma reforma urgente das instituições multilaterais, repactuando o comércio, a OMC e blindando avanços em clima, ciência, IA e infraestrutura – setores onde os EUA usaram sanções e chantagens para isolar emergentes. A lógica de Lula faz sentido: sem alternativas ao dólar e à arquitetura financeira controlada por Washington, toda resposta política será insuficiente diante da guerra econômica travada no século XXI.
A resiliência conjunta, inovação institucional, integração financeira e controle das próprias narrativas são fundamentais nesses novos tempos de desafios. Enquanto os EUA marcham no isolacionismo tarifário e punem qualquer alternativa ao seu poder, o BRICS se fortalece como polo alternativo multipolar — inclusive debatendo a entrada de novos membros (como o Canadá) e expandindo alianças no Sul Global.
A liderança de Lula não poupa críticas, mas conquista espaço. Com firmeza, ele pauta o debate internacional e exige dos parceiros ação coordenada, rompendo o silêncio servil de décadas passadas e apostando em um novo capítulo das relações globais.
Trump acreditou que poderia enfraquecer e coagir o Brasil com tarifas e medidas de lawfare contra ministros e autoridades brasileiras. A resposta de Lula foi transformar o ataque em oportunidade: acelerar a integração do BRICS e, indiretamente, do Sul global; fortalecer a cooperação entre todos os parceiros e dar mais um passo no processo de ruptura com a ordem unipolar.


