Efeito Trump: Canadá não pode mais contar com os EUA como parceiro comercial, diz premiê

Novos tempos. O Primeiro-Ministro do Canadá recentemente declarou que seu país não pode mais contar com seu vizinho histórico, os Estados Unidos. E a origem dessa ruptura é, no fundo, uma combinação tóxica de cobiça geopolítica e expansionismo agressivo, incendiada por Donald Trump quando este chegou a cogitar, publicamente, anexar militarmente o Canadá e a Groenlândia, transformando o Canadá no “Estado de número 51” do “império americano”. A ameaça foi além das bravatas: Trump sonhou em redesenhar mapas, dissolver fronteiras “artificiais” e absorver a riqueza dos solos e gelos do Norte.

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Por PolitikBr I Brasília, Em 07/09/2025, 18h:42, Leitura: 4 min

O pano de fundo dessa obsessão não é apenas territorial, que transformaria os EUA, sonhado por Trump e seus falcões, ligeiramente maior que a Federação Russa de Putin, o maior país do mundo; mas mineral e energético. As bacias sedimentares do Ártico guardam, segundo estudiosos, algumas das maiores reservas de petróleo, gás e minerais do planeta. Metais raros e recursos cruciais para a indústria global de agora e do futuro estão sob o controle direto dos países nórdicos — Noruega, Finlândia, Dinamarca (pela Groenlândia), e de forma dominante pela Federação Russa. Essas riquezas ainda pertencem ao Canadá e à Groenlândia, que juntos, detêm um dos maiores potenciais inexplorados, eclipsando o Alasca dos EUA, que ocupa uma posição secundária em área e potencial econômico.

A postura beligerante e unilateral de Trump não só comprometeu as delicadas relações de complementariedade econômica entre o Canadá e os EUA, como também destruiu as relações comerciais complementares com o México. O acordo que existia antes de Trump tomar posse em 2025 entre os Estados Unidos, o México e Canadá – USMCA (Acordo Estados Unidos-México-Canadá) – foi assinado em 2018 e entrou em vigor em julho de 2020. Ele substituiu o antigo NAFTA (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio), vigente desde 1994.

O USMCA modernizou as regras de comércio entre os três países, incluindo novas normas sobre trabalho, meio ambiente, comércio digital e anticorrupção, e era frequentemente chamado de “NAFTA 2.0”. Ele foi o resultado de negociações durante o primeiro mandato de Trump, que pressionou por mudanças mais favoráveis aos EUA. Portanto, antes de 2025, México, Canadá e EUA operavam sob o USMCA.

Com as políticas agressivas e intimidatórias de Trump agora em 2025, o USMCA foi, na prática, destruído, assim como Trump também destruiu a USAID. O “braço imperialista do soft power americano”.

No caso do Canadá, as políticas caóticas de Trump estão tendo um efeito prático e inevitável: o Canadá amplia sua autonomia diplomática, revisa suas dependências e já cogita aderir ao BRICS, enquanto observa a ascensão da Organização de Cooperação de Xangai (OCS) e de países que buscam fugir da órbita econômica e militar estadunidense.

No vácuo das alianças, o Brasil, um dos fundadores do BRICS, emerge como alternativa comercial: ambos os países selaram um acordo de tarifas zero, promovendo uma integração que contrasta com o isolacionismo dos EUA e beneficia suas economias. A diplomacia canadense — que durante décadas buscou proximidade com Washington — agora abraça a pluralidade de parceiros, apontando que “o mundo mudou, o Canadá não pode contar mais com os EUA”. A rejeição à dependência salta aos olhos, especialmente frente ao risco real de anexações forçadas, tarifações abusivas e ameaças militares motivadas pela cobiça dos recursos naturais do Norte.

O mandato de Trump, se ele não destruir a democracia americana e se mantiver no cargo de forma autocrática, como faz Putin, Viktor Orbán e Erdogan, e como também tentou fazer Bolsonaro, é mais do que um acidente de percurso, revela o esgotamento do modelo norte-americano de liderança global, cada dia mais isolado, pseudamente autossuficiente e cercado por muros tarifários, ameaças e nostalgia imperial.

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