PolitikBr comenta hoje a instigante análise do financista José Kobori, apresentada em entrevista ao podcast Flow, sobre a atualidade do pensamento de Celso Furtado.
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Por PolitikBr I Brasília, Em 30/08/2025, 18h:26, Leitura: 5 min
Quem é José Kobori?

José Kobori é administrador de empresas, professor, financista e analista de mercado com longa experiência no sistema financeiro. É conhecido por sua atuação como especialista em finanças, já tendo sido executivo em grandes corporações e, mais recentemente, se destacado como palestrante e influenciador no debate sobre macroeconomia e mercado de capitais. Em 2025, Kobori passa a integrar o Conselho de Administração da Fintech Left (Liberdade Econômica em Fintech), que chega ao Brasil em parceria com a UnionPay, a maior empresa de cartões de crédito do mundo — movimento que reforça a relevância de sua visão crítica sobre o papel do Brasil na economia global.
O mito do desenvolvimento e o capitalismo periférico
Kobori resgatou a obra “O Mito do Desenvolvimento”, escrita por Celso Furtado em 1974. Ali, Furtado desconstrói a ilusão de que todos os países poderiam alcançar o padrão de consumo das economias centrais. O planeta, lembrava ele, não teria recursos para sustentar tamanha demanda: seriam necessários “sete planetas Terra” para universalizar o padrão de vida de um americano ou europeu médio.
A questão central, no entanto, não era apenas ambiental. Era política e estrutural: o capitalismo não permite que a periferia alcance o centro. O capitalismo central precisa de uma periferia submissa, exportadora de matérias-primas e produtos de baixo valor agregado, para sustentar as altas margens das oligarquias empresariais globais.
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Do automóvel à dependência estrutural
Kobori ilustrou esse processo com o setor automobilístico. Multinacionais como a Volkswagen e a Ford se instalaram no Brasil com tecnologia já amortizada e infraestrutura consolidada. Com apoio do Estado brasileiro — que abriu mão de proteger a indústria local — esmagaram iniciativas nacionais como a Gurgel, impedindo que o país criasse um polo industrial autônomo. O resultado? O Brasil se converteu em montador, fornecedor de mão de obra e, no máximo, fornecedor de peças de baixo valor agregado, enquanto os lucros e a inovação do produto, isto é, o design e as tecnologias de como fazer os carros de forma mais racional e barata, permaneceram no centro, isto é, nas matrizes da Alemanha e dos EUA.
Esse modelo, lembrou Kobori, concentra renda e aprofunda desigualdades: a elite consome padrões importados, mas a maioria da população segue excluída.
Capitalismo de oligarquias x papel do Estado
Kobori também destacou a contradição do liberalismo. Embora o discurso seja de “livre mercado”, toda a base de inovações — da internet ao GPS — foi financiada com dinheiro público. O próprio Trump, ao comprar participação na Intel, – ele agora está sendo taxado de socialista – mostrou que até os EUA dependem da ação estatal para garantir sua hegemonia tecnológica. Sem o Estado não há inovação.
Uma tecnologia desruptiva pode levar de 30 a 40 anos desde a ciência básica até ela chegar a se transformar em produtos. A iniciativa privada não financia isso. O “time” não é para esse tipo de negócio. Ela – a iniciativa privada – entra na fase final, em que o salto da tecnologia para o produto se dá em tempo em que ela aceite o risco de investir em busca do lucro.
“Em toda crise, todo mundo é keynesiano”, disse Kobori. No fim, o Estado sempre entra como fiador das grandes corporações – As ideias keynesianas defendem que o Estado deve intervir ativamente na economia, principalmente através do aumento dos gastos públicos e da criação de benefícios sociais, para estabilizar o ciclo econômico e combater o desemprego e as crises. A teoria surgiu na década de 1930, durante a Grande Depressão, e argumenta que o mercado não se autorregula, necessitando de um impulso externo para manter a demanda e a produção, buscando o pleno emprego e a estabilidade econômica.
Na visão de Kobori, o modelo chinês de socialismo de mercado desafia a narrativa liberal, ao ter retirado 800 milhões de pessoas da miséria, articulando Estado, planejamento e mercado.
Celso Furtado mais atual do que nunca
As ideias de Celso Furtado permanecem vivas: o capitalismo central continua explorando e tentando bloquear o desenvolvimento da periferia. O livre mercado só interessa aos ricos países europeus e aos EUA quando eles ditam as regras da inovação, da fabricação e da exportação de produtos de elevado valor agregado, em condições que sufocam as iniciativas de desenvolvimento industrial e tecnológico local dos demais países. O objetivo do capitalismo central é sempre manter o capitalismo periférico servil e fornecedor de insumos e de mão de obra de que ele necessita. A ofensiva tarifária de Trump contra o BRICS, por exemplo, nada mais é do que a expressão contemporânea dessa luta: oligarquias empresariais americanas se valendo do poder do Estado para tentar manter subjugadas as economias periféricas, e assim impedir a sua ascensão autônoma em busca de uma nova configuração geopolítica e de poder: as relações do mundo multipolar.
O que Kobori propõe é que o Brasil não aceite passivamente esse destino de subserviência, aliás, descaradamente explicitado pela governança submissa aos EUA do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Para além de narrativas neoliberais, é urgente pensar em um modelo soberano de desenvolvimento, capaz de distribuir riqueza e reduzir dependência.