Trump e a Justiça sob Cerco: quando punir golpistas vira crime de Estado


Apoiadores de Donald Trump fora do Senado durante o motim de 6 de janeiro no Capitólio em Washington, 6 de janeiro de 2021 — Foto: Erin Schaff/The New York Times

A reportagem assinada por Alan Feuer e Dan Barry, publicada no New York Times e reproduzida em O Globo, mostra uma cena que poderia ter saído de qualquer regime autoritário — mas é o retrato dos Estados Unidos sob Donald Trump em 2025. Promotores federais que cumpriram sua função de responsabilizar os invasores do Capitólio em 6 de janeiro de 2021 agora são demitidos, perseguidos e transformados em inimigos internos do Estado.

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Por PolitikBr I Brasília, Em 26/08/2025, 17h:45, Leitura: 5 min

O promotor que virou vilão

O caso de Michael Gordon é emblemático. Depois de oito anos de serviço exemplar, foi sumariamente dispensado com uma carta sem justificativa, assinada pela procuradora-geral Pam Bondi, nomeada por Trump. O verdadeiro “crime” de Gordon? Ter processado com sucesso cidadãos que espancaram policiais, vandalizaram o Capitólio e tentaram impedir a transferência pacífica de poder para Joe Biden após a derrota de Trump em 2020.

Aqueles que defenderam a democracia são agora tratados como vilões. O 6 de janeiro, dia de violência e ódio, foi rebatizado pelo trumpismo como “um gesto patriótico”. A inversão de valores é total: agressores recebem perdão e indenizações; promotores são demitidos, rebaixados e intimidados.

O expurgo e a nova lógica da Justiça

Segundo a reportagem, mais de 1.600 pessoas ligadas ao motim foram agraciadas com clemência presidencial em apenas sete meses. Mais de 20 promotores da força-tarefa que investigava o ataque ao Capitólio foram demitidos ou forçados a pedir exoneração. Outros, como Greg Rosen e Sara Levine, foram rebaixados a funções burocráticas, apesar de terem obtido condenações históricas.

A lógica é transformar o Departamento de Justiça Americano em um braço político da Casa Branca. Não se trata apenas de proteger aliados, mas de intimidar todo o corpo jurídico federal. O recado é ainda para aqueles tentem ousar tocar em Trump e seus seguidores. Eles terão a sua carreira profissional destruída.

O que está em jogo

Essa guinada em direção ao autoritarismo é acelerada e tanta destruir as bases da democracia constitucional. O Estado de Direito depende da independência de promotores e juízes. Se a Casa Branca demite procuradores por cumprirem a lei, se instala a era da vingança institucional.

Trump não inventou a perseguição política — mas está a institucionalizando nos EUA, o mesmo país que por décadas vendeu ao mundo o discurso da “justiça imparcial” e “democracia sólida”. A hipocrisia agora é explícita: a democracia americana se desmancha a olhos vistos, corroída por dentro.

O ataque ao Capitólio não foi um episódio isolado. Ele se perpetua no expurgo de promotores, no revisionismo histórico e na transformação de criminosos em mártires. O 6 de janeiro segue vivo como método de governo. A pergunta é até onde irá a máquina de vingança trumpista antes que reste apenas o silêncio da lei, substituída pela vontade de um homem?

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A farsa democrática da extrema direita

Há um claro paralelo. Se há algo que une os golpistas de Washington e os de Brasília, é a lógica da inversão: criminosos travestidos de patriotas, ataques violentos rebatizados como “manifestação democrática” e líderes autoritários tentando escapar da lei com narrativas de perseguição política.

No Brasil, o 8 de janeiro de 2023 ainda ressoa: Jair Bolsonaro, acusado de chefiar a quadrilha que tentou o golpe de Estado, será finalmente julgado em setembro de 2025, podendo enfrentar até 42 anos de prisão. No Brasil, apesar de todas as dificuldades, as instituições reagiram e seguem forte. Mesmo sob fogo cerrado da extrema direita (bolsonarismo). O STF resistiu, a Polícia Federal investigou e centenas de condenações foram proferidas.

Nos Estados Unidos, a história foi outra. Donald Trump, acusado do crime de insurreição pelo 6 de janeiro de 2021, não apenas escapou da responsabilização, como disputou e venceu as eleições de 2024. Hoje, na Casa Branca, transformou sua visão autoritária em política de Estado. É a reza da mesma cartilha. Lá nos EUA e aqui no Brasil.

Nos EUA, o autoritarismo entrou pela porta da frente: o homem que insuflou uma insurreição agora usa o aparato estatal para implementar um projeto fascista, vingativo e moralmente corrupto.

Enquanto no Brasil o “mito” está prestes, provavelmente, a ser condenado pela Justiça e terminar seus dias na prisão, nos EUA o “ídolo” da extrema direita transformou a própria Justiça em inimiga. No Brasil, os golpistas clamam por anistia; lá, os golpistas recebem perdão presidencial e posam de mártires.

A extrema direita não é apenas nociva politicamente — ela é veneno para a democracia. Vive de slogans vazios, se alimenta da mentira, da violência e da manipulação religiosa. É vingativa, rancorosa e não hesita em transformar a democracia em palco para instaurar a autocracia.

Seja em Brasília ou em Washington, a lógica é a mesma: quando a extrema direita fala em “liberdade”, o que realmente quer é licença para destruir a democracia por dentro.

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