O “Pix do BRICS” é um dos principais caminhos para a consolidação da nova ordem multipolar
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Por PolitikBr I Brasília, Em 24/08/2025, 18h:27, Leitura: 5 min
O lançamento do BRICS Pay, previsto para setembro desse ano, marca um avanço decisivo do BRICS na construção de uma arquitetura financeira própria e multipolar. A proposta do sistema de pagamentos internacionais instantâneos do BRICS — batizada de “Pix do BRICS” — é resultado de anos de trabalho estratégico e técnico, e promete transformar profundamente as relações comerciais globais. Quem não deve estar gostando nada disso é Trump, evidentemente.
Brics Pay: menor dependência do dólar e do sistema SWIFT
O ponto central do BRICS Pay é reduzir, de forma concreta, a dependência do dólar nas transações internacionais. O sistema, que utiliza o Decentralized Cross-border Messaging System (DCMS), com base em conceitos de blockchain, elimina a necessidade da moeda americana como intermediária entre os pares comerciais do bloco.
Os países plenos do BRICS representam cerca de 40-41% da economia mundial segundo dados do FMI baseados em paridade de poder de compra (PPC). Já o G7 (EUA, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá) responde por aproximadamente 28-29% da economia mundial em PPC.
Em valores absolutos, as estimativas apontam que o PIB combinado do BRICS ultrapassa US$ 25 trilhões (nominal) e pode chegar próximo a US$ 35-37 trilhões quando considerada a PPC.
US$ 25 trilhões é muito dinheiro e, na medida em que o BRICS Pay avance, o montante em dólares necessários ao comércio intra grupo tende a cair cada vez mais e mais, e é esse ponto que tanto preocupa os EUA, já que sem demanda crescente por dólares – que os EUA imprimem com a sua “maquininha de dinheiro“, como eles se manterão em pé? Para uma dívida, já praticamente impagável de US$ 37 trilhões. Vamos aos números:
O PIB nominal dos EUA para 2025 está projetado entre US$ 28,3 e 29,9 trilhões. O pagamento diário do serviço da dívida é da ordem de US$ 2,61 bilhões. Por mês US$ 78,3 bilhões. Portanto, o pagamento e rolagem da dívida vai envolver da ordem de US$ 952 bilhões em 2025, que é feita pela venda de novos títulos do tesouro ou rolagem que, nesse momento, com a pouca procura face à provável insolvência da economia americana, atrai cada vez menos investidores institucionais. Dessa forma, a autoridade monetária é obrigada a oferecer maiores taxas de juros e menores prazos de resgate dos títulos, uma espiral rumo ao fundo do poço.
Comparativo
Ao permitir conversões diretas entre moedas locais, como o real e o yuan, o BRICS Pay também elimina a cobrança dupla de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), a exposição cambial excessiva e os custos embutidos no sistema SWIFT, dominado pelo Ocidente.
O BRICS Pay desafia, na prática, o principal mecanismo através do qual os EUA controlam o comércio internacional e até sancionam nações rivais — o dólar e o SWIFT, instrumentos que viabilizam sanções econômicas e sustentam a hegemonia americana há décadas.
Implicações geopolíticas
A aceleração do BRICS Pay é liderada especialmente pela China e Rússia, os maiores antagonistas da supremacia financeira anglo-americana. Ao criar uma rede paralela de pagamentos e, futuramente, de reservas, o bloco não apenas facilita o comércio Sul-Sul como também embarca numa agenda de enfrentamento à hegemonia dos EUA.
Essa estratégia, além de fortalecer o yuan, o rublo, a rúpia, o real e outras moedas no cenário internacional, mina gradativamente o poder da principal arma política americana, que é o dólar: com menos países utilizando dólares em suas reservas e comércio, os EUA encontram cada vez mais dificuldade em rolar e financiar sua dívida pública.
BRICS Pay, digitalização e integração com Pix
Diferente de tentativas anteriores de “desdolarização”, o BRICS Pay avança com integração digital concreta — inicialmente via BRICS Pay QR e já em fase de testes para conexão com o sistema Pix brasileiro. Isso permitirá que cidadãos brasileiros usem QR Code no exterior e que estrangeiros paguem em reais em território nacional.
A inclusão financeira digital entre os onze países do bloco, caso a fase piloto se confirme, consolida o protagonismo do BRICS frente ao G7 e à zona do euro — tornando o dólar uma moeda de trânsito, não mais de domínio absoluto.
Especialistas reconhecem que o BRICS Pay não irá substituir completamente o dólar, e certamente nem é esse o objetivo; o sistema é apenas um dos pilares da nova arquitetura multipolar. Contudo, o seu impacto já se faz sentir no enfraquecimento do monopólio do dólar como meio de pagamento, reserva de valor e instrumento de sanção.
O declínio da capacidade dos EUA em usar o dólar como arma política resulta diretamente dessas transformações: menos países dependem do dólar, mais buscam alternativas, e o próprio SWIFT perde espaço para redes descentralizadas, velozes e mais baratas.
O lançamento do BRICS Pay é um marco geoeconômico que ilustra o declínio relativo dos EUA e a ascensão de uma ordem financeira multipolar.
Os EUA, atolados em uma dívida histórica e incapazes de renovar facilmente seu domínio monetário, terão cada vez mais dificuldade em usar o dólar como ferramenta de coerção e poder global.
O futuro do comércio internacional caminha, assim, para equilíbrio e pluralidade — e o BRICS Pay vai se tornar um dos principais motores desse movimento.
E como os EUA reagirão ao seu declínio, que já se iniciou? Aceitarão passivamente, como fez a Inglaterra quando foi superada, e se reinventarão? Ou jogarão o jogo que eles sempre jogam: promoção de guerras? Provavelmente sim. Eles se viciaram em manter o mundo “abaixo” deles. Agora o jogo está virando. Reagir através de tarifas burras não irá resolver, só irá acelerar ainda mais a multipolaridade e o poder do BRICS e da China, principal parceiro do BRICS em termos de economia.