Quando se cria um monstro a cria supera…O criador I Bruno Porfírio
O que começou como um laboratório sombrio para destruir adversários políticos agora ameaça corroer o próprio arquiteto. Durante anos, Donald Trump e seus aliados se beneficiaram da máquina de teorias conspiratórias inspirada na cultura do 4chan — terreno fértil para manipulação política, desinformação e mobilização digital em larga escala.
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Por PolitikBr I Brasília, Em 11/08/2025, 16h:21
A engrenagem produziu narrativas virais como o Pizzagate, que em 2016 levou um homem armado a invadir uma pizzaria em Washington, convencido de que Hillary Clinton comandava ali uma rede de pedofilia. Nada foi encontrado. Nem crianças, nem ninguém associado à “elite global”, nem mesmo um porão — mas a mentira já havia cumprido seu papel: intoxicar o debate político e enfraquecer a adversária de Trump.
Dali nasceu o QAnon, um enredo ainda mais delirante sobre uma cabala global de pedófilos satânicos, composto por políticos democratas, artistas de Hollywood e magnatas da mídia, supostamente combatidos por Trump como o “messias” contra o “Estado Profundo”.
Não se parece com as mesmas falácias, isto é, o combate aos “comunistas”, “plantadas no Brasil” com o “Messias Bolsonaro”? E como no Brasil, nos EUA o delírio foi amplificado por bots, contas falsas e até interesses geopolíticos estrangeiros, se consolidando como um dogma para parte expressiva da base republicana.
Epstein: a conspiração encontra o criador
Por ironia, o mesmo tipo de narrativa que ajudou Trump agora o coloca contra a parede. O caso Jeffrey Epstein — com sua rede de tráfico sexual, conexões com elites políticas e morte em circunstâncias suspeitas — se tornou combustível para o QAnon eleger Trump presidente pela segunda vez. E, para os seguidores dessa lógica, qualquer político que toque no assunto e tente controlar informações passa a ser visto como cúmplice do “Estado Profundo”. Agora, o exato caso de Trump, presidente.
Trump prometeu, durante anos, revelar os arquivos secretos sobre a morte de Epstein se voltasse ao poder. Mas, em maio, veio a revelação de que seu nome consta da investigação. E quem soltou essa bomba foi ninguém menos que Elon Musk, agora inimigo declarado de Trump. E logo surgiram vídeos de Trump em eventos com Epstein e jovens adolescentes. Uma obscenidade, degradante.
Saiba mais:
Musk: O Vídeo Proibido de Trump
A Autofagia da Extrema Direita
A reação de Trump foi imediata. Ele passou a minimizar o caso e a dizer que tudo não passa de “teoria conspiratória democrata”. Reparem que ele não se defende. Ele acusa. O modus operandi dos extremistas de direita quando confrontados. O mesmo se dá no Brasil. Bolsonaro e os extremistas de direita dizem que Bolsonaro é perseguido político, que os processos contra ele são “caça às bruxas”. A deputada Carla Zambelli, – extremista de direita – após fugir do Brasil, presa na Itália e condenada a 18 anos de prisão, diz a mais coisa: ser vítima de perseguição política.
O resultado: quase dois terços dos americanos desaprovam a postura de Trump no caso, e dentro do próprio Partido Republicano, 36% já declaram desaprovação e 24% preferem o silêncio. É o maior nível de descontentamento interno desde que Trump entrou na política.
O monstro sem coleira
O trumpismo, assim como o bolsonarismo, sempre confiou na força mobilizadora das narrativas forjadas em fóruns anônimos, redes sociais e canais alternativos. O problema é que, uma vez soltas, essas narrativas não obedecem mais ao criador. Hoje, o “monstro” fabricado para destruir opositores também devora seu inventor, corroendo sua credibilidade junto a segmentos da própria base.
Se antes Trump dizia que “não perderia apoio nem se atirasse em alguém na 5ª Avenida”, agora enfrenta um cenário em que a conspiração engole o conspirador. A engrenagem que transformou rumores em armas políticas agora é usada contra ele, com a mesma virulência que antes o beneficiava.
O que está em jogo
O caso Epstein é mais do que um desgaste pontual: é um teste para medir se o trumpismo ainda controla a sua base ou se ela passou a responder a um código de lealdade próprio, guiado por teorias descentralizadas e fora do alcance do comando original.
Se perder essa guerra de narrativa, Trump poderá descobrir que o 4chan e seus desdobramentos digitais não foram apenas instrumentos de poder — mas também sementes de um caos que ele não conseguirá conter.
Esse artigo foi baseado nas seguintes publicações:
De pizzarias a pedófilos satânicos: a conspiração que engole direita nos EUA e se volta contra Trump
4chan: o inspirador de Bannon, Trump e Bolsonaro — o laboratório sombrio da extrema direita digital
Trump entra em pânico com o surgimento de novos laços com Epstein