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Por Política em Debate I Brasília, Em 25/07/2025, 18h:46
(Editado em 26/07/2025, 06h:31)
Se as recentes sanções americanas — a tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, a cassação dos vistos de alguns dos ministros do STF e do PGR — já colocaram o Brasil em alerta vermelho, o fantasma do desligamento do país do sistema GPS veio para expor, de uma vez por todas, nossa humilhante dependência de um país explicitamente hostil e intervencionista: os Estados Unidos.
A paranoia (justificada) do desligamento do GPS e o exemplo iraniano
O cenário ganhou surrealismo nos últimos dias após rumores de que os EUA estariam estudando bloquear o acesso brasileiro ao GPS como arma geopolítica. Não é só paranoia de “teoria da conspiração”: a tática já é conhecida e, recentemente, o Irã desconectou completamente o acesso ao GPS americano e passou a operar, durante e após os 12 dias da guerra contra Israel/EUA, utilizando o chinês BeiDou como sistema de navegação independente. Isso não apenas eliminou a vulnerabilidade dos iranianos às alavancas de Washington, como também marcou a transição para uma nova era de blocos tecnológicos rivais.
O risco real: vulnerabilidade nacional para além da retórica
O caso iraniano acendeu todas as luzes de alerta em Brasília: se, em um contexto de confronto, o acesso brasileiro ao GPS for cortado, paralisa-se muito mais do que aplicativos de localização no celular. Setores vitais como aviação, controle aéreo, agronegócio, logística, Defesa, bancos, telecomunicações e até segurança pública ficam à mercê do “humor” da Casa Branca. Dependemos de um sistema controlado por Washington para literalmente não ficarmos cegos — é disso que se trata soberania em tempos digitais.
O primeiro passo brasileiro: estudo para criar um GPS nacional
Diante desse cenário, o governo brasileiro criou um grupo técnico interministerial, reunindo a Aeronáutica, a Agência Espacial Brasileira e representantes da indústria, para avaliar — finalmente! — a possibilidade do Brasil desenvolver seu próprio sistema de geolocalização por satélite. Esse grupo tem 180 dias para apresentar um relatório sobre os riscos que o páis enfrenta com essa dependência e os caminhos para romper com ela, seja criando uma infraestrutura puramente nacional, seja integrando parcerias com outros sistemas (como o chinês BeiDou ou o europeu Galileo).
O investimento estimado é massivo, o desafio científico imenso e a coordenação institucional exigirá dos governos muito mais seriedade e visão do que modismos políticos de ocasião. Mas o argumento do “custo alto”, usado há décadas para adiar o debate, simplesmente não sobrevive à realidade de ver um país inteiro vulnerável ao desligamento de um botão em Washington. Aliás, um erro histórico e falta de visão estratégica durante décadas.
A perda da confiança e as sanções escalam a urgência
O pacote de hostilidades recentes dos EUA — bloqueio de vistos de autoridades do STF e do PGR, amenizado com juras de represália pelo governo Lula, e o novo pacote tarifário — empurraram o Brasil – o mundo acordou para o perigo que é depender dos EUA – para uma dependência tecnológica inaceitável. É a gota d’água para um país continental que vive, em pleno 2025, refém do bom humor da superpotência que, sem o menor constrangimento, tenta coagir e desestabilizar o Estado brasileiro, a favor da anistia a um político prestes a ser condenado a mais de 43 anos por tentativa de golpe de Estado e crimes associados. Isso é vexatório. Inadmissível.
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Hora de romper a tutela tecnológica
Se países de grandes fronteiras e interesses estratégicos como China, Rússia, Índia e justamente os Estados Unidos têm sistemas próprios, por que o Brasil insiste em viver de “favor digital”? A lição — amarga, mas necessária — é a de que a única maneira de proteger a soberania nacional é criar alternativas tecnológicas, sejam próprias ou em bloco, que reduzam o risco de apagões ou chantagens internacionais.
A experiência do Irã, que na crise preferiu o salto soberano à servidão tecnológica, deve servir de alerta. Está mais do que na hora do Brasil parar de achar que soberania se resume a bandeira na lapela — ou vamos seguir assistindo, apáticos, a uma potência estrangeira decidir a qualquer momento se o país terá direito, ou não, a saber onde está no mundo?
E se Trump desligasse o GPS no Brasil?
Imagine um cenário no qual, sob ordens de Donald Trump, o consórcio americano responsável pelo sistema GPS bloqueie o sinal para o Brasil — uma retaliação radical, transformando o país em laboratório para política de chantagem tecnológica.
O corte imediato do GPS resultaria em caos logístico, pane na aviação e no agronegócio, paralisia dos bancos, das telecomunicações e Defesa — expondo, na prática, a vulnerabilidade de quem confunde “autonomia” com dependência absoluta de uma única potência estrangeira.
Adoção do sistema chinês: socorro de curto prazo?
Num quadro extremo como esse, a entrada do Brasil no sistema chinês BeiDou seria a única alternativa rápida e viável. A China já oferece cobertura global e o BeiDou está operacional para civis e militares. Em questão de dias, ou poucas semanas, as principais operadoras brasileiras de serviços digitais, logística e defesa poderiam atualizar equipamentos para receber os sinais chineses (e, em parte, os do sistema europeu Galileo), mudando pastilhas de chip nos aparelhos ou baixando pacotes de atualização para os novos sistemas de navegação.
No entanto, essa transição, embora tecnicamente possível a curto prazo para setores estratégicos, exigiria investimentos acelerados em equipamentos, licenças, treinamento especializado e algum grau de dependência do governo chinês, algo sensível para setores de Defesa e segurança pública. Mas qual a real diferença? Afinal já somos dependentes a 100% do hostil e chantagista EUA. Ao menos nunca se ouviu falar em estímulo, disfarçado ou não, de se subverter o país para mudança de regime (golpe militar de 1964, caso Dilma Rousseff ) ou de ameaças e sanções explícitas a um Estado até então amigo e parceiro de negócios. Isso é coisa de gangster, de vaqueiro laçando, na marra, “o gado desgarrado”. É assim que os EUA nos trata. A China não é assim. Não se comporta dessa forma prepotente, arrogante e covarde. Mas não há dúvida: a urgência da sobrevivência digital faria o país aceitar esse risco sem hesitação.
Impactos imediatos (e de médio prazo)
- Colapso em setores críticos: O corte do GPS seria sentido na malha aérea, transporte marítimo, agronegócio de precisão, cidades inteligentes, rastreamento de cargas, aplicativos de mobilidade e operações bancárias sensíveis.
- Desorganização produtiva: Empresas perderiam bilhões com logística travada, prejuízos na exportação de grãos, combustíveis, minérios; bancos sofreriam com pane em sistemas de localização e autenticação.
- Oportunidade de avanço chinês: O BeiDou, já instalado em dezenas de países asiáticos e africanos, ganharia um upgrade global ao ser adotado pelo maior país da América do Sul, abrindo portas para uma guinada geopolítica e tecnológica inédita.
Por que é improvável que os EUA tomem essa decisão?
Paradoxalmente, ao usar o desligamento como arma, os EUA dariam um tiro fatal no próprio pé. Isso porque:
- Perda de receita fiscal: Grande parte dos lucros e impostos americanos vinculados a serviços digitais, aplicativos, bancos, logística e transporte passaria, de uma hora para outra, para mãos chinesas — mudando o eixo econômico global dos serviços digitais.
- Estímulo à fuga global do GPS: Outros países, temendo serem os próximos na lista de retaliações, optariam por sistemas alternativos, acelerando a perda de hegemonia do GPS e consolidando a China (ou mesmo a Europa, via Galileo, ou a Rússia, com o GLONASS) como players de peso nesse setor estratégico.
- Desconfiança irreversível: O mundo entenderia, de forma definitiva, que não se pode confiar no GPS como infraestrutura neutra — dinamizando a busca urgente por alternativas nacionais (como o Brasil já começou a estudar).
Chantagem digital é jogo perigoso
A hipótese de Trump usar o GPS como arma política revela o tamanho do barril de pólvora em que o Brasil senta diariamente e, ao mesmo tempo, os riscos de retaliações tecnológicas globais. Caso um corte do GPS realmente ocorresse, abriria caminho para uma transição relâmpago ao sistema BeiDou, com impactos imediatos e, a médio prazo, favorecendo economicamente e geopoliticamente a China — além de minar a confiança dos aliados globais nos EUA.
Mais do que nunca, o episódio reforça a necessidade de o Brasil investir massivamente em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação Científica e Tecnológica, especialmente em setores estratégicos vitais ao país, não apenas na retórica, mas com políticas públicas e acordos reais.