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Por Política em Debate I Brasília, Em 24/07/2025, 16h:53
Donald Trump no cenário brasileiro se converte em um elemento importante, e talvez em 2026 decisivo, da intensa luta política local. Ele conseguiu a proeza de produzir um racha histórico no espectro da direita nacional. Essa facção, que antes oscilava entre um centrismo tímido e a extrema-direita autocrática do clã Bolsonaro, hoje se vê dilacerada por disputas internas, interesses econômicos em colisão e o desgaste da aliança subserviente aos interesses trumpistas.
O conflito político no Congresso
A ruptura ficou visível quando deputados de oposição confrontaram abertamente o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), por ele não ter levado adiante a pauta da anistia ampla que a articulação bolsonarista pretendia. Mais que uma simples discordância, Motta impôs sua autoridade ao vedar sessões durante o recesso parlamentar, operando literalmente um “trator” sobre os planos da ala extremada da direita, o que lhe rendeu até ameaças de sofrer as mesmas sanções pessoais que alguns ministros do STF e da PGR, ou seja, uma explícita chantagem.
E se falamos em chantagem, não podemos deixar de mencionar o que os Bolsonaro´s impulsionaram e vem impulsionando, via EUA, contra o Brasil – tarifa econômica de 50% -. Na prática, com todas as letras é: Fim da tarifa de 50% pelo anúncio da anistia a Jair Bolsonaro. A esse respeito, cremos que a história do Brasil não tenha registrado tamanha cretinice, desamor à pátria (alguns chamam de traição) quanto o que os Bolsonaro´s – Jair, Eduardo e Flávio – vem fazendo às claras, de forma cínica, desavergonhada.
Esse episódio não é isolado, mas demonstra a perda de influência e o isolamento crescente dos Bolsonaro´s dentro do próprio campo conservador, que começa a preferir uma governabilidade pragmática ao radicalismo desmedido.
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O desmonte ideológico
O desgaste do apoio à direita avança além do parlamento. Setores cruciais da economia brasileira — especialmente a agroindústria, tradicionalmente alinhada a Bolsonaro — já reconhecem que a campanha do clã por um “tarifaço” imposto por Trump ao Brasil é um tiro no próprio pé. Óbvio, ululante.
A pressão norte-americana, traduzida na tarifa de 50%, ameaça inviabilizar as exportações para os EUA. O setor de carnes é um desses. As vendas nos últimos 4 meses despencaram 80%, o que mostra uma retração acentuada no consumo pelos americanos desde o início do governo Trump e, não necessariamente, à imposição da tarifa, já que ela é recente e ainda nem entrou em vigor.
Enquanto o consumidor americano é penalizado, aqui rende bons frutos políticos para Lula, com memes da população comemorando a redução do preço da “picanha” e do café, o que impulsiona a percepção da população à favor do governo.
A médio prazo não deve haver prejuízos significativos, já que o mundo é ávido pelos produtos brasileiros, em especial as proteínas. É uma questão de se procurar novos nichos de mercado e diversificar ainda mais a pauta das exportações. Além disso, indústrias e comércio, que antes acreditavam em Bolsonaro como defensor dos interesses empresariais, agora transitam para uma visão crítica, impaciente com a subserviência tóxica do ex-presidente e seus filhos ao governo americano.
Ainda mais preocupante para o bolsonarismo são os receios manifestados na cúpula das Forças Armadas, que temem que o agravamento da crise comprometa não apenas a segurança nacional, mas as estreitas relações militares estratégicas com os EUA e aliados da Otan.
Trump, com sua agressiva retórica protecionista, já reforça Lula e a aproximação com a China
Enquanto o bolsonarismo se fragmenta, o governo Lula observa o fenômeno com atenção. A postura beligerante de Trump, acaba funcionando como um presente político para Lula. Ao estimular o embate comercial e político com os EUA, Trump fortalece a narrativa do Brasil como parceiro preferencial da China, reforçando o acerto do viés de busca de novos parceiros comerciais pelo Brasil, de forma a não depender em demasia de um parceiro intervencionista e beligerante (EUA). Portanto, é inequívoco o acerto do Brasil ser um dos fundadores do BRICS e estreitar cada vez mais os laços diplomáticos e de negócios com os países do Oriente Médio, do sudoeste da Ásia, Japão e África; não esquecendo as boas parcerias com os europeus não tão atrelados aos interesses americanos. No plano prático, isso se traduz em parcerias estratégicas mais sólidas e no aumento da influência internacional do Brasil fora do eixo tradicional Washington-Londres.
Uma direita dividida
A imagem que se forma é a de uma direita brasileira corroída por suas próprias contradições e pela dependência tóxica em relação ao governo Trump, que só agrava sua rejeição nacional e internacional. O clã Bolsonaro, antes símbolo de força, vira sinônimo de fracasso e isolamento.
Essa equação complexa deixa claro que, apesar das crises, Lula e seus aliados conquistam espaço para liderar um país que resiste às pressões externas da hegemonia estadunidense comandada por Trump e suas políticas protecionistas e agressivas.