Política em Debate é uma mídia independente. Sem lado. Informar não é “torcida”. Não é distorcer, manipular ou mentir.

Por Política em Debate I Brasília, Em 18/07/2025, 17h:51
O debate sobre a criação de uma moeda própria pelo BRICS — formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, agora ampliado com outros parceiros estratégicos — tem causado verdadeira inquietação nos bastidores do poder financeiro global, especialmente nos Estados Unidos. A simples ideia de enfraquecer a hegemonia do dólar é recebida com resistência e, para alguns, até desespero em Washington, pois ameaça a base sobre a qual foi erguido o domínio econômico e político dos EUA desde o pós-guerra.
Por que a moeda do BRICS aterroriza o establishment americano?
O grande diferencial do BRICS está em propor uma alternativa real ao sistema financeiro internacional centrado no dólar. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a moeda americana se tornou padrão – em substituição ao padrão ouro – para transações internacionais, reservas cambiais e, sobretudo, para o comércio de commodities estratégicas como o petróleo. Isso deu aos EUA o chamado “privilégio exorbitante” de financiar seus déficits, impor sanções e influenciar políticas monetárias ao seu favor. Em outras palavras, os EUA puderam transferir para o mundo a sua ineficiência e os gastos perdulários de sua população, de seu estilo de vida.
Com uma dívida pública de mais de US$ 36 trilhões, já impagável, e que vai subir ainda mais para, ao menos, US$ 41 trilhões nos próximos anos; com uma economia em déficit comercial desde 2001, o mundo se deu conta que não podia mais sustentar os EUA. Está na hora das principais economias se descolarem do dólar. Seguirem suas próprias políticas, moedas e sistema financeiros independentes do ocidente atrelado ao EUA.
A moeda do BRICS (discutida em fóruns e cúpulas recentes) visa romper essa engrenagem, reduzindo a dependência do dólar e promovendo a chamada “desdolarização”. Para além do simbolismo, a medida tem impactos concretos: enfraquece o poder de sanção unilateral dos EUA, estimula a diversificação das reservas internacionais e abre espaço para um sistema multipolar onde novas vozes ganham relevância.
O plano BRICS e o choque geopolítico
A reação dos EUA não é trivial. Um dos grandes temores do establishment é a possibilidade de perder o controle sobre o fluxo global de dinheiro, que atualmente passa, quase sempre, por bancos americanos e pelo sistema SWIFT — um mecanismo que garante à Casa Branca poder de supervisão e até bloqueio de recursos de países considerados “hostis”, como aconteceu com a Federação Russa em 2022, com o confisco de bilhões de Euros e dólares por parte dos EUA e da Europa ocidental, uma verdadeira pirataria.
Ao propor um sistema de pagamentos alternativo, lastreado não só em moedas nacionais mas também, possivelmente, em ouro, o BRICS desafia diretamente essa arquitetura de dependência.
Alguns pontos-chave desse projeto que tensionam a ordem vigente:
- Comércio direto entre países do bloco, reduzindo o uso do dólar como intermediário.
- Classe de reserva alternativa: uma moeda apoiada por cesta de moedas dos membros e, possivelmente, ouro, tornando-a atraente para outros países emergentes.
- Construção de novos sistemas de pagamentos, à margem do controle ocidental e com incentivo à digitalização das transações.
Obstáculos e limites: a moeda do BRICS é viável?
Apesar de todos os benefícios em um mundo cada vez mais conturbado, a implementação plena da moeda BRICS enfrenta obstáculos nada triviais. O próprio bloco é heterogêneo, marcado por disputas entre China e Índia, diferenças institucionais e desafios para harmonizar políticas econômicas.
Até o momento, o avanço mais palpável foi o estímulo ao comércio em moedas locais e o desenvolvimento de uma plataforma de pagamentos compartilhada, o BRICS Pay .
O BRICS Pay foi concebido para se tornar uma alternativa eficaz e um complemento às tecnologias e serviços de pagamento centralizados existentes.
Para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, especialmente os dois primeiros — Erradicação da Pobreza e Fome Zero — o estabelecimento de um sistema financeiro justo é fundamental. As tecnologias e princípios do BRICS Pay foram desenvolvidos para apoiar esses objetivos.
Impacto geopolítico
Não se pode ignorar o impacto geopolítico desse movimento: à medida que aumentam os acordos bilaterais fora do dólar, cresce o “efeito bola de neve” sobre a confiança internacional na moeda americana. As sanções recentes impostas à Rússia, por exemplo, aceleraram a busca do BRICS por alternativas e mostraram ao mundo o risco de dependência dos sistemas financeiros ocidentais.
O medo dos EUA diante do BRICS não se limita à ameaça financeira — se trata também de disputa de poder, soberania e influência global. Ao desafiar o vigorado sistema unipolar, o BRICS propõe não apenas uma nova moeda, mas um novo arranjo para o século XXI, capaz de redistribuir o poder de decisão internacional. Se a moeda BRICS vai de fato suplantar o dólar, ainda é incerto; mas a reação do governo americano mostra que, pelo menos em Washington, o alarme já soa alto e claro.
Artigo baseado em: